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Permeado por política e questionamentos libertários, Pari é um poderoso drama sobre a força imparável do amor materno


Você realmente conhece seu filho(a)?

Essa pergunta extremamente complexa já serviu como base para diversos filmes. Entre os mais recentes está Buscando, um suspense que se desenvolve justamente a partir do processo de descoberta iniciado por um pai que entra nas redes sociais de sua filha desaparecida.

De certa forma, Pari também usa isso como ponto de partida ao mostrar um casal de iranianos que chegam à Grécia para visitar o filho, mas descobrem que nada do que ele contava era verdade. Mesmo assim, Pari (nome da mãe) ignora todas as mentiras e entra numa jornada quase obsessiva para encontrar Babak, enfrentando barreiras linguísticas, os ideais do marido e até a repressiva cultura do seu país de origem.

Nesse ponto, o longa parece um pouquinho com Cidade Pássaro. Tanto na premissa, quanto no desenvolvimento que, apesar de trabalhar com uma busca misteriosa, foge do suspense para criar raízes em terrenos mais dramáticos.

Pari

Uma similaridade latente que desaparece após poucos minutos de projeção, comprovando na real como a história não passa de uma peça inicial desse quebra-cabeça que chamamos de filme. A imagem que vai surgir depende exclusivamente do ponto de vista do diretor. Da maneira como ele quer encaixar as outras peças.

No longa brasileiro (que também é um dos meus favoritos da Mostra), Matias Mariani escolhe caminhos mais nebulosos e interpretativos para trabalhar com questionamentos temporais e filosóficos. Já em Pari, o iraniano Siamak Etemadi opta por trabalhar com um drama mais tradicional, extraindo o máximo de emoção das situações reais e palpáveis que conduzem a jornada dos protagonistas.

“Chega de vinho para mim. Estou mais que encantada no denso vermelho e no branco resplandecente. Estou sedenta pelo meu próprio sangue”

Inclusive, estou tentado a dizer que essa deve seve ser a produção “menos viajada” que conferi na Mostra até agora. Etemadi até trabalha com a aparição de um cachorro misterioso e algumas metáforas religiosas, mas prefere inserir a poesia de maneira muito mais literal através de textos sublinhados por Babak. Pistas que aos poucos vão sendo ressignificadas de maneira muito interessante, mas nunca deixam de ter um pé na realidade representada pelos sentimentos libertários de Pari e seu filho.

Na minha visão, ele parece estar muito mais interessado nos aspectos políticos da Grécia ou nas possíveis consequências do conservadorismo muçulmano. Aspectos que ele constrói de maneira bastante íntima nas ruas nada endeusadas ou históricas de Atenas. Uma desconstrução sombria e realista que aproveita, como poucas produções já fizeram, a crueza quase distópica das vielas preenchidas por jovens militantes.

Pari

Eu não conheço a realidade social da Grécia com tanta profundidade, mas consegui sentir o realismo preenchendo a tela da mesma forma que o ar enche nossos pulmões. Etemadi deixa claro que essa abordagem estética é o guia desse seu primeiro – e marcante – trabalho.

“O fogo é meu filho, mas devo ser consumida e me tornar fogo”

Ele gosta de criar impacto a partir de emoções reais, que se aproximam do espectador apesar das diferenças culturais, e isso nos leva a outra peça muito importante para Pari: o trabalho de Melika Foroutan (Paare) como protagonista.

Ela domina o longa com uma mistura sublime entre dureza e sensibilidade. São sensações quase opostos que parecem não se encaixar, mas aqui eles se chocam de maneira sublime enquanto o espectador sente tudo através de Pari. Sejam as dores provenientes de perdas e becos sem saída, ou o amor que exala do seu olhar desesperado, perguntando por Babak pra qualquer estranho na rua.

É isso que carrega o filme e Etemadi tem plena noção disso. Tanto que deixa sua câmera acompanhar essa mulher com a crueza necessária, capturando emoções que resumem a força imparável da relação entre mãe e filho. Um amor materno que oferece liberdade e aceita, mesmo sofrendo, quando a jornada para conquistá-la se inicia. Seja para o seu filho e para si mesma.


Pari foi conferido nas cabines de imprensa da Mostra de São Paulo 2020


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Pari (2020)

9

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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