AODISSEIA
Especial

Porque o Rotten Tomatoes não é um parâmetro válido?

Está na hora de refletirmos sobre o poder dos tomates podres...

3 de Fevereiro de 2018 - 11:00 - Flávio Pizzol

O Rotten Tomatoes é um renomado agregador de críticas que foi criado em 1998 como um projeto de tempo livre de um jovem chamado Senh Duong. Depois de coletar, em tempo real, todos os comentários sobre o último lançamento de Jackie Chan, ele teve a genial ideia de criar um espaço onde usuários pudessem encontrar críticas diversas para os filmes com mais facilidade. Sua sacada funcionou e foi divulgada massivamente por grandes empresas midiáticas, aumentando os acessos da página e permitindo que, em 2000, Senh passasse a trabalhar somente na sua criação.

Algum tempo depois, a temporada de vendas chegou com tudo na vida de Duong. Em 2004, a empresa foi vendida, pela primeira vez, para a IGN Entertainment por uma soma desconhecida e possivelmente gigantesca. Em 2010, foi repassado para a Flixster, uma rede social de cinema que também gira em torno de avaliações. Em 2011, todo o conglomerado criado pela Flixter foi adquirido pela Warner Bros. E, finalmente, em 2016, todo esse mesmo pacote foi repassado para o Fandango – um importante (talvez o maior) portal de vendas de ingressos online do mundo.

Foi a partir daí que o Rotten Tomatoes ganhou dimensões cada vez maiores. Suas notas começaram a aparecer para todos os usuários do Fandango, influenciando na compra dos ingressos e praticamente dando uma sentença sobre os filmes. Tudo isso sem que os usuários precisassem se preocupar com os motivos das notas, os argumentos dos críticos ou até mesmo seu próprio gosto. Vivemos na era do Rotten falou, tá falado.

Os tomates frescos ou podres – uma alusão ao lançamento dessas mesmas frutas em espetáculos ruins em tempos passados – ganhou influência nas redes sociais como medidor de qualidade e nos levou diretamente para o dia de hoje. Dia em que um grupo de supostos “fãs da DC Comics” (entre aspas, porque essas pessoas nunca serão fãs de verdade) organizaram um grupo com o objetivo de boicotar a nota de Pantera Negra. Isso poderia não representar nada, se o Rotten não tivesse se tornado um monstro midiático que molda as opiniões de milhões de pessoas e influencia bilheterias mundiais com um estalar de dedos. Ou melhor, com um toque na tela do seu smartphone…

Para os interessados, segundo o site Omelete, esse foi o texto publicado pelo criador do grupo na descrição do evento:

“Dado o sucesso da sabotagem da nota de Star Wars: Os Últimos Jedi no Rotten Tomatoes, e considerando a crescente insatisfação com as práticas da Disney e outras corporações que manipulam e criam imprensa negativa para o universo da DC, eu sinto que é hora de retribuir e esmagar a casa de Mickey por suas ações em pagar críticos da DC e outros afetados por eles. 

Eu farei eventos como esse para Guerra Infinita e séries da Netflix para que possamos nos unir e fazer a diferença. Compartilhem com seus amigos e simpatizadores”.

No entanto, eu ainda tenho esperança de que uma parcela das pessoas entendam que o Rotten Tomatoes – ou, pelo menos, suas porcentagens – não são um parâmetro válido quando o objetivo é defender a qualidade de um filme. Diante disso, separei alguns tópicos que podem nos ajudar a refletir um pouquinho sobre nossa própria relação, como público, com o Rotten e outros agregadores de críticas em geral. Vamos a eles:

  • Notas x Aprovação

Em primeiro lugar, precisamos deixar claro que a porcentagem divulgada pelo Rotten, junto com seus reconhecidos selos de podre ou fresco, não reflete a a nota que um crítico deu para um filme, e sim sua aprovação. Através de um algoritmo secreto, o que o site faz não é nada mais do que traçar uma simples linha entre críticas positivas – entre sete e dez – e negativas – de seis para baixo. Logo, quando você recebe um print revelando que algum filme está com 98% no Rotten, não significa que ele tem uma nota média de 9,8; na verdade, significa que 98% dos críticos que avaliaram a película em questão deram uma nota maior que sete.

E eu estou falando isso sem ressaltar que o site também leva em consideração a quantidade de críticos que avaliaram tal película (isso já coloca blockbusters muito a frente de filmes independente, por exemplo) e a importância de quais críticos escreveram – um critério decisivo do qual vou falar mais pra frente. Como vocês podem observar na imagem abaixo, Caça-Fantasmas, mesmo possuindo uma nota inferior a de Forrest Gump, possui uma classificação melhor por ter sido avaliados por mais críticos e por gente mais importante.

O mesmo pode ser dito dessa outra imagem que coloca o péssimo The Room (classificado por muitos como o pior filme da história) acima de Batman vs. Superman, mesmo com o segundo tendo uma média de nota razoavelmente superior ao primeiro. A única diferença é que The Room foi revisado por menos gente, aumentando sua porcentagem de aprovação automaticamente.

Dentro desse contexto, ainda precisamos aceitar que, dentro de qualquer escala de qualidade, uma margem de 100% de aprovação que contenham milhares de notas mediana não representa grande coisa. Uma nota sete pode representar um filme cheio de problemas que não chegaria nem perto de uma avaliação máxima, dependendo totalmente do crítico e do seu texto.

  • Os textos não importam…

É exatamente essa última frase que nos leva para o próximo tópico: o Rotten também possui um outro número (pouco usado, no entanto, como argumento em redes sociais) que apresenta a média real das notas, mas esse valor também não leva em conta os textos responsáveis por avaliarem uma obra. E acredite quando eu digo que os argumentos de um crítico poderiam mudar muita coisa em uma classificação como essa, já que cada um pode estipular os parâmetros que os levam a dar essa ou aquela nota.

Existem críticos que não se interessam por um gênero especifico e por isso dão notas baixas; existem críticos que desconsideram certos problemas por um dado motivo, enquanto outros não conseguem; existem críticos que só ligam para a importância cultura, política ou histórica de uma produção, destruindo sem pestanejar aquele filme cujo o objetivo é apenas divertir; existem críticos que se importam mais com o emocional do que com o técnico; e existem críticos que optam por não resumir sua crítica em um número.

Os tipos são variados e isso é muito bom, mas o que a porcentagem do Rotten faz é esconder todas as particularidades de um argumento em um padrão sem explicação. Já o texto em si, mesmo que não exponha nenhuma das motivações acima, dá pistas da forma como o escritor pensa. Dessa forma, a melhor opção seria, ao menos, desconsiderar as médias do Rotten para usá-lo apenas como uma maneira de encontrar as críticas sem dificuldade.

  • Com Top Critics ou sem Top Critics, eis a questão…

Além dessa padronização de opiniões, as notas do Rotten Tomatoes ainda não influenciadas majoritariamente pela classificação de seus críticos. Nesse caso existem alguns críticos que, por merecimento, possuem o grandioso selo de Top Critics e exercem mais influência dentro das porcentagens. Em outras palavras, as notas dadas por essas pessoas possuem mais peso na avaliação, ignorando mais uma vez suas particularidades e argumentos.

Para ser classificado como Certified Fresh, por exemplo, um filme precisa ter uma porcentagem de aprovação maior que 75% e ser revisado por, pelo menos, cinco Top Critics. Caso não consiga atingir esse segundo parâmetro, o filme pode ter até mesmo 100% de aprovação que conseguirá apenas um selo de Fresh. Dentre outras coisas, isso mostra que as classificações do Rotten escondem muito mais do que um simples bom ou ruim.

  • Os boicotes do público

E, se até então estávamos falando dos críticos, também precisamos falar da outra – e pior – parte: a nota dadas pelo público. Estas não sofrem com nenhuma regra de participação (como acontece com os críticos), não necessitam conter algum argumento que ajude a corroborar sua opinião e ainda, como pode ser visto no caso de Star Wars – Os Últimos Jedi, são facilmente influenciadas pelos famosos haters.

Assim como querem fazer com Pantera Negra, você só precisa juntar um grupo razoavelmente grande de amigos ou organizar qualquer tipo de campanha idiota para conseguir diminuir a nota de um filme e, consequentemente, influenciar na sua bilheteria. No entanto, se as pessoas não ligassem tanto para isso e escolhessem simplesmente assistir o filme para tirar sua própria opinião, essas pessoas não teriam sequer importância. Como essa não é a realidade, a atuação de grupos como os de “fãs da DC” ou de machistas, como aconteceu com Star Wars, passa a ser um infeliz e gravíssimo problema para o cinema como um todo.

A solução então seria ignorar completamente o Rotten Tomatoes e suas médias de aprovação que não representam a qualidade de um filme. Como sei que isso seria uma utopia, vou tentar apenas pedi-los que se lembrem desse texto e pensem duas vezes antes de compartilhar tomates podres ou frescos para defender sua opinião acerca da natureza positiva de qualquer produção. Vou relembrar que imagens comparando as notas de filmes no Rotten (IMDB, Metacritic e outros também podem entrar nesse bolo, apesar de serem bem menos problemáticos que nosso tema central) não significam nada e só colocam mais lenha na fogueira de grupos como os que movimentaram as notícias hoje…