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E o gerente enlouqueceu, porque a cada ano a Globo vem adotando uma postura cada vez mais ousada em sua programação. O ano de comemoração de 50 anos da emissora começou com uma aposta diferente ao transformar minisséries famosas em filmes (uma boa maneira de apresentar esses clássicos para um novo público, mas eu tenho minhas ressalvas em relação à troca de formatos) e agora somos agraciados com uma série realmente fora de qualquer padrão da emissora.

A série Felizes para Sempre? foi escrita por Euclydes Marinho (autor da ótima minissérie O Brado Retumbante) com base em outra obra global escrita por ele e chamada “Quem Ama Não Mata”. O objetivo aqui é fazer um entrelaçamento da história de cinco casais ligados, em sua maioria, por laços familiares. A questão é que – como os primeiros capítulos deixam claro – todo mundo trai todo mundo dentro da história e isso vai acabar gerando um crime passional.

Esse desenvolvimento criminal ainda não começou, mas pode acabar levando a série para o típico “quem matou?”. No entanto, toda a construção desse início foge disso tudo e não se parece com outras produções do tipo, como O Rebu ou O Canto da Sereia. O texto de Felizes para Sempre? é muito mais cru e ágil do que tudo o que eu já vi na Globo. A série não enrola nem um pouco, usa personagens reais e completamente humanos para segurar a história e ainda perde todo o escrúpulo. O principal destaque desse início é, sem dúvida, a maneira como a série trata assuntos complexos (corrupção, morte, traição, prostituição) sem papas na língua e sob um olhar bem diferenciado das telenovelas.

A direção da série, que é encabeçada pelo genial Fernando Meirelles, também traz um visual brilhante para a série. É verdade que a Globo está acertando no visual de todas as suas produções, no entanto algumas coisas diferentes e interessantes podem ser marcadas nessa obra. A primeira grande qualidade, logicamente, está ligada à Meirelles, que não vai dirigir todos os episódios, mas é o grande cabeça visual de Felizes.

É ele o responsável pelo brilhante jogo de câmeras desses dois primeiros capítulos, entretanto sua grande contribuição é a maneira como Brasília é tratada quase como um personagem da série. Foi uma opção do diretor usar a cidade como pano de fundo para o projeto e o acerto fica claro nas cenas envolvendo a corrupção ou as manifestações.

Outra coisa que me chamou muita atenção foi a maneira a tecnologia foi a adicionada a série, sendo um fator importante de conexão das tramas e tendo um aspecto visual incrível. Nunca tinha visto as mensagens pipocarem daquela maneira na tela e isso me lembrou muito o estilo usado em Sherlock, da BBC, para representar o mesmo aspecto.

Ao mesmo tempo que o roteiro fragmentado e corajoso pode afastar o grande público, como aconteceu em O Rebu, a parte técnica tem a capacidade de prender o mesmo. Assim todo a trabalho fantástico de trilha sonora, edição e fotografia ganham mais importância. A primeira é simplesmente brilhante, usando desde instrumentais belíssimos até o rock irônico de Arnaldo Antunes. A segunda é responsável por picotar a série e dar um ritmo ainda mais ágil para os acontecimentos. E a fotografia merece um parágrafo à parte.

Esse foi o aspecto técnico que mais me impressionou. A maneira como as cores foram trabalhadas deixou a série bem interessante, mas a cereja do bolo foi aquele visual louco do flashback relacionada à Marília e Cláudio. Aquele preto e branco mais contrastado e saturado deu aspecto inédito para as minhas vistas e fez a cena chocar ainda mais.

Ainda sobre essa cena, muita gente falou na internet que a Globo estava plagiando o filme Anticristo, do polêmico Lars Von Trier. Eu não concordo por dois motivos simples: 1) não ficou claro que eles estavam transando durante a morte da criança, como acontece no filme; 2) o desenvolvimento da história é completamente diferente do filme e, ao meu ver, muitos indícios futuros são necessários para classificar isso como plágio.

E para fechar todos esses elogios à uma das produções mais loucas da Globo, sou obrigado a falar do elenco espetacular. E olha que nem foram usados muitos atores do primeiro escalão global na escalação dos protagonistas. No cardápio desses 10 episódios teremos João Miguel, Enrique Diaz, Adriana Esteves, Cássia Kis Magro, João Baldasserini, Perfeito Fortuna e as sempre lindas Maria Fernanda Cândido e Paola Oliveira. Todos os personagens foram bem apresentados (inclusive aqueles que não citei) e prometem bons momentos no decorrer da trama,mas até agora o foco ficou com o triângulo amoroso formado por Diaz, Cândido e Oliveira.

Muita coisa ainda vai acontecer na trama, mas não acho que o texto vai perder a sagacidade e a ousadia. Ainda teremos episódios que não terão a mão de Fernando Meirelles diretamente, mas não acho que o visual da produção mudará drasticamente. Também tem muitos personagens apagados nesse início, mas isso é só a calmaria antes da tempestade. Eu gostei mito do que vi nesses dois primeiros episódios e acho que Felizes para Sempre? merece ser visto, mesmo fugindo daquilo que estamos acostumados.

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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