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Narrativa cheia de obviedades e escorregões transforma Para Todos os Garotos 2 numa continuação sem carisma que não chega aos pés do seu antecessor.


Eu certamente não faço parte do público adolescente que idolatra as comédias românticas da Netflix, mas tento assistir todos os exemplares desse subgênero com o mínimo de preconceito. Claro que sempre acabo me incomodando com os mesmo clichês, porém faço um esforço para entender os efeitos que a produção pode causar no seu “público-alvo”. Só que, mesmo com todas essas descrenças, existem sim aqueles longas que conseguem me surpreender, prender minha atenção através do carisma e até mesmo comprovar que vale a pena acreditar em amores impossíveis. Um grupo seleto que inacreditavelmente inclui Para Todos os Garotos que Já Amei desde sua estreia em 2018.

Isso não significa que eu acho o filme perfeito, mas revela que ele brincou com os clichês de maneira eficiente, me cativou com sua vibe e teve charme suficiente pra me fazer torcer pelos protagonistas. Uma trinca que me deixou com vontade de conferir os próximos passos da franquia estrelada pela ótima Lana Condor (O Dia do Atentado) e pelo pseudo-galã Noah Centineo (As Panteras). Uma trinca que, infelizmente, desapareceu no meio de uma sequência que sequer consegue aproveitar a proposta interessante das cartas de Lara Jean serem recebidas por outros pretendentes, criando um triângulo amoroso inesperado no exato momento em que ela pensa ter conquistado aquilo que mais desejava.

Para Todos os Garotos

Lógico que nada disso influencia diretamente no sucesso da franquia diante do seu público, já que a trilha cheia de canções pop, as cores quase exageradas e diversos outros ingredientes padronizados são mantidos na receita. No entanto, certas substituições – como a troca de Susan Johnson (Carrie Pilby) por Michael Fimognari (diretor de fotografia do longa anterior) no comando da direção – podem ajudar a explicar como Para Todos os Garotos 2 abandonou todo seu frescor para se tornar um filme óbvio e repetitivo, ignorando que até mesmo a trama principal de Lara Jean fala sobre sair da zona de conforto.

Não é à toa que meu maior problema com o filme está na forma como ele aposta no clichê romântico em seu estado mais puro, enquanto o longa anterior brincava com as sacadas típicas do gênero através de detalhes que cercavam o casal principal. A família de Lara Jean, por exemplo, é uma dessas peças importantes que acabam sendo deixadas de lado no tabuleiro. Apesar de ser um dos destaques absolutos da produção anterior, o pai e a irmã da protagonista perdem espaço, ficam presos numa subtrama completamente deslocada e se tornam meras participações especiais num cenário em que já foram decisivos.

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E esse movimento acontece com diversas outras peças que poderiam ajudar a quebrar os clichês de Para Todos os Garotos 2 ao invés de simplesmente reforça-los. É o caso dos amigos que já haviam sido apresentados (com algum destaque) na primeira parte, e de novas adições como Stormy, a administradora alcoólatra do asilo e até mesmo o grande John Ambrose. Nenhum deles consegue brilhar ou conquistar o público dentro de uma narrativa que claramente não sabe como desenvolver eles ou suas respectivas relações com Lara Jean e/ou Peter. É tudo muito frágil e isso prejudica inclusive a conclusão, visto que alguns desses nomes citados se tornam peças importantes no terceiro ato.

Alguns fãs mais alucinados podem defender que isso é uma consequência da trama ter escolhido focar no casal principal, porém a desculpa some no ar graças ao fato de que nem eles funcionam tão bem quanto antes. Óbvio que os momentos fofos e a química entre os atores permanecem como um destaque da franquia, mas boa parte daquele carisma que tornava tudo divertido se perde nas obviedades e nos clipes musicais que lotam a trama sem nenhuma necessidade. Culpa tanto do roteiro sem fôlego de Sofia Alvarez (Para Todos os Garotos que Já Amei) e J. Mills Goodloe (Depois Daquela Montanha), quanto da direção estreante de Fimognari.

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Inclusive, ficou muito evidente pra mim que o diretor – cujos os trabalhos mais relevantes estão restritos a fotografia de filmes de terror, como Doutor Sono – estava usando tais montagens musicais pra tentar disfarçar que não sabia exatamente o que fazer com a história e seus personagens. Mais perdido que eu em um filme do David Lynch, ele tenta transformar qualquer transição em um clipe adolescente para conquistar o público, porém aposta em uma tática tão cansativa e aleatória que dá xeque-mate no próprio filme. Afinal de contas, estamos falando de uma narrativa que consegue ser dispersa e bagunçada do que o roteiro sem graça apontava.

E, diante de tudo isso, o resultado acaba sendo um longa menos carismático, mais óbvio e muito mais chato. O romance é funcional e a amarração de peças pode ser considerada razoavelmente eficiente, mas o pacote completo não tem um terço do charme que fez o primeiro longa alcançar tanta gente. Lara Jean (com sua personalidade incrível) até se esforça pra segurar Para Todos os Garotos 2 sozinha, mas essa missão se torna meio impossível sem o apoio de sua família, o humor sagaz dos amigos ou interesses amorosos que, no mínimo, convençam o espectador de que vale a pena torcer pelo amor.

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Para Todos os Garotos 2 não consegue manter os acertos do primeiro longa, resultando em uma sequência sem charme.

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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