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Especial

Pantera Negra: mais do que um bom filme de super-herói

Representatividade importa!

23 de Fevereiro de 2018 - 15:40 - Pardal

Atenção, esse artigo contém alguns SPOILERS do filme em questão.


Pantera Negra, último lançamento da Marvel Studios, estreou surpreendendo e quebrando alguns recordes de bilheteria. A recepção do público e da crítica tem sido muito positiva, fazendo com que o resultado financeiro seja surpreendente até mesmo para os executivos da produtora.

O sucesso do longa é justificável, afinal é um ótimo filme de super-herói, com ótimos personagens, entre protagonista, vilão e coadjuvantes, direção consistente, cenas de ação divertidas, piadas funcionais e etc. Dentre todas essas qualidades, porém, destaca-se o roteiro, que apesar de não ter a pretensão de ser demasiadamente denso, tem múltiplas camadas e mensagens.

Pantera Negra é sim, acima de tudo, um ótimo filme de super-herói, mas também é algo mais, é um filme com mensagens importantes, um filme que gera representatividade.

Representatividade essa que começa no fato de o filme ser de um herói negro, com quase todo o elenco da mesma etnia. É importante que exista diversidade de personagens na cultura pop, pois assim todos, independente de cor, raça ou sexo, conseguem se sentir representados.

 

 

Mas o filme não para por aí, em meio à história existem várias questões sociopolíticas extremamente relevantes que são abordadas de maneira séria, mas orgânica. Já nos primeiros minutos pode-se perceber isso, com uma cena em Oakland, Califórnia, mostrando uma “pelada” de basquete, esporte majoritariamente negro, numa quadra improvisada no subúrbio. Tendo até referências à Tim Hardaway, jogador que marcou época no Golden State Warriors, time com sede justamente em Oakland.


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Essa cidade tem um significado muito importante, pois ao mesmo tempo que é um exemplo da realidade de muitos negros americanos, sendo considerada a nona cidade mais violenta dos EUA e com mais de 20% da população vivendo na pobreza, acima da média nacional de pouco mais de 13% (números de 2015), também é exemplo de luta e de resistência. Foi lá que nasceu o Partido dos Panteras Negras, na década de 60, se opondo ao preconceito racial da época. Foi lá também que, em 2014, aconteceram os protestos mais violentos pela morte do jovem negro Michael Brown. Ryan Coogler conhece bem a cidade, já que foi lá que nasceu e passou a infância.

Esse ambiente é uma das forças motrizes da trama, sendo usado no filme como fator decisivo na opção de rebeldia de N’Jobu, pai de Killmonger, que ao ver a difícil situação a qual seus “irmãos” viviam e eram submetidos, não aguentou ficar parado e decidiu fazer algo para ajudar, mesmo que não da forma mais correta.

O sofrimento do povo negro, aliás, é grande parte da motivação de Killmonger que, na crítica mais direto do filme fala: “[…] Jogue o meu corpo no oceano, como os meus ancestrais que pularam dos barcos, pois sabiam que a morte era melhor do que o cativeiro”. Essa é uma, se não a, das frases mais impactantes do filme. Uma referência direta ao terror da escravidão. O personagem de Michael B Jordan carrega em si uma forte revolta, por ele mesmo, pelo seu pai e por todos os seus “irmãos”.

 

 

Pantera Negra, entretanto, não se restringe a falar dos dilemas negros, trazendo também uma importante reflexão sobre ajuda ao próximo. Wakanda é mostrada como um esplendor tecnológico e cultural, orgulho para seu povo, mas ao mesmo tempo o assunto mais recorrente no filme é se o isolacionismo adotado pelo país seria a opção mais certa enquanto há no mundo tanta gente precisando de ajuda. O temor do refugiado é justificativa o suficiente para se negar assistência? Fechar os olhos é a atitude mais correta? E o lado humanitário? Essas são questões levantadas pelo filme. Reflexões que podem ser usadas para analisar tanto situações no continente africano, quanto no Oriente Médio devastado pela guerra.

Falando da África, a primeira missão do herói protagonista é um ataque a um comboio armado que levava mulheres cativas, referência ao grupo terrorista Boko Haram que sequestrou diversas jovens estudantes nigerianas. Enquanto Wakanda prospera, há muita injustiça e sofrimento no resto do continente. Esse é o ponto de vista da personagem apresentada em tal missão, Nakia (interpretada pela belíssima Lupita Nyongo’o), mulher, guerreira, que é uma das que traz humanidade à trama, servindo diversas vezes de conselheira do Rei de Wakanda.

 

 

Pantera Negra, no fim, também trata de legado e escolhas. T’challa e Killmonger podem ser vistos como lados opostos de uma mesma moeda. Ambos filhos de príncipes, cada um tendo que lidar com o legado do próprio pai e também do pai do outro. Os dois são produtos de suas próprias escolhas, é claro, mas também de toda uma história que de maneira alguma podemos deixar de levar em conta. Assim como o próprio T’Challa fala, Killmonger é sim um monstro, mas um monstro criado pelos erros de Wakanda.

Por tudo isso que Pantera Negra é, além de um dos melhores, o filme mais importante da Marvel Studios.

Wakanda Forever!

 

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