AODISSEIA
Filmes

Selvagem – Um retrato honesto da nossa educação

Um filme leve e honesto sobre as ocupações de 2015.


30 de setembro de 2019 - 19:52 - Flávio Pizzol

Dividido entre a leveza da adolescência e a seriedade exigida pelo tema, Selvagem oferece um retrato honesto das ocupações escolares de 2015.


Novembro de 2015. O governo de Geraldo Alckmin anuncia um projeto de reestruturação do sistema escolar estadual que culminaria no fechamento de quase uma centena de escolas e, obviamente, no remanejamento dos milhares de alunos e professores ligados a essas instituições. A resposta daqueles que sofreriam com tais mudanças veio através de um movimento de secundaristas que ocupou aproximadamente 200 escolas como forma de resistência. Os protestos fizeram o governo suspender a reforma naqueles moldes, mas, antes de qualquer final feliz, a tensão gerada pelas ocupações virou combustível para a produção do incrível Selvagem.

Digo isso com toda a certeza do mundo, porque esse é o cenário perfeito para criar uma espécie de “coming of age social” que explora a transição do adolescente pra vida adulta por meio de um filtro político bastante complexo. E, no centro disso tudo, estão o longa coloca Ciro e Sofia, dois personagens muito próximos que vivem situações familiares distintas e possuem opiniões diferentes sobre a ocupação da escola em que estudam.

Trabalhando com as dúvidas e as possíveis decisões desses protagonistas que estão longe de serem os mais politizados da turma, não vou negar, logo de cara, que Selvagem escorrega um pouquinho na exposição totalmente didática dos fatores que geraram as ocupações e na construção do relacionamento “amoroso” do casal principal. Claro que uma parte desse didatismo possui função narrativa, mas o excesso misturado ao subtexto romântico transforma o longa em uma versão de Malhação. Um resultado que certamente não condiz com a linguagem pessoal e bem realista escolhida pelos roteiristas.

Por mais que essa proximidade seja muito importante na hora de fazer o espectador torcer pelo sucesso dos personagens (incluindo o casal que não funciona tão bem), a verdadeira sacada do roteiro é dar vez e voz para uma diversidade de estereótipos e opiniões. Então o filme reúne o “mané” que defende a ocupação só pra ficar de folga jogando futebol, a líder política da sala, o poeta introspectivo que não consegue falar que gosta da garota, a nerd que manda em todas as matérias e outros tipos clássicos dos filmes de adolescentes e os ressignifica em prol de uma causa social. Tudo isso enquanto explora, relações familiares, professores, casas conservadoras e a cobertura parcial oferecida pela mídia. Dessa forma, apesar do foco estar merecidamente nos estudantes, o longa acerta quando abre espaço pra analisar, de maneira bem honesta, como a sociedade em geral enxergava a ocupação.

Ao mesmo tempo em que isso cria um relato completo que se conecta com os públicos mais diversos possíveis, o diretor parece se perder no meio de tantas vozes, criando um tempo narrativo que torna a “conversão” de alguns personagens um bocado abrupta. A transição de Sofia de nerd preocupada com o ENEM para a ativista disposta a cuspir na polícia, por exemplo, exige algum desprendimento da realidade. Algo que só não prejudica Selvagem de uma vez por todas, porque Diego da Costa (Os Caubóis do Apocalipse) se destaca na aplicação sensível da linguagem cinematográfica. A câmera na mão coloca o espectador dentro da escola, os enquadramentos reforçam o isolamento de Sofia dentro de casa e os planos longos dão peso às palavras fortes que os estudantes proferem em uma das festas cheias de poesia.

Ainda que o trabalho de direção possua, assim como o texto, uma boa dose de simplicidade narrativa, Diego consegue disfarça-la graças a eficiência de um conjunto que também se destaca na sequência – muito bem editada – da invasão policial, nas incursões onde um mundo de sonhos composto por um sofá fortalece a aura leve e fantástica dos “coming of age”, e no controle do elenco recheado de jovens iniciantes. É verdade que existem algumas oscilações e certos nomes despontam como elos fracos da corrente, mas o saldo acaba sendo positivo quando se considera a pouca experiência da maioria dos atores e atrizes em destaque. Mesmo assim, seria injusto não dizer que as intérpretes de Sofia e Mirella se destacam ao lado de Paulo Pinheiro, Lucélia Santos e Rincon Sapiência.

No entanto, apesar de todos esses pequenos problemas, a verdade é que muita coisa passa despercebida por causa da linguagem pessoal que já foi citada acima. Os diálogos casuais bem construídos fazem com que seja fácil acreditar na veracidade dos personagens e mergulhar nesse relato que escancara a importância de resistir diante de governos que tratam a educação com desdém. Uma mensagem necessária que Selvagem transmite de maneira leve (relativamente) e honesta, rompendo barreiras partidárias e extremismos sem perder a chance de dizer que nós resistiremos.


* Filme assistido no 26º Festival de Cinema de Vitória.