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Em plenos anos 30, Perry Mason mistura detetives e advogados numa tentativa brilhante de injetar doses de realismo em um noir desconstruído


Talvez você nunca tenha ouvido falar em Perry Mason, mas não se preocupe. Eu mesmo nunca tinha ouvido esse nome até assistir o trailer da série e ser carregado pela figura hipnótica de Matthew Rhys para a jornada que vou analisar agora.

No entanto, não posso começar esse texto sem te contar quem é o responsável por nos trazer até aqui.

Perry Mason é um advogado criado pelo escritor Erle Stanley Gardner em 1933. Desde então, ele apareceu em mais de 80 livros ou contos, ganhou uma adaptação televisiva que durou quase dez anos e fez participações em dezenas de filmes produzidos para a televisão.

Sustentado pela fama de sempre inocentar seu cliente, Perry Mason vendeu mais de 130 milhões de cópias somente nos EUA. Um sucesso que, mesmo não alcançando o Brasil com a mesma força, pode ser comparado a outros personagens investigativos, como Sherlock Holmes e Hercule Poirot.

Inclusive, sua fama é tão grande que existe um termo jurídico homônimo usado para classificar aqueles momentos em que, assim como Perry, o advogado tira uma solução inesperada da cartola. Seja ela uma prova nova ou uma testemunha que surge de última hora no tribunal.

Em outras palavras, ele é um personagem muito importante que merece essa revisita mais real, dramática e robusta promovida pela HBO.

Perry Mason

Entretanto, a série – que foi criada por Ron Fitzgerald (Westworld) e Rolin Jones (Boardwalk Empire) – gira em torno de um detalhe interessante: ser um prequel. Ou, em termos mais simples, uma história de origem que se passa antes da primeira história original estrelada por Mason.

É uma proposta que parte da ideia de explorar um período que os livros de Gardner não cobriram. Logo, a série merece um caso completamente inédito e original. Nesse caso, um terrível sequestro que termina na morte de Charlie Dodson, um bebê com poucos meses de vida.

Um mistério complexo que acontece em um cenário complexo e é investigado por um ser humano complexo. Ou seja, é o doloroso ponto de partida de uma história cheia de camadas que merecem ser investigada com calma.


Los Angeles, 1930

Em primeiro lugar, precisamos falar sobre esse caldeirão social, político, econômico e religioso onde a história de Perry Mason ganha forma. De maneiras diversas, a série constrói um retrato histórico muito fiel e poderoso da cidade de Los Angeles no começo dos anos 30.

Uma cidade grande que enfrenta todas as consequências geradas pela Quebra da Bolsa de 1929. É um lugar destruído moral e economicamente que só consegue manter uma parte do seu desenvolvimento graças ao poder de uma Hollywood cada vez mais forte.

Uma cidade composta por fazendas em ruínas, imigrantes em busca do pouco que restou do sonho americano e seres deploráveis dispostos a fazer tudo por um punhado a mais de dólares. E isso inclui tanto Perry (que viu a fazenda da família entrar em declínio), quanto os policiais corruptos.

Perry Mason

Um caos financeiro que, aliado a ausência de respostas do governo, se tornou combustível para o surgimento de líderes religiosos – representados com perfeição por Tatiana Maslany (Orphan Black) – que se portavam como fontes eternas de esperança. Um mundo real e doloroso que serviu de inspiração para essa origem de Perry Mason.

Mas porque isso é tão importante?

Logo de cara, essa ambientação histórica cheia de detalhes chama atenção por ser um grande diferencial em relação a série da década de 60. Aqueles episódios – que eu procurei há poucos dias – eram simples procedurais de tribunal. Eram divertidos, mas não tentavam fugir do caso da semana. Logo, não precisavam se preocupar tanto com aspectos psicológicos do personagem ou com a cidade que o cerca.

Mas, se você prestar atenção, vai perceber que todas as engrenagens dessa cidade também estão presentes no caso da família Dodson. A crise econômica, a corrupção latente, as ambições políticas, a crença cega, os questionamentos morais e mais um porção de detalhes cruciais. Isso porque eu nem estou citando a Lei Seca, o machismo, o racismo e tantas outras coisas que preenchiam os EUA da década de 30.

Eu poderia só falar que Los Angeles é uma personagem importante (e não estaria errado), mas a verdade é que a cidade alcança esse status por ser o cenário perfeito para aquele caso se desenrolar da maneira como acompanhamos. Tudo conspira para que a promotoria aposte no fato de que mulheres precisam ser esposas e mães perfeitas; para que o protagonista mude de carreira; para o caso ganhe tamanha proporção midiático.

Perry Mason

Não é à toa que Perry Mason dedica muito tempo de tela a essa ambientação, colocando os personagens pra comentar sobre o contexto social ou até mesmo andar pela cidade em diversos horários.

E, nesse ponto, o que brilha é a direção de Tim Van Patten e Deniz Gamze Ergüven (Cinco Graças). O primeiro – que comanda cinco episódios, incluindo os iniciais – usa sua larga experiência com cenários urbanos e séries de época (The Pacific, The Wire, Boardwalk Empire, Família Soprano…) para construir uma estética que realmente transforme a cidade em personagem.

Um trabalho detalhista e nada apressado que surge com bom aproveitamento em todos os episódios da temporada.


Perry Mason por Perry Mason

Em segundo lugar, a série é um clássico estudo de personagem. Algo muito parecido com o que livros policiais mais parrudos (como a saga Millenium, por exemplo) fazem com seus personagens principais.

Não sei se isso rola nos livros de Erle Stanley Gardner, mas posso garantir que acontece nessa nova adaptação do personagem.

Portanto, ao mesmo tempo em que apresenta a cidade, Perry Mason usa boa parte do seu desenvolvimento para esmiuçar os trejeitos físicos, as crenças, os traumas e dinâmica moral que conduz o personagem-título. Tudo isso é tão importante para o caso quanto o caldeirão cultural que o ambienta.

Ele não só é o protagonista da série, como recebe todos os holofotes durante boa parte do tempo. Afinal, nós precisamos conhecer os mínimos detalhes daquele homem para conseguir mergulhar em um caso com ele.

Perry Mason

Se estivéssemos falando de um filme de no máximo duas horas ou de um episódio onde o caso começa e termina, essa importância diminuiria. Mas, como a série dedica todos os seus episódios a um único mistério, o apego aos personagens é decisivo. É a cola que nos mantém presos ali, ansiosos para o próximo capítulo.

É por isso que nós somos apresentados a um veterano de guerra falido que vive com quase nada na fazenda abandonada de sua família. O pouco dinheiro que ele ganha vem de investigações sobre traições e ouras condutas imorais envolvendo atores de Hollywood.

Essa é a casca que reveste uma pessoa deprimida, solitária e traumatizada que deixou o pessimismo tomar conta de sua existência. O resultado é um sujeito completamente niilista que não se importa com ninguém além de si mesmo.

Um protagonista que passa muito longe do advogado que, mesmo cobrando em qualquer ocasião, defende seus clientes com unhas e dentes. Um sujeito frágil e despedaçado que quase nunca se aproxima da figura do herói clássico que defende a justiça e a verdade acima de tudo.

Ele até assume essa postura em momentos pontuais, mas os intervalos sempre mostram alguém inseguro que só não desiste de tudo durante a temporada por sentir alguma vivacidade naquela investigação. Ironicamente, vontade de pegar quem matou o pequeno Charlie Dodson é o que mantém ele vivo.

Ao contrário do protagonista mais simples e direto que ganhou as telas na primeira versão, esse Perry Mason é alguém complexo que aceitar cometer crimes sem nenhum peso na consciência, se os fins forem justificáveis. Segundo o próprio, existe uma diferença entre fazer o que é certo e o que é legal.

Só que o público acaba aceitando esse Perry quebrado como o herói da história. Mesmo depois de vê-lo roubar um corpo, cair bêbado e ser babaca inúmeras vezes, essa posição permanece intacta. E um dos motivos está no trabalho brilhante de Matthew Rhys (The Americans).

Superficialmente, é uma atuação carismática que se aproxima do público através da honestidade. Você sente que Perry é um ser humano de verdade e decide que quer estar do lado dele, seja nos momentos em que o desespero arranca a porta ou nos momentos de inspiração que o levam a alguma descoberta importante.

No entanto, o mais legal é Matthew crescer junto com o personagem, dominando todas as camadas e revelando seus detalhes internos mais sórdidos com olhares ou gestos cheios de sutileza.

É o começo internalizado de um processo de construção que também envolve a maior parte dos coadjuvantes. Seus diálogos com E.B, Emily, Della (um dos grandes destaques da temporada), Paul, Pete e Alice são dotados de uma profundidade que faz falta na televisão.

São momentos que complementam o retrato social (principalmente quando Della expõe o machismo presente naquela sociedade), mas também revelam com muito detalhes quais são os pensamentos e desejos que movem o protagonista.

Algo que ganha ainda mais importância quando lembramos que essa temporada se trata de uma história de origem. É necessário apresentar Perry Mason com o máximo de detalhes para brincar com essa personalidade de forma mais livre no futuro.

E digo mais: é possível que a existência desse objetivo faça com seja mais incrível ver a série escapar como um criminoso escorregadio de sequências didáticas, explicações fáceis e emoções pasteurizadas.


Perry Mason

Detetive/Advogado

Em terceiro lugar, como já era de se esperar, temos uma série de investigação magnífica. Até mesmo porque não é fácil sustentar oito horas de produção com o mesmo caso sem deixar a peteca cair.

É claro que, entre apresentar Los Angeles e o protagonista, Perry Mason não foca apenas no caso. Mas continua sendo uma série de detetive que precisa prender a atenção do público por oito episódios.

Uma missão que a série cumpre com louvor, graças a consistência das subtramas, a distribuição de pistas por todo o desenvolvimento e o surgimento constante de novas camadas. Muitas sequências nem possuem aquela entrega clássica de reviravolta, mas cumprem a tarefa de fisgar cada vez mais o espectador.

Mesmo sendo uma produção densa que coloca outros objetivos na frente da resolução do mistério, a série sabe que precisa manter essa aura detetivesca firme e forte. Por mais que o próprio Perry tire sarro dos folhetins comerciais que Pete acompanha no jornal, sua jornada faz parte de mundo. A investigação é, sem nenhuma dúvida, uma das pernas do tripé que sustenta o todo.

Nesses momentos, a série se aproxima muito de grandes produções noir que foram produzidas até os anos 50. O ritmo, o desenvolvimento, o estilo imponente e a construção climática remetem imediatamente a clássicos como O Terceiro Homem ou Relíquia Macabra.

Mas, ao mesmo tempo, fica claro que Perry Mason não se contenta em ser só isso e tenta desconstruir algumas características tidas como clássicas nas produções noir. É comum, por exemplo, que um protagonista marcada por algumas imperfeições de caráter seja acompanhado por vilões bem definidos, coadjuvantes baseados em estereótipos padronizados (vide a loira fatal) e um cenário mais genérico.

Perry Mason

A série burla alguns desses limites com eficiência desde o início. Observem como a personalidade do Pete ganha peso nas diversas discussões que ele tem com Perry. Ou como a Della assume um papel muito maior do que o de secretária que ajuda seu chefe.

No entanto, a grande jogada dessa desconstrução está na profissão do protagonista e, automaticamente, na necessidade de fazer uma transição.

Em outras palavras, isso significa que, em certo momento, Perry Mason deixa de ser um noir clássico com detetives para se tornar uma série de tribunal. Só que eu não estou falando somente de uma mudança de gênero. Estou falando de uma virada que transforma a série em outra coisa.

Você lembra que eu falei sobre a diferença entre fazer o que é certo e o que é legal?

Pois é… Por conta desse tipo de atitude, a função de advogado cai como uma bomba na vida do protagonista. Simplesmente porque, a partir daquele momento, não adianta só descobrir o culpado. É necessário provar suas deduções.

E, apesar da existência do termo jurídico que se refere a dramaticidade com que o personagem fazia revelações, a compreensão dessa mudança de status injeta uma dose de realismo que encerra a desconstrução proposta desde o princípio.

Porque ali, no tribunal, não existe espaço para palpites, maniqueísmos e caricaturas. Uma nova vida que Perry precisa entender antes de conseguir surpreender.

Perry Mason

Essa constatação pode ganhar ares de decepção pra quem esperava grandes reviravoltas, mas não destoa da maneira como Perry Mason equilibra seus objetivos, seus gêneros e suas estéticas.

É uma série ambiciosa que cumpre os seus objetivos (seja em relação a cidade, ao caso ou aos personagens) com honestidade, profundidade, e a certeza de que existem momentos onde é importante ser engraçado e outros onde a densidade precisa levar o público pro fundo do poço.

E fazer isso com tanta riqueza, estilo e precisão certamente coloca Perry Mason entre as melhores coisas de 2020.


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Perry Mason (1ª Temporada)

9.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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