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Impulsionado pela atuação magistral de Vanessa Kirby, Pieces of a Woman é uma jornada emocional cercada por luto e tristeza


Martha Weiss é uma mulher comum que decide, ao lado do marido, realizar o parto da sua filha em casa. No entanto, por uma combinação entre acasos do destino e complicações do corpo humano, a criança acaba falecendo poucos minutos após seu nascimento. A partir daí, Martha precisa enfrentar o luto ao mesmo tempo em que lida com o afastamento do marido e a dominação da mãe.

Isso pode parecer um grande spoiler, mas não passa de uma descrição bem simples da trama de Pieces of a Woman. Afinal, o longa é completamente voltada para as consequências que seguem a morte da pequena Yvette.

No entanto, é impossível não dizer que o ponto alto da produção é a longa sequência de abertura que acompanha o parto de Martha. A forma como ela estabelece a importância do bebê na vida dos protagonistas, a personalidade dos personagens, a ansiedade da espera e, eventualmente, o nascimento com todos os cheiros, sentimentos e dores merece a classificação de obra-prima.

A cena – gravada sem cortes na maior parte do tempo – reúne uma porção de sentimentos que raramente ocupam o mesmo espaço. É bonito, doloroso, tenso, assustador e brutal. E isso toma conta da tela e do espectador ao mesmo tempo.

Pieces of a Woman

Foto: Divulgação (Benjamin Loeb / Netflix)

Após esse primeiro momento, o título preenche a tela e Pieces of a Woman muda totalmente de cara. Até mesmo o uso dos planos-sequência vai se tornando mais pontual, enquanto o longa se dedica a apresentar (e, de certa forma, recolher) os pedaços que vão sendo deixados por essa mulher que precisa conviver não só com o seu luto, mas também com pessoas que decidem impor os seus próprios métodos de cura. Pessoas que ignoram os desejos da própria Martha e acabam despedaçando-a ainda mais.

Como o filme segue o ponto de vista dela, o marido e a mãe acabam entrando num caminho que se aproxima do antagonismo. Só não chegam lá, porque o filme decide (acertadamente) não julgá-los. Afinal de contas, eles também estão enfrentando o luto e isso precisa ser respeitado. Ainda mais quando uma das propostas do filme é defender que cada um lida com isso da sua maneira.

Entretanto, o longa não se contenta com a ausência de julgamentos e escolhe apresentar as motivações desses outros personagens. Nesse caso, o marido ganha uma subtrama genérica de vícios e traições, enquanto a mãe usa o Holocausto como justificativa em uma cena que ocupa a tela de forma isolada e forçada. Gera um grande momento Ellen Burstyn (sua Oscar tape, sem nenhuma dúvida), mas não parece se encaixar organicamente na trama.

Pieces of a Woman

Foto: Divulgação (Benjamin Loeb / Netflix)

São tentativas cercadas por boas intenções, mas só prejudicam o foco de Pieces of a Woman por serem apresentadas e descartadas do jeito mais apressado possível. E esse acaba sendo um problema recorrente dessa segunda parte do longa.

Concordo que boa parte das mudanças de tom e estilo são condizentes com a proposta, porém a quebra é inegável. Aos poucos, ele vai ficando mais lento e menos impactante. Vai abandonando o realismo cru da abertura em prol de metáforas não tão criativas sobre morte ou nascimento.

Soluções que podem até fazer sentido tematicamente, mas não soam orgânicas. Não se encaixam plenamente, por exemplo, com a naturalidade da câmera que passeia pela casa como se fosse parte da família. E isso, apesar de ser mínimo, vai incomodando e atrapalhando uma experiência que começou de maneira mais do que avassaladora.

É como se, sem querer ou não, o filme tivesse subido o sarrafo de um jeito que fosse impossível alcançar. Ele tenta correr atrás, mas acaba perdendo velocidade e potência nessas escolhas questionáveis que eu citei.

Pieces of a Woman

Foto: Divulgação (Benjamin Loeb / Netflix)

A única coisa que se mantém intocável, servindo como combustível até o último instante é a atuação destruidora de Vanessa Kirby (The Crown). Ela é uma força da natureza que domina Pieces of a Woman desde a cena do parto (que, por causa da ausência de cortes, depende muito dos atores) até aqueles últimos instantes onde seu olhar toma conta do palco com precisão e emoção.

E vou além: é graças a ela que o filme cumpre seu propósito. Supera os escorregões e fecha seu ciclo emocional de forma honesta, humana e próxima da história de muitas mulheres do planeta Terra. Uma realidade dolorosa, é claro, mas ainda assim muito real


Pieces of a Woman já está disponível na Netflix

 

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Pieces of a Woman (2020)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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