0

O amor e a mentira a 80 km/h, qual deles é mais importante? Run entrega a resposta mais genérica possível para esse questionamento.


Depois do sucesso avassalador que Fleabag fez nas premiações e nos serviços de streaming, podemos afirmar que todos os projetos com o dedo de Phoebe Waller-Bridge (Broadchurch) vão chamar alguma atenção. E, com a benção da HBO, o projeto da vez é justamente a curta e direta Run.

A série – criada por Vicky Jones (parceira de Phoebe desde Crashing) – acompanha a jornada de um casal que fez um acordo na época de faculdade: se um deles mandasse uma mensagem com a palavra Run (“corra” em português) e fosse correspondido, eles iriam parar o que estivessem fazendo e se encontrar com a missão de atravessar o país num trem. No final da viagem, eles decidiriam se continuariam juntos ou acabariam tudo de vez.

Uma premissa meio absurda e definitivamente curiosa que, sem grandes explicações, já puxa o espectador pra dentro da trama. Você não sabe nada sobre os protagonistas, mas acaba ficando preso pela necessidade de descobrir quem são aquelas pessoas, o que elas estão deixando pra trás, qual sua história regressa e, por motivos óbvios, o que pode acontecer depois. E o primeiro episódio de Run constrói esse quadro de perguntas de maneira bastante eficiente.

Run

Com o tempo, Jones começa a “encher o trem”, avançar com as tramas e dar mais corpo ao projeto. E, até certo ponto, cumpre isso com a mesma qualidade. Ela faz o público acreditar na existência de uma história entre os protagonistas através de diálogos que, além de estarem bem posicionados na narrativa, sabem equilibrar drama e aquele humor ácido que é característica recorrente nos trabalhos de Phoebe. 

Ao mesmo tempo, Merritt Wever (Inacreditável) e Domhnall Gleeson (Questão de Tempo) dão vida a toda essa loucura com muito carisma, honestidade e, depois de certo tempo, esforço. Eles são peças fundamentais nessa equação cujo objetivo principal é manter o espectador conectado aos personagens e vidrado no desenrolar da trama. Graças aos dois, é fácil acreditar nos sentimentos expressados por Ruby e Billy, ficar curioso e até mesmo torcer por esse casal que arranca risadas com suas incompatibilidade. Principalmente porque, no papel, eles crescem a cada revelação que o texto joga na tela.

Run

O problema, entretanto, é que esse crescimento vem acompanhado por muitos buracos, inconsistências e acontecimentos sem profundidade. Como Run leva seu título a sério e não deixa o espectador refletir muito até o próximo acontecimento, é possível que a maior parte desses problemas passe despercebido. São muitas informações expostas com uma velocidade assustadora tanto pelo roteiro, quanto pela direção. 

O texto acumula inúmeras reviravoltas, aparições de personagens, segredos, revelações e dilemas do passado através de uma construção narrativa super ágil. Enquanto isso, a direção – dividida por Kate Dennis (Glow), Natalie Bailey (Avenue 5) e Kevin Bray (Insecure) – carrega o espectador pelos corredores do trem de maneira quase vertiginosa, usando os cenários apertados e o tempo para criar boas sequências de suspense

É uma tática hipnotizante que soa como uma mágica que desvia os olhos do público pra completar o truque no palco principal. É uma artimanha meio baixa, mas que funciona até certo ponto. E eu digo isso sabendo que a estratégia funcionaria até o final, se o ritmo não diminuísse tão bruscamente quando casal decide sair do trem. A partir desse ponto, Run tenta se renovar através de uma sequência acelerada de questionamentos éticos e morais (que vão de aborto aos bastidores do coach), porém perde toda a sua essência em a discussões rasas. Até surpreende em certos momentos, mas não passa de uma grande jornada morro abaixo.

Run

Os novos personagens não tem graça, o humor começa a ficar menos sutil e mais bobo, a transformação da trama central em caso policial é idiota, as motivações perdem o fôlego e até mesmo o romance ganha contornos genéricos. Os atores – incluindo uma Phoebe Waller-Bridge que faz esforço para se adequar ao humor sem timing – começam a definhar junto com a série até alcançar um episódio final pavoroso.

Esse é o momento que revela tudo e mostra que Run realmente estava enganando o público. A quantidade de informações saia da televisão com alguma carga de surpresa e prendia a atenção de quem está assistindo, enquanto, no fundo, uma narrativa vazia e sem graça passava despercebida. E aí, com o fim da magia, a série conseguiu mudar de um produto que eu queria divulgar pra um texto que eu precisava escrever como um desabafo sobre a má qualidade dos três últimos episódios. E, considerando que a série só tem sete, flertar três episódios abaixo da média é algo que descarrilha qualquer trem.


OBS 1: A audiência de Run acompanhou a derrocada da qualidade e foi diminuindo a cada episódio, colocando a série na lista de projetos menos vistos da HBO. Logo, com o canal investindo muito em streaming ao lado da Warner, acho muito difícil que role uma renovação.

OBS 2: Pensando positivamente, pelo menos Run termina com um arco concluído…

product-image

Run (2020)

5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

Dark | Tudo o que você precisa saber para a 3ª temporada

Previous article

As 10 melhores músicas de LOST

Next article

You may also like

Comments

Leave a reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

More in Séries