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Poderoso drama sérvio, Pai mostra que o amor verdadeiro não pode ser afetado por fronteiras, falta de dinheiro ou atos corruptos


Se já falamos um pouquinho sobre o amor de mãe no ótimo Pari, porque não falar do amor de pai. Um sentimento que, mesmo possuindo raízes mais rústicas e internalizadas, é o fio condutor de Pai, um belíssimo drama sérvio cujo clima me remeteu, por algum motivo, a Eu, Daniel Blake desde o início.

A trama acompanha Nikola, um trabalhador pobre que vê seus dois filhos serem levados para um orfanato após uma tragédia familiar. Ele faz todos os esforços para se adequar as condições exigidas pelo serviço social, mas, apesar dos inúmeros apelos, é impedido de rever as crianças. Movido pelo desespero e pela vontade de ser pai, ele decide viajar pela Sérvia a pé e levar o caso, afetado pela corrupção, diretamente às autoridades governamentais na capital do país.

Assim como o citado filme de Ken Loach, Pai reúne todos os ingredientes de um dramalhão clássico, incluindo as emoções reais e as fundações maniqueístas. No entanto, ele precisa disso principalmente porque o mal é uma instituição corrupta que se coloca como superior para controlar a vida dos outros de acordo com seus próprios interesses.

Uma instituição governamental que, por conta da abertura oferecida pelas leis, pode apenas deixar aqueles que mais precisam de lado quando bem entende. O chefe da seção – encarnado com todos os clichês possíveis por Boris Isakovic (Uma Segunda Chance para Amar) – ganha dinheiro com o esquema, mas não deixa de ser o típico antagonista que ameaça os outros só pra sentir o gostinho do poder.

Pai

É um tanto quanto estereotipado, mas funciona. É muito fácil odiar ele e, através dessa raiva, aceitar que essa disputa maniqueísta é um mal necessário na construção de um filme que tem cara de trágico desde a mais chocante cena de abertura da Mostra. Desde aquele momento, o espectador já fica com a impressão de que o final não vai ser feliz e fica esperando a tragédia, abrindo espaço para a direção de Srdan Golubovic criar tensão até nas sequências mais banais.

Por outro lado, essa mesma disputa tão clássica e comum influencia na construção de um filme que pesa a mão em situações um pouco forçadas. Faz parte da proposta do pai fazer grandes gestos, mas, na maioria das vezes, entra no terreno do melodrama de uma maneira que quebra a imersão com mais frequência do que emociona.

São momentos fortes e angustiantes, mas não tão genuínos, e talvez por isso destoem do restante do longa. Em sequências, como a do cachorro, eu me peguei pensando se não estava gostando da história por conta do seu impacto e não por sua qualidade cinematográfica.

Pai

Mesmo assim, tais momentos são pontuais e não prejudicam a experiência depois que o longa engata de vez. E o motivo tende é muito simples: Pai tem muito coração.

Uma qualidade que consegue reunir a força das críticas em torno do desprezo governamental pela pobreza, o texto calcado em emoções reais e a direção segura de Golubovic. Tudo centrado no trabalho fenomenal de Goran Bogdan (Fargo).

O amor transmitido por ele é simplesmente verdadeiro. Um sentimento humano e genuíno expressado com tanta força que, independente do fato dele ser a representação do bem, conquista a empatia de qualquer um. Uma força de vontade que carrega o filme nas costas, conduzindo o público por camadas que dialogam com a ingenuidade e a simplicidade de Nikola.

É ele que mantém o filme equilibrado nessa linha tênue entre o clichê melodramático e as emoções impactantes, puxando um pouco mais pro segundo nos momentos mais decisivos. Momentos esses que, na minha opinião, giram em torno dos gestos mais simples.

Pai

Um abraço de pai filmado com muita sensibilidade, um aperto de mão que faz a cumplicidade transbordar da tela ou um final que mistura as doses certas de tristeza e esperança. Bogdan chega perto de arrancar lágrimas nessas cenas, graças ao talento de um diretor que se destaca muito mais nessas atitudes singelas e facilmente encontradas no nosso cotidiano cheio de corrupção e descaso.


Pai foi conferido nas cabines de imprensa da Mostra de São Paulo 2020


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Pai (2020)

8.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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