Por um Punhado de Fritas | Um documentário deliciosamente absurdo

Por Um Punhado de Fritas
Foto: Divulgação

Por um Punhado de Fritas é um documentário true crime que flerta com a estética de Polícia 24h para promover um encontro inesperado entre comédia e tragédia.


Absurdo (adjetivo)
1. que é destituído de sentido, de racionalidade.
2. que não se enquadra em regras e condições estabelecidas.

Possíveis sinônimos:

Ilógico, incoerente, irracional, paradoxal, insensato, maluco, fantástico, ridículo, kafkiano.


Apesar dos brasileiros usarem a palavra absurdo numa série de contextos que não estão catalogados nos dicionários, a união entre o verbete fornecido pela Oxford Languages e uma parte dos sinônimos disponibilizadas na internet cumpre – relativamente bem – sua missão de oferecer um panorama sobre a utilização do termo.

No entanto, mais curioso do que notar a expansão do conceito é perceber que quase todas as possibilidades descritas acima se encaixam em Por um Punhado de Fritas. Uma obra que flerta com o absurdo na forma como se relaciona com o seu gênero principal, insere humor na trama e praticamente idolatra as bizarrices que tomam conta da trama.

É absurdo, mas também é deliciosamente incrível.

Qual é a história de Por um Punhado de Fritas?

Kalima Sissou, uma prostituta ocasional, foi assassinada em seu apartamento, localizado num bairro violento de Bruxelas. Todas as evidências apontam para Alain, antigo açougueiro e ex-namorado da vítima, exceto pelo fato do investigado não se lembrar de nada do que aconteceu naquela noite.

Por Um Punhado de Fritas
Foto: Divulgação

Graças à descoberta de algumas batatas fritas, uma Tupperware e uma imagem de Santa Rita, o inspetor Lemoine e seu grupo de policiais atrapalhados seguem essa linha de raciocínio até descobrirem que estão envolvidos em um caso com proporções continentais.

O que achamos de Por um Punhado de Fritas?

Nos primeiros minutos de Por um Punhado de Fritas, eu tinha certeza absoluta que estava diante de um documentário falso nos moldes de The Office. Agarrada à lógica, minha cabeça repetia para si mesma que o mundo real ser absurdo a ponto da juíza que acompanha o caso entrar na cena do crime e sugerir que o rádio seja ligado para tranquilizar os policiais.

Mas a verdade é que nada daquilo é atuado. Uma “descoberta” (entre aspas porque não é necessariamente um segredo) que abre novas camadas e deixa o longa muito mais interessante. O caso em si e os personagens já tinham potencial para chamar atenção, mas não posso negar que a destruição desse muro lógico leva a experiência para outro nível.

Em outras palavras: o desenvolvimento da história funciona muito bem, porém o grande trunfo de Por um Punhado de Fritas está nessa forma livre como dialoga com o gênero no qual está inserido.

Em diversos momentos, temos um documentário comum que dialoga com o universo das obras true crime. Em outros, a câmera tremida de Yves Hinant e Jean Libon remete aos melhores episódios do clássico Polícia 24h. E, no meio disso tudo, entram frases que beiram o surrealismo e um senso de humor que só pode ser classificado como absurdo.

Por Um Punhado de Fritas
Foto: Divulgação

É uma propaganda da Tupperware. Mas não é uma boa propaganda, já que acabou mal”

Ainda que vários desses elementos sejam comuns, a mistura criada pelos diretores me surpreendeu por escolher um caminho totalmente oposto do trivial. E isso se reflete na inserção dos documentaristas no espaço da delegacia, na temporalidade meio anacrônica e até mesmo na relação que os policiais (que são de fato atrapalhados) constroem com a câmera.

Talvez eu não consiga colocar tido que gostaria em palavras, mas, resumindo, foi essa loucura que me hipnotizou. E, mesmo adorando outros filmes da Mostra de São Paulo, sou obrigado a dizer que Por um Punhado de Fritas me presenteou com uma das melhores experiências desse ano.

Só que, curiosamente, o motivo não está ligado apenas às risadas ou à aproximação com a comédia, porque nenhum desses fatores estão presentes em 100% do longa. Hinant e Libon tratam de assuntos pesados em certas passagens, permitindo que o longa passeie por estilos, gêneros e formatos com uma liberdade particular.

Desde o início, eu queria saber quem era o culpado, se era o Alain ou não, quais pistas iriam revelar a identidade do assassino e, no terceiro ato, como funcionaria a participação da Interpol na missão de captura. E o documentário entrega tudo isso sem apelar para cenas de ação ou montagens que explicam o crime com aquele didatismo exagerado.

Por Um Punhado de Fritas
Foto: Divulgação

– Não, eu quero fazer uma surpresa. Minha irmã disse que minha mãe não para de chorar, eles são cardíacos. Prefiro tocar a campainha e fazer uma surpresa

– Acha que é o melhor para o coração deles?

Seguindo a mesma métrica dos elementos cinematográficos, Por um Punhado de Fritas insere uma série de resoluções “pouco inovadoras” em um contexto mágico. A forma como comédia, tragédia, crime e documentário se encontram na mise en scene não só é absurda, mas também se encaixa deliciosamente na proposta caricata sugerida pelos diretores.

Não existia outro caminho a seguir, e é por isso que eu considero um acerto o fato de Hinant e Libon permitirem que esse absurdo se revele e passeie pela trama ao lado da câmera. É um espírito que ora está impregnado em algum dos personagens, ora preenche os espaços do caso, transitando sem barreiras entre a juíza que ignora um mandato por revelação divina e o policial que faz a propaganda da Tupperware.

É um balanço estranho e surreal, eu sei.  Entretanto, essa excentricidade não o torna menos delicioso, uma vez que a diversão está justamente conectada a essa ausência de regras e condições lógicas. Tanto que terminei a sessão de Por um Punhado de Fritas com uma única frase na cabeça: “não sei o que é isso, mas adorei a experiência”.


Por um punhado de fritas está disponível no sesc digital até o dia 03 de novembro


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