Roda do Destino | Coincidências a serviço da reflexão

Roda do Destino
Foto: Divulgação

Dividido entre o minimalismo e a verborragia, Roda do Destino reflete sobre casualidade, erros do passado e relacionamentos complicados. 


É comum ver ministradores de cursos e críticos de cinema falando que a presença de coincidências no roteiro é um ponto negativo. No entanto, a verdade é que elas só assumem tal posição quando são usadas de forma exagerada ou como uma muleta que facilita o desenvolvimento da narrativa.

Em outras palavras, podemos dizer que existem momentos em que as coincidências funcionam como cerejas no bolo. Roda do Destino garante sua presença nessa lista ao usar as coincidências como ponto de partida para três histórias que poderiam acontecer em qualquer esquina do mundo.

Qual é a história de Roda do Destino?

Meiko se assusta quando percebe que sua melhor amiga começa a se apaixonar pelo seu ex-namorado. Sasaki planeja se vingar de seu professor da universidade, usando para isso um colega de classe, Nao. Natsuko encontra uma mulher que parece ser alguém de seu passado, levando as duas a confessarem sentimentos guardados.

Três histórias antológicas sobre a complexidade dos relacionamentos, contadas por meio de coincidências que acontecem na vida de três mulheres.

Roda do Destino
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O que achamos de Roda do Destino?

O começo dessa crítica vai te deixar com a impressão de que eu menti quando disse que, em Roda do Destino, as coincidências funcionam como ponto de partida para as três histórias independentes que compõem os 120 minutos de projeção. Mas a única coisa que eu fiz foi me abster da obrigação de revelar todas as cartas da minha mão, guardando um trunfo para essa rodada do jogo.

O momento onde posso te contar que as coincidências não tem apenas uma função no novo trabalho de Ryûsuke Hamaguchi (Happy Hour). Todo o aspecto místico que acompanha os encontros casuais também servem como combustível para os protagonistas refletirem sobre os seus respectivos passados, encarando erros e acertos de frente.

Um contexto com toques de grandiosidade que Hamaguchi parece enxergar como eventos naturais. Acontecimentos ordinários do dia a dia que, graças ao trabalho do destino, podem mudar a vida de qualquer pessoa que estiver andando na rua em qualquer lugar do mundo.

É por isso que ele reduz o escopo e nos entrega narrativas que se destacam pela mise en scene absolutamente minimalista. As discussões temáticas de Roda do Destino continuam poderosas, mas, ao contrário do que o húngaro Benedek Fliegauf faz em Forest, Ryûsuke deixa claro que está mais interessado nos diálogos e na interação entre pessoas que se encontram por motivos aleatórios.

Roda do Destino
Foto: Divulgação

É tudo muito simples, singelo e próximo de uma realidade onde nem mesmo os eventos marcantes se apresenta dessa forma desde o início. Até mesmo a verborragia – que, em determinados momentos, flertam com um exagero quase teatral – se encaixa nesse contexto preenchido por encenações naturalistas.

Isso permite, em primeiro lugar, que ele explore as consequências de escolhas propositais e erros inesperados com uma dose de realismo que, dicotomicamente, não afasta as possibilidades abertas pela fantasia. A imaginação também possui papel central em algumas tramas, deixando claro que todos os elementos habitam o mesmo universo. Às vezes nós podemos usar as coincidências como base para analisar cenários antes de tomar uma decisão, mas às vezes vamos precisar conviver com uma troca de letra causada pela chegada não planejada do seu filho.

Mas não para por aí. Em segunda instância, esse casamento espontâneo entre realidade, destino e fantasia também mantém o espectador hipnotizado. Preso nessa roda de emoções aleatórias que, mesmo não sendo rotineiras, se relacionam com a delicadeza e a frugalidade dos encontros que rolam no nosso dia a dia.


Roda do destino foi conferido durante a Mostra de São Paulo 2021


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