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Reality Z se entrega a bizarrice da estética trash no meio de um apocalipse zumbi midiatizado e artificial.


Desde que os zumbis se arrastaram para as telas de cinema, eles são usados como metáfora pra algum aspecto da sociedade. Já foram comparados a haters, pessoas vidradas na tela do celular, consumistas alucinados e por aí vai. Já receberam tantas significações diferentes que ficou chato usar tal reflexo social como ponto central de um textos sobre zumbis.

Após tantas repetições, esse conceito assumiu a forma de uma horda de zumbis. Uma daquelas que sempre surge virando a esquina durante o clímax. Daquelas que é impossível fugir. A única opção viável é encarar de frente e torcer para não ser contaminado pela necessidade de justificar cada decisão narrativa com uma crítica social.

Um contexto que resume muito bem Reality Z. A série não foge dessa proposta de construir uma grande crítica sociopolítica em torno do apocalipse, mas também não parece dar tanta importância. Às vezes ela só quer ser um filme B que diverte o espectador através do trash e do absurdo. E foi justamente essa parte que mais me impactou.

Adaptação direta e até certo ponto fiel da minissérie Dead Set (que foi escrita por Charlie Brooker, o criador de Black Mirror), a nova aposta brasileira da Netflix se passa durante o início de um apocalipse zumbi no Rio de Janeiro. Nesse cenário caótico, o estúdio onde é gravado um famoso reality show acaba virando um abrigo para pessoas em busca de salvação.

Reality Z

Durante a primeira metade da série, Cláudio Torres (O Homem do Futuro) e Rodrigo Monte (A Divisão) usam os produtores e os participantes da sua cópia caricata do Big Brother como combustível para satirizar o nosso universo midiático. Mas, desde os primeiros minutos, faz isso com um tom paródico que sempre busca o exagero e o absurdo. Isso faz com que todos os cenários, os movimentos de câmera e as sequências sangrentas sejam bizarras e até mesmo artificiais.

Eu sei que parece estranho (e, se bobear, ruim), mas é proposital. Reality Z escolhe seguir a aura dos filmes B, então ser tosco faz parte da brincadeira. Asim como, ser muito artificial se encaixa nessa proposta de partir do absurdo pra tirar sarro da artificialidade da mídia, dos reality shows, dos participantes e dos produtores.

É tudo escandaloso, caricato e teatral. Um combo traduzido com eficiência tanto pela linguagem, quanto pelo elenco. Guilherme Weber, por exemplo, se liberta de todas as amarras da seriedade e mostra que não existia ninguém melhor para interpretar Brandão. Um vilão unidimensional e burlesco que certamente não funcionaria fora desse cenário absurdo que é proposto por Torres e Monte.

Reality Z

Entendo que posso ter me divertido porque já conhecia Dead Set e imaginava que Reality Z seguiria a proposta de não se levar a sério desde que o trailer revelou as participações de Sabrina Sato e Jesus Luz. Apostaria em algumas críticas pontuais a mídia e a televisão, mas não tentaria criar grandes diálogos filosóficos em torno da nossa atualidade. Cláudio Torres, assim como Brooker, entende que está diante de uma discussão batida e decide ironizar, através da superficialidade e dos estereótipos escrachados, a forma como certas metáforas sociais se tornaram padrões obrigatórios.

Às vezes uma obra só quer manter certos comentários políticos em segundo plano, se concentrando na missão de divertir o espectador com doses exageradas de sangue e gritaria. Quer trabalhar com pretensões mais baixas e tá tudo bem. Nem tudo precisa ser definido por subtextos necessários e a primeira metade de Reality Z gira em torno da tentativa de ser mais trash do que político.

O problema é que, após os primeiros episódios bizarros e divertidos, a série passa por um ruptura e se transforma em outra coisa completamente diferente. O foco muda quando a relação entre seres humanos e o mundo substitui o imediatismo da sobrevivência. A série começa a percorrer caminhos mais sérios, mas perde suas particularidades nesse contexto habitado por situações de pressão que flertam com a máxima do “verdadeiro vilão é o homem”.

Reality Z

É claro que a série pode querer falar sobre dinâmicas de poder, classes sociais e convivência. O problema, na minha opinião, está mais na quebra brusca que leva a série pra esse caminho. Parece até que ela foi mordida, perdeu toda a sua originalidade e começou a vagar como um zumbi por pontos genéricos e repetitivos. Afinal, estamos falando de uma discussão política e social que já foi aproveitada até a ponto de exaustão por The Walking Dead e outros produtos do gênero.

Foi essa interrupção que matou minha experiência. Eu estava aproveitando a linguagem absurda da série e, de repente, ela se teletransportou para outro mundo e caiu nesse lugar-comum da maneira mais broxante possível. Talvez não aconteça o mesmo com você, porque depende da expectativa e do impacto dos primeiros episódios. Talvez você goste mais dessa segunda parte por estar vendo algo mais “normal”, e não tem nada errado com essa possibilidade. Até porque essa segunda metade de Reality Z manter parte da qualidade graças aos bons personagens, ao uso certeiro de técnicas como a tela dividida e a escalada ágil dos acontecimentos.

No entanto, é impossível dizer que o rendimento se mantém da mesma forma. Ao meu ver, a troca de ares transformou a série numa obra de terror comum que não teve dinheiro pra fazer tudo que gostaria. Algo completamente diferente de uma estética trash que escolhe dialogar com seus espectadores através do absurdo e da bizarrice. A parada é que a escolha de abordagens tão diferentes abre espaço para uma divisão nada legal entre o público, porque parece que sempre vai ter alguém que não gostou de uma das partes.

Reality Z

Eu, pessoalmente, não gosto tanto da segunda. Ainda acho que o todo é razoavelmente eficiente e coloco Reality Z entre as boas produções nacionais da Netflix, mas faço isso mais pela tentativa de fugir dos padrões que domina a primeira do que pelo resultado final. Inclusive, o tempo que eu levei pra escrever essa crítica me fez repensar algumas coisas e teorizar que a série funcionaria melhor como uma antologia mais curta. Se tivéssemos duas temporadas com abordagens diferentes dentro do mesmo cenário, eu teria liberdade pra dizer que não gostei tanto de uma sem correr o risco de afastar o público da outra.


OBS 1: Você pode não ter gostado das escolhas estéticas e narrativas de Reality Z, mas precisa concordar que chega a ser cômico ver um texto invalidar as “críticas” da série com base no fato de que ensaios para revistas masculinas são coisa do passado. Alguém definiu que os esterótipos precisam ser exclusivamente atuais?

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Reality Z (1ª Temporada)

6.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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