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Scooby é muito bonitinho quando fala sobre a amizade, mas acaba perdendo a maior parte do seu foco na tentativa de construir um universo compartilhado.


Não existe uma maneira melhor de começar esse texto do que falando que eu amo Scooby-Doo e sua turma. É, certamente, um dos desenhos que mais marcou a minha infância, carregando consigo todas as mídias já percorridas pela Máquina do Mistério.

No pouco tempo em que tive TV a cabo, eu esperava ansiosamente pelo próximo episódio de O Que Há de Novo, Scooby-Doo? (releitura dos anos 2000). Assisti os dois longas em live-action assim que estrearam no cinema e tenho boas memórias sobre o primeiro deles. Acompanhei todos os crossovers e reimaginações, incluindo a história em quadrinhos publicada pela DC e o incrível união com Supernatural.

Em outras palavras, podemos dizer que eu estava ansioso para ver tudo que Scooby! O Filme decidisse apresentar, principalmente a origem da amizade do cachorro falante com Salsicha e as outras “crianças intrometidas”.

E, como o material de divulgação sugeriu desde o início, o longa começa justamente com esse prólogo que apresenta o começo da amizade entre Scooby e Salsicha, o primeiro encontro com Fred, Daphne e Velma e até mesmo a resolução do primeiro mistério deles. Tudo com referências bem posicionadas, momentos marcantes e uma linguagem bem fofa.

Scooby

O problema é que a história não gira exclusivamente em torno dessa amizade, e acaba dividindo seu espaço com o começo de um possível universo compartilhado da Hanna-Barbera. E aí, num piscar de olhos, os supostos protagonistas perdem espaço para participações sem desenvolvimento ou peso narrativo. A trama sobre amizade se transforma num filme de ação genérico e cheio de episódios desconectados. E os bons mistérios que sempre acompanharam Scooby-Doo (os casos, mesmo sendo infantis, eram bem construídos) dão lugar a motivações forçadas, reviravoltas vazias e um deus ex machina que destrói o terceiro ato.

Eu não me incomodo nem um pouco com as reinvenções do material original, a linguagem mais infantil/tecnológica ou com a tentativa de construir o universo citado. Pelo contrário… Gosto de quase todas as loucuras que já fizeram com a Máquina do Mistério (incluindo o apocalipse zumbi que mata protagonistas nos quadrinhos), entendo que focar nas crianças seja a melhor escolha para o futuro do personagem, e acho que Falcão Azul, Johnny Quest, Corrida Maluca e afins realmente merecem um espaço maior nos cinemas.

Scooby

Só não acho que fazer tudo isso de uma vez tenha dado certo. Principalmente a parte da inserção de outros personagens clássicos da produtora fundada por William Hanna‎ e Joseph Barbera‎. Admito que também não curti muito a maneira sem pé nem cabeça que o roteiro tenta remontar o passado do Scooby, mas a ausência de foco foi, sem nenhuma dúvida, o fator que mais atrapalhou minha experiência. 

Gosto muito do começo, de alguns pontos da conclusão e, acima de tudo, das sequências que desenvolvem a amizade. Acho que o longa seria quase perfeito, se a evolução do tema principal (supostamente essa amizade) não fosse entrecortada por situações soltas, aparições que não adicionam nada e personagens que não se encaixam no todo. O Falcão Azul, apesar de sua construção fraquíssima, talvez seja o único digno de um resgate por ter tempo suficiente pra funcionar como um coadjuvante de luxo, já que a maior parte dos desvios só prejudicam a imersão e deixam o segundo ato arrastado.

Scooby

 

Claro que isso não anula o resto quando estamos falando de uma animação que surpreende bastante em termos técnicos e visuais. Tony Cervone (Tom & Jerry) acerta tanto nas sequências de ação frenéticas e divertidas, quanto na construção de um textura visual que mistura, com muita eficiência, os traços cartunescos e elementos realistas ou tecnológicos. O contraste entre os cenários marcados pelo 2D e os personagens em 3D resulta num filme realmente bonito. É uma produção de encher os olhos que certamente vai hipnotizar as crianças e flertar bem com a nostalgia dos mais velhos.

E aí eu acredito que o balanço final vai depender exclusivamente dos gostos e expectativas de quem está assistindo. Consigo ver Scooby gerando reações favoráveis do tipo “comprei um filme do Scooby-Doo e recebi todos os outros personagens da Hanna-Barbera”, mas também vejo uma parte do público decepcionada por querer mais do cachorro falante e das características que marcaram o seu desenho. As primeiras não vão se incomodar nada com as inserções aleatórias, enquanto as outras vão sentir que o longa não cumpriu suas promessas com tanta assertividade.

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Não vou julgar nenhum dos lados, mas admito que eu, particularmente, fiquei bem dividido. Fui fisgado pelas boas referências e me apaixonei pela vibe, mas também senti em diversos momentos que o desenvolvimento truncado estava impedindo Scooby! de alcançar seu potencial máximo. Terminei o longa com a sensação de que ele poderia ter sido mais honesto com sua proposta e admitido desde a divulgação que a Máquina do Mistério seria apenas a nossa condução pra esse universo.

O próprio Scooby-Doo poderia até ser o protagonista de um longa chamado, por exemplo, Scooby-Doo no Hanna-Barbera Verso (ou alguma versão mais criativa, por favor). Pouca coisa da história mudaria, porém a Warner garantiria que o público não ficasse em dúvida sobre o foco do filme, evitando assim que algumas quebras narrativas soassem deslocadas.

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Não estou dizendo que isso salvaria o filme, porque ele ainda teria incoerências suficientes pra decepcionar uma parcela da audiência. Mas, nesse caso, aquele gostinho que fica no final poderia ser bem menos amargo. Tenho certeza que seria muito melhor desligar a TV pensando na belíssima mensagem sobre amizade que Scooby! tenta transmitir ou no futuro da Hanna-Barbera do que em quebras narrativas que atrapalharam minha experiência.


OBS 1: Mesmo não curtindo o filme tanto assim, eu ainda estou bastante ansioso pro desenrolar desse universo.

OBS 2: Considerando que estamos falando de um filme infantil, ignorei ou encarei várias incoerências como piadas, mas a justificativa do Dick Vigarista é pavorosa demais pra não ser citada. Como ele teve capacidade pra construir um portal se Alexandre, o Grande tinha colocado todas aquelas regras? Se era necessário um cachorro específico pra liberar, o Muttley não deveria ter tido a entrada barrada também?

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Scooby! (2020)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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