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Série: The Americans (4ª Temporada)


20 de junho de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Um drama histórico consistente e competente


The-Americans-Season-4-Poster-Art (1)A Guerra Fria é um dos períodos históricos mais explorados em produções audiovisuais de vários tipos, tanto que os apaixonados por ver filmes sobre momentos marcantes do mundo já devem estar quase de saco cheio. The Americans, que é exibida pelo FX nos EUA, é uma série pouco assistida aqui no Brasil que surge como uma ótima opção ao apostar em dramas familiares, muita tensão e um ponto de vista pouco explorado.

A trama, que foi criada pelo ex-agente da Joe Weisberg, segue dois agentes russos que vivem infiltrados nos EUA, junto com seus filhos que nasceram na América. Um trabalho difícil e perigoso que só não dá mais trabalho do que cuidar de dois adolescentes, despistar seu vizinho do FBI e lidar com as dúvidas que surgem sobre tudo que os cerca.

Essa foi a premissa que começou a série e me conquistou desde o início, principalmente pelo fato de colocar os russos como protagonistas em um período marcado pelo nacionalismo exagerado. Mas acreditem quando eu digo que The Americans tem se tornado muito mais do que missões de espionagem usadas para remontar a história. The Americans é um drama pesado e extremamente consistente sobre escolhas que, na minha opinião, chegou em seu ápice de competência na quarta temporada.

Todas as tramas apresentadas desde o primeiro episódio foram desenvolvidas com tranquilidade e resolvidas com sabedoria, colocando um ponto final surpreendente em certas pontas soltas e deixando um gostinho de perfeição em todos os episódios. O roteiro conseguiu delinear tudo o que o casal estava sentido a partir dos dilemas e dramas envolvendo Gabriel (Frank Langella), William (Dylan Baker), Pastor Tim (Kelly AuCoin), Martha (Alison Wright) e Paige (Holly Taylor). Todos eles foram responsáveis por colocar grandes decisões nas mãos dos protagonistas e fazerem toda a roda de emoções e conflitos girar até maravilhoso episódio final.

Claro que alguns problemas apareceram, principalmente no núcleo russo focado na Rezidentura. Eles passaram todos os episódios em um incessante jogo de segredos, cenas de sexo completamente desnecessárias, adição de um personagem novo na hora errada e eliminação de personagens interessantes sem muita explicação. Felizmente, uma dessas mortes resultou em uma cena chocante, que poderia facilmente ser usada em aulas de cinema junto com muitos outros momentos da série. Posso dizer com toda certeza do mundo que não é toda série que consegue deixar um nível gigantesco de tensão no ar enquanto termina sua temporada com um diálogo de duas linhas entre pai e filha.

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A direção dos episódios também merece tantos aplausos quanto o roteiro. Os responsáveis pela condução de cada um vai mudando, mas é incrível perceber que a qualidade não diminui em momento algum. Todos eles tem total controle sobre os movimentos fluídos de câmera, a escolha de ângulos que escondem novos significados em cada canto, a recriação da época e, principalmente, o ritmo de uma série que precisa prender seu espectador por quase uma hora sem utilizar cenas de ação com frequência. Eles conseguem fazer isso de forma quase perfeita, contado com o maravilhoso apoio da direção de arte, da trilha sonora e da edição.

E tudo isso sem contar as atuações espetaculares. Matthew Rhys e Keri Russell (sempre linda e sexy na medida certa) tem dois papéis complicadíssimos que exigem muito na parte física e emocional, mas eles tiram isso de letra em diálogos maravilhosos, cenas onde o sofrimento transparece nos olhos e momentos mais singelos de cumplicidade. É um trabalho perfeito que encontra o suporte necessário nos coadjuvantes, liderados por Noah Emmerich.

O personagem desse último, Stan, tem crescido bastante nas últimas temporadas e deve ter ainda mais espaço com o início da reta final, mas quem realmente brilhou na maior parte dos episódios foram as dúvidas e incertezas de Holly Taylor, o sofrimento da viagem sem volta de Alison Wright, a adição pontual e brilhante de Dylan Baker e, finalmente, Frank Langella. Também é justo afirmar que são poucas as séries que podem ter um elenco desse usando e abusando de um material de qualidade.

No final das contas, a união de todas as qualidades faz com que The Americans seja uma série espetacular tanto no aspecto dramático, quanto no histórico. Não é um programa que mereça ficar fora da sua watchlist pela sua consistência e brilhantismo. É uma série lenta que pode incomodar algumas pessoas, mas o futuro promete um pouco mais de ação, sofrimento e decisões nas próximas duas temporadas, que vão marcar o fim de tudo. Talvez um final trágico já esteja traçado desde o inicio, mas o caminho com certeza vai valer muito a pena.


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