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Bagunçado e mediano, Sergio é um thriller político que escolhe deixar o romance em primeiro plano.


Sergio Vieira de Mello foi, sem dúvida nenhum, o melhor e mais importante diplomata que esse país conheceu. Afinal de contas, estamos falando de especialista em resolução de crises que trabalhou na ONU por quase 35 anos, chegando a liderança do Alto-Comissariado de Direitos Humanos depois de coordenar operações humanitárias em lugares como Paquistão, Líbano, Ruanda, Camboja, Timor Leste e Iraque. Como imagino que poucas pessoas da minha faixa etária conheçam Sergio (morto justamente no Iraque há quase 17), achei válido começar essa crítica com um pequeno background. Para mostrar, inclusive, que esse grande homem merecia uma obra mais redondinha e focada em sua carreira.

O longa produzido pela Netflix começa, assim como diversas biografias, com o atentado que causou a morte do protagonista, usando seus últimos minutos na Terra como justificativa para reunir os principais fragmentos de sua vida. O problema é que, mesmo acumulando pontos interessantes em relação a suas mensagens políticas, Sergio apresenta mais o romance do diplomata com a argentina Carolina Larriera do que sua atuação magnífica em alguns desses países citados.

É claro que ela teve muita importância em diversos aspectos da vida do protagonista. Tenho certeza disso mesmo sem conhecer a história de ambos com profundidade. Entretanto, é muito estranho acompanhar essa abordagem que limita seu próprio objeto de estudo, ignorando praticamente tudo o que ele fez antes do Camboja ou resumindo sua atuação no Timor Leste aos momentos em que Carolina esteve presente.

sergio

É daquelas coisas bizarras que se tornam incompreensíveis a partir do momento em que uma mera pesquisa no Google revela quanta informação poderosa foi deixada de fora. Existe, inclusive, um documentário homônimo (também disponível na Netflix) que foi dirigido pelo mesmo Greg Barker que dirige este longa. Uma produção premiada que realmente consegue mostrar quem foi Sergio Vieira de Mello através do seu trabalho.

Sei que é praticamente impossível afirmar qualquer coisa em relação as escolhas narrativas de um filme sem fontes internas, mas o fato de Barker comandar a produção me fez pensar na possibilidade do romance ser uma espécie de diferencial entre as duas obras. Considerando então que aquela história já havia sido contada num formato documental, colocar o romance no centro de tudo pode ter sido encarado como uma necessidade. Algo que justificasse a existência de uma nova produção comandada pelo mesmo diretor.

Lógico que não posso comprovar essa teoria, porém achei válido compartilha-la no texto porque tal ideia se torna inerente ao filme durante a projeção. Digo isso porque, apesar dos bons momentos em que o amor ganha status de “luz no meio dos escombros”, esse fio condutor acaba sendo o causador – direto e indireto – de diversos problemas de Sergio. Escorregões que, por sinal, vão muito além da ausência de passagens importantes da vida do brasileiro.

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O roteiro, por exemplo, até consegue cumprir sua missão de apresentar a essência de Sergio em pouco tempo, mas falha miseravelmente na construção das motivações que acompanham o personagem. Particularmente, eu senti muita falta de conhecer mais do seu background daquele homem para entender o que o influenciou a ser daquele jeito. Algo bem mais inspirador e condizente com a cena de abertura do longa do que a tal história de amor que preenche quase 70% do texto de Craig Borten (Clube de Compras Dallas).

Além disso, a falta de justificativas bem trabalhadas se espalha pelo longa como um todo, chegando a prejudicar a construção do atentado em si. Os motivos por trás do ataque (que foi bastante especifico quanto ao seu alvo) soam como um mistério a ser solucionado, graças a passagens temporais bagunçadas, ao pouco tempo de tela dedicado ao Iraque e a uma construção política que deve ser considerada, no mínimo, questionável. Em certo momento do longa, a condução desse elemento fica tão confusa que me fez pensar que o representante dos EUA – tratado como um antagonista claro e direto desde o início – estaria envolvido no planejamento do ataque.

Enquanto isso, a direção de Barker segue essa proposta do tempo fragmentado, fazendo uma viagem não-linear e, de certa forma, onírica pela vida do protagonista. Uma sacada que, no papel, se encaixa a ideia de que um filme passa na nossa cabeça antes da morte ao mesmo tempo em que deixa a condução da trama nas mãos do próprio Sérgio. É como se suas últimas reflexões servissem como pontos de conexão entre os flashbacks, reunindo desejos e arrependimentos que o transformam de alguma maneira.

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No entanto, essa leitura que parece tão interessante no papel esbarra na inexperiência de Barker como diretor e acaba não funcionando da mesma forma na tela. Ele deixa claro que tem muito conhecimento e carinho em relação ao personagem-título, mas também comprova que só isso não sustenta a narrativa de um filme. Principalmente porque fazer uma cinebiografia desse tipo é completamente diferente de fazer um documentário.

Não estou dizendo que ele tenta imprimir a mesma estética ou se embola com as linguagens. Baker tem plena noção das diferenças e usa isso a seu favor nos momentos que filma habitantes com extrema naturalidade ou nas diversas passagens em que mistura cenas reais e ficção. Só falta exatamente aquele pouquinho de experiência que ajudaria no equilíbrio e na condução de um todo menos bagunçado e confuso. Garantiria, por exemplo, que grandes ocasiões da vida de Sergio não se perdessem entre memórias que surgem dentro de outras memórias numa amarração mais bizarra do que o necessário.

A única subtrama que consegue sobreviver a esse caos e ser bem desenvolvida, no final das contas, é justamente o romance entre Sergio e Carolina. Uma conquista alcançada mais por conta da química entre os atores do que pelas virtudes acumuladas pelo roteiro ou pela direção. O que significa, em outras palavras, que a Netflix, o diretor, o roteirista e quiça o público precisam agradecer a Deus pela presença de Wagner Moura (Wasp Network) e Ana de Armas (Entre Facas e Segredos) no processo, porque é impossível contabilizar todas as vezes que eles carregam o filme nas costas.

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Ele realmente se transforma em outra pessoa. Não vou ter a ousadia de dizer que está idêntico ao próprio Sergio Vieira de Mello porque vi pouca coisa dele em vídeo, mas consigo garantir que Wagner se dedicou de verdade ao trabalho. Emagreceu, alterou toda sua linguagem corporal e mudou até o seu jeito de sorrir pra incorporar o personagem. Uma série de detalhes simples que, além de fazerem a diferença no quesito credibilidade, ajudam a transmitir quem foi o biografado nos diversos momentos em que o roteiro escorrega.

Do seu lado, Ana de Armas segue essa mesma toada de maneira hipnotizante. Ainda que tenha um papel consideravelmente menor em relação ao de Wagner Moura, a composição sensual e cheia de inteligência que ela cria para Carolina é igualmente decisiva para o filme. Afinal de contas, como já foi citado anteriormente, estamos falando de uma produção que escolhe apresentar seu biografado através do romance.

Entretanto, preciso deixar claro que gostar das atuações e até mesmo da maneira como esse relacionamento se desenvolve, não muda minha opinião geral de que é um desperdício gastar duas horas nesse romance que não tem nada demais. Especialmente quando a outra opção seria mergulhar na vivência política de Sergio. O que fez com que ele merecesse uma biografia tão cara não foi o namoro com Carolina, e sim sua trajetória como diplomata. Não sou louco de negar a importância dela, mas tentar resumir tudo ao amor é um belo escorregão.

Mesmo assim, se o filme optou por esse caminho tortuoso de buscar amor em meio a missões em terras devastadas, vamos pelo menos comemorar o fato do casal principal ter talento suficiente pra garantir um filme mediano. Sem eles, a maioria das cenas que Barker usa como peças-chave (o jantar em Nova York e o encontro nos escombros são alguns exemplos) soariam ainda mais vazias, destruindo Sergio de uma maneira que nenhuma missão da ONU conseguiria salvar.


OBS 1: Acho que o longa funciona melhor como um teaser para o documentário, já que deixa aquela vontade de realmente ver tudo que Sergio fez como diplomata.

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Sergio (2020)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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