AODISSEIA
Filmes

ROMA: O retrato fidedigno da naturalidade

O texto a seguir contém alguns spoilers!


19 de dezembro de 2018 - 17:08 - Tiago Soares

Afonso Cuarón é Deus. Pelo menos dentro do seu novo filme, que além de dirigido, escrito, editado e cinematografado por ele, é sua obra mais autoral e pessoal. ROMA é cinemão de alta qualidade ao mesmo tempo em que é simples em sua narrativa, é brilhante esteticamente, e tem um dos textos mais fáceis do mundo, é divino e mundano.

A obra natural do diretor de Gravidade e Filhos da Esperança fala de Cleo, uma jovem empregada que vive na casa de uma família de classe média no México dos anos 70. Sra. Sophia, Sr. Antonio e os filhos Paco, Pepe, Toño e Sofi a tratam muito bem, apesar de um clima passivo-agressivo em alguns momentos. Cuarón não torna a família vilã, mas também não os apresenta como mocinhos e os mostra buscando os seus próprios interesses, vivendo as suas vidas.

A câmera que caminha no seu tempo, faz com que a realidade de Cleo seja diferente daquela que a família vive, e podemos acompanha-la e conhece-la melhor nos momentos em que ela não está dentro da casa, aonde brilha toda a magnitude da estreante Yalitza Aparicio. Cuarón é Deus eu reafirmo, pois torna ROMA uma história de tragédia. Se é uma tragédia romana, não sabemos — mas por menor que seja a atitude de seus personagens — elas refletem num futuro próximo, dando a sensação de livre arbítrio ao mesmo tempo em que diz que não estamos tão livres assim das consequências.

O Terremoto

A naturalidade é uma das características de sua produção, e eventos “naturais” se tornam pontos chave em pouco mais de 140 minutos do filme. O terremoto anuncia a gravidez de Cleo e como sua vida mudará a partir dali. A personagem olha para a maternidade quando acontece, pressentindo o que virá a seguir. Sem qualquer tipo de aviso ou culpa, o terremoto antecede as mudanças na vida da família, a relação do casal de patrões, a relação da família com Cleo, a de Cleo com Fermin, enfim, o terremoto muda tudo.

 

O Incêndio

A imagem de todos tentando apagar o incêndio natural (olha a palavra de novo), é bonita pois coloca todos em um mesmo patamar. Em seguida Sophia olha para Cleo de diz que elas sempre estarão sozinhas, não importa o que os homens façam, elas estarão por conta própria. As vezes o incêndio chega sem avisar, mas na maioria das vezes é fruto de um irresponsabilidade, por vezes humana, e é aí que as consequências na vida dos personagens começam a dar as caras.

Será que eu poderia ter aumentado minha garagem ou limpado o cocô do cachorro? Poderia ter ido ao cinema naquele dia em vez de ir pra outro lugar com aquela pessoa? Poderia ter deixado para comprar o berço em outro dia?

 

O Parto

Natural. A morte é natural. O nascimento também. Quando os dois acontecem ao mesmo tempo, não há nada que explique tamanha anomalia da natureza. Os longos silêncios de Cleo ao olhar pela janela, talvez imaginando como sua vida poderia ter sido se tivesse tido a criança ou se não tivesse passado por tudo aquilo. Há naturalidade na dor de Cleo, há culpa, há um sentimento de arrependimento por ter sentido o que sentiu.

A cena da praia, a mais bela do filme, traduz os momentos vividos e não vividos. O plano sequência em que Cleo salva as crianças de um possível afogamento se relaciona com outro plano sequência em que a personagem vai em busca das crianças no cinema. Se em um deles ela salva a vida delas literalmente, em outra ela os salva das decepções provocadas por adultos inconsequentes. Ambas belíssimas — iluminadas seja por luz natural ou artificial — o que as separa é um parto.

Parto que quebra o silêncio de Cleo, que quebra o silêncio da família em relação a Cleo. Um “eu não queria ter ela”, seguido de um “Eu te amo”, pode ser pouco para aquela que deu a vida e a vida de outrem para uma família inteira. Se algo mudou depois daquela cena, não sabemos. O futuro poderia ser colorido, mas nesse caso é preto e branco, seja filmando uma calçada sendo lavada ou um céu ensolarado.