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Excluindo os momentos em que tenta ser misterioso ou melodramático, Resgate dá uma aula de como fazer um blockbuster de ação.


O catálogo da Netflix é composto, em sua maioria, por filmes independentes e estrangeiros que seus executivos garimpam durante festivais que acontecem mundo inteiro. Até mesmo, os produtos originais que são encomendados pelo serviço possuem características similares. Mesmo assim, de tempos em tempos, ela ainda precisa apostar as fichas num blockbuster que mexa com o mercado, atraindo novos assinantes e fidelizando aqueles que já possuem conta.

E a lista desses grandes investimentos possui exemplos diversos, que vão de dramas épicos com cheiro de Oscar (O Irlandês) até longas policiais que se destacam mais pelo elenco estrelado do que pela história em si (Operação Fronteira). O fato é que alguns projetos dão o retorno planejado, enquanto outros tiros saem pela culatra. É o caso da última tentativa que a Netflix nesse terreno: o descompensado e sem noção Esquadrão 6. Um tipo de erro caro que não faz bem pra nenhum estúdio ou distribuidora.

Agora, com todos esses testes pesando na bagagem, o serviço de streaming decidiu apostar em Resgate. Um filme de ação simples e alucinante que remete diretamente aos brucutus clássicos dos anos 80, funcionando com perfeição sempre que coloca a pancadaria desenfreada na frente do melodrama.

resgate

A trama – que é baseado numa HQ cuja a história foi criada pelos próprios Irmãos Russo paralelamente ao roteiro – acompanha um mercenário de elite que acaba preso em sua missão mais arriscada quando é enviado para resgatar um garoto sequestrado em Bangladesh. Um job perigoso que só piora graças a traições, policiais corruptos e uma guerra mortal entre traficantes internacionais.

Uma premissa bastante direta que, apesar dos níveis de problemas que vão se amontoando, não foge de nenhum padrão. Apresenta seu protagonista através de alguma loucura física, concentra sua atenção em relações de causa e consequências nada inovadoras e acumula diversos clichês em torno desse herói oitentista que poderia facilmente ser interpretado por Sylvester Stallone há uns trinta anos. Inclusive, muita gente tem classificado Resgate como um filme de ação à moda antiga, justamente porque enxerga um pouquinho de Rambo em Tyler Rake.

Uma relação que, só pra deixar ainda mais claro, a produção não esconde. O protagonista é basicamente um lobo solitário que enfrenta tudo e todos em situações quase suicidas, logo é inevitável que ele se pareça com todos esses brucutus que marcaram a história do cinema. Até porque não estamos falando de um subgênero que permite muitas reinvenções, e o longa tem plena noção disso. Tanto que o roteiro – assinado apenas por Joe Russo (Vingadores: Ultimato) – escancara desde o início que não possui nenhuma pretensão além de ser um filme de ação franco e sem rodeios.

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Uma missão cumprida com muito louvor graças, acima de tudo, a direção do estreante Sam Hargrave (coordenador de dublês em diversos filmes da Marvel). Ele flerta com a violência exagerada na medida certa, coloca a câmera em lugares inventivos, usa a fisicalidade de Chris Hemsworth (Thor: Ragnarok) a favor do longa e filma todas as coreografias de luta com uma agilidade que tira o folego de quem está do outro lado da tela.

E melhor ainda: assim como David Leitch e Chad Stahelski fizeram em John Wick, Hargrave usa seu background profissional para fazer tudo isso da maneira mais clara possível. Apesar de toda a correria, o espectador nunca fica perdido ou confuso no meio da ação orquestrada em Resgate.

Principalmente no gigantesco plano-sequência que inicia o segundo ato da produção com uma fluidez de gerar inveja. Um ápice indiscutível que reúne perseguições de carro, parkour, tiroteio e brigas de faca em vinte minutos de pura empolgação que, sem dúvida nenhuma, funcionariam muito bem na tela de um cinema. É o tipo de coisa que obriga qualquer crítico a admitir que, como peça de ação, Resgate é realmente impactante.

O problema é que o filme também possui alguns outros elementos e viaja pro espectro quase oposto quando tenta surpreender ou emocionar seu público. Nessas horas, o roteiro cai em diálogos extremamente expositivos, escorrega na criação de relações críveis entre os personagens e foca em situações dramáticas que não se encaixam no todo. Tudo isso enquanto a direção abusa das tomadas contemplativas e apela pra mais convenções de gênero do que precisava, escolhendo os caminhos mais óbvios possíveis quando não está na zona de guerra.

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Uma escolha narrativa que, pra piorar, ainda esbarra na limitação dramática do seu protagonista. Hemsworth é um ator esforçado que manda muito bem quando o assunto é a ação, mas já comprovou inúmeras vezes que possui dificuldades no drama. O abismo é tão grande que chega ser um pouco estranho ver ele contracenando com Golshifteh Farahani (Paterson), David Harbour (Stranger Things) e outros atores mais talentosos. Até mesmo o jovem Rudhraksh Jaiswal parece se virar melhor com suas limitações, apesar de não chegar nem perto de ser um personagem principal.

Mas calma, porque nenhum desses fatores tem força suficiente pra destruir o filme. Influencia negativamente na experiência, é claro, mas nunca consegue superar a sensação deixada pela ação de altíssima qualidade. É ela que dita o ritmo na maior parte do tempo, deixando o espectador impressionado na ponta do sofá para garantir que as duas horas de projeção satisfaçam os verdadeiros fãs do gênero. Um fato decisivo que certamente coloca Resgate – um bom e velho blockbuster de ação – entre as melhores apostas que a Netflix fez nos últimos anos.


OBS 1: Tyler tem um pouquinho do Homem sem Nome interpretado por Eastwood ou eu tô viajando muito?

OBS 2: Fiquei com a impressão de que Resgate pode ganhar uma continuação. E vocês?

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Resgate (2020)

7.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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