AODISSEIA
Filmes

Pacarrete – Uma ópera feita de nostalgia e resistência

Um relato sensível e surpreendentemente divertido sobre como a arte nos mantém vivos.


27 de setembro de 2019 - 12:41 - Flávio Pizzol

Ei, você acha que a pode matar a arte com sua ideologia? Pacarrete é uma aula poética e sensível sobre como a arte mantém o ser humano vivo.


Vivemos dias sombrios em que a arte – como um todo – vem sofrendo com ataques francos e diretos de um governo que, incoerentemente, impõe filtros ideológicos ao mesmo tempo que prega uma suposta liberdade de expressão. Um cenário duro e pesado onde precisamos comemorar cada filme que não tem medo de usar sua trama como palco para demonstrar tanto o espírito guerreiro do brasileiro, quanto o valor do nosso cinema. Duas coisas que Pacarrete (vencedor do Festival de Gramado desse ano) e sua mistura quase operística de nostalgia, sonho e resistência fazem com o glamour de uma obra-prima.

A história, baseada em uma personalidade real que marcou a infância do diretor, acompanha uma bailarina aposentada que decide se apresentar na festa de aniversário da cidade. Isso dá início a uma jornada onde Pacarrete (margarida em francês) enfrenta a desconfiança dos políticos e a fofoca dos vizinhos só para provar que ali, naquele “interiorzão” que guarda o verdadeiro Brasil, a arte também resiste.

Tal premissa – muito bem disfarçada como uma simples biografia – é a janela para um filme tipicamente cearense que escolhe construir sua narrativa através dos contrastes que preenchem a vida cotidiana da personagem-titulo. Um clássico estudo de personagem que mergulha de maneira sensível e divertida na psique dessa mulher que, apesar da alma brasileira, trata o forró como lixo para defender os estrangeirismos que injetam um pouquinho classe aos dias que passam sem grandes palcos, aplausos ou cortinas se abrindo.

Tudo intimamente ligado a sua profissão e a um passado de glórias que ganha força através de outro contraste muito poderoso quando o filme decide falar, entre outras coisas, sobre o drama do envelhecimento. Um tópico muito importante na vida de uma protagonista que se apega as lembranças para não envelhecer. De alguém que usa a esperança fornecida pela continuidade dos seus sonhos como combustível para se manter viva em um mundo que se contenta com ruínas que não param de se despedaçar. De alguém que escolheu ignorar tudo que está a sua volta e viver do seu jeito, mesmo sabendo que só teria tal domínio sobre a calçada onde deposita (antes de limpá-las com detergente) todas as lamúrias que preenchem sua solidão.

É nesse ambiente cheio de máscaras que o ballet ganha espaço como a alegria responsável por enfrentar diariamente a tristeza e monotonia que assolam a passagem de Pacarrete por aquela cidade que ignora ou não acredita no seu talento. A forma como ela fala sempre um tom acima, por exemplo, é justamente uma das manifestações desse desejo de “aparecer”, como se um simples olhar pudesse preencher parte daquele vazio interno deixado pelo fim de sua carreira nos palcos de Fortaleza. Como se uma única apresentação arrancada à força tivesse poder para transformá-la em cisne aos olhos dessa cidade que pouco se importa com seu passado ou com os contrastes quase poéticos que adicionam camadas magníficas ao roteiro de Allan Deberton, André Araujo, Natália Maia e Samuel Brasileiro (O Clube dos Canibais).

Humor cartunesco x drama cotidiano

No entanto, essa complexa dança que se constrói entre a lucidez da vida real e a loucura que é tentar manter a arte viva (principalmente em nosso momento atual) acaba servindo como mero alimento para o contraste que domina e dá vida ao longa: o choque entre a comicidade e a melancolia. Uma relação antagonista, porém complementar, que enriquece a viagem do espectador pelas nuances de Pacarrete através da trilha burlesca deslocada pelo sertão, da direção de arte que esconde o tempo da narrativa, da divergência entre as atitudes exageradas e o corpo franzino da protagonista, e da transição sutil de tons que vai da risada expansiva até as lágrimas mais genuínas com muita facilidade.

E é nesse ambiente de contrastes muito bem calculados que a direção de Allan Deberton brilha sem deixar transparecer o peso da estréia em nenhum instante. Sem nenhum traço de inexperiência, ele dá um show de segurança, conhecimento da linguagem cinematográfica e, principalmente, sensibilidade durante os 97 minutos de projeção. Allan tem uma relação muito verdadeira com a história que quer contar e alcança um nível de controle do timimg cômico e da condução dramática que consegue encaixar até mesmo a piada mais básica de peido no final de sua sequência mais crua e emocionante sem escorregar.

No entanto, pra ser completamente sincero, precisamos deixar claro que ele não atingiria esse nível de perfeição, se Marcelia Cartaxo (A Hora da Estrela) não brilhasse e roubasse todos os holofotes no papel de Pacarrete. A atriz que, mesmo ganhando o Urso de Prata do Festival de Berlim logo no seu filme de estréia, nunca teve a carreira gigante que merecia, recebe aqui a oportunidade de ser literalmente a dona do filme e não decepciona em nenhuma sequência de comédia ou drama estrelada ao lado de João Miguel (3%), Zezita Matos (Velho Chico) e Soia Lira (Central do Brasil).

E, por mais que a simpatia de seus companheiros de cena roube um ou outro “led” da iluminação, Marcelia é quem controla o ritmo e os já citados tons do filme com sua mistura de raiva generalizada, doçura e melancolia. Ninguém conseguiria repetir com tanta verdade o que ela faz em cena. Afinal de contas, é a união da sensibilidade de Deberton com o domínio do oficio de Cartaxo que conduz o público nessa jornada onde, depois de tantas gargalhadas, é impossível não ser tocado pelo momento onde Pacarrete cai na real e começa a se definhar. Um sentimento poderoso que só não supera a alegria que é ver ela resistir, ganhar os palcos e usar sua coreografia para gritar que, assim como a arte brasileira, está mais viva do que nunca.


* Filme assistido no 26º Festival de Cinema de Vitória.