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Drama multinacional, Os Nomes das Flores é um belo e lento conto político sobre o desamparo


Durante a preparação para a celebração dos 50 anos da morte de Che Guevara em uma cidade remota da Bolívia, Julia, uma professora idosa, é convidada a contar sua história. O motivo: ela serviu uma sopa para o guerrilheiro, enquanto o mesmo recitava um poema sobre flores, algumas horas antes de sua morte.

O problema (afinal, todo filme precisa de um pra existir) é que outras mulheres contam a mesma história como se tivesse acontecido com si mesma. Uma descoberta que faz representantes do governo fazerem de tudo para silenciar a senhora durante a busca pela verdade.

Essa é basicamente a sinopse divulgada na plataforma da Mostra, porém, lá no fundo do seu ser cinematográfico, Os Nomes das Flores passa por caminhos um tanto quanto diferentes. Não é sobre essa história da sopa (que, por sinal, nós nunca escutamos sair da boca da professora); e tão pouco é sobre a verdade, considerando que o longa não se preocupa realmente com a possibilidade da protagonista estar mentindo ou não.

Ela é apresentada sob uma cortina de honestidade, e não parece estar agindo de má fé ou sequer preocupada com tal descoberta. É uma pessoa simples que, na minha humilde opinião, nem sabe mais se aquilo é verdade ou não. Talvez seja uma história inventada, mas evoluiu pra rotina de tal maneira que se enraizou em sua vida.

Eu penso que Os Nomes das Flores seja sobre o rombo deixado pela retirada de tal evento que conduzia todos os dias de Julia. Existe, é claro, uma busca pela história verdadeira, porém ela serve apenas como plano de fundo para esse conto político sobre desamparo.

Afinal de contas, isso é exatamente o que a professora sente quando perde aquilo que regia sua vida. Um desamparo que afasta os amigos e invade sua pequena casa acompanhado por uma solidão profunda. Sentimentos pesados, mas lindamente transmitidos para o espectador pelos planos fixos (quase pinturas de natureza morta) do iraniano Bahman Tavoosi.

Os Nomes das Flores

Ele trabalha com uma mise-en-scène singela e quase documental que por vezes me lembrou Honeyland e sua maneira naturalista de passear com os personagens pelas montanhas. E, de certa forma, é como se os dois filmes se encontrassem num meio-termo comum, independente de suas qualidades ou defeitos.

O longa da Macedônia do Norte era um documentário onde os personagens pareciam ser conduzidos por uma narrativa fictícia. Já em Os Nomes das Flores temos um filme ficcional que fotografa seus personagens (em sua grande maioria interpretados por locais) com mais interesse em documentar as consequências daquele evento do que em contar uma história tradicional.

Mas porque Os Nomes das Flores é um conto político?

Porque tal desamparo é causado, de forma direta e indireta, por um governo preocupado com uma verdade que só interessa para eles. Um governo que simplesmente passa por cima das pessoas para completar sua “missão”.

Um elemento crítico que enriquece o filme sempre coloca o dedo na ferida, sugerindo por exemplo várias prisões por motivos banais. Tavoosi disse numa entrevista – que será publicada em breve por aqui – que notou algumas similaridades entre a Bolívia e sua terra natal, e eu gosto de como isso fica claro, mesmo que em camadas mais escondidas da narrativa.

Também gosto principalmente de como o filme relaciona o sofrimento internalizado e intimista da protagonista com essa engrenagem política nefasta. Tudo embrulhado nesse pacote lindíssimo.

O que me incomoda, por outro lado, é como uma parte desse subtexto não consegue sair do papel graças ao desenvolvimento levemente problemático. Bahman até faz escolhas que conversam com o tema e com o clima daquele lugar isolado (é o caso do ritmo e da narração comandada por uma contadora de histórias), mas nem todos funcionam na prática.

Os Nomes das Flores

Em outras palavras: por mais que a velocidade de progressão faça sentido, algumas passagens do longa são arrastadas demais, exigindo paciência do espectador. O mesmo acontece com a narração que se torna repetitiva ao passo em que o longa insiste em invadir a narração com uma cartela de texto muitas vezes desnecessária.

Talvez eu esteja sendo puritano e estabelecendo regras demais sobre o uso da narração, mas esses detalhes realmente atrapalharam minha experiência com Os Nomes das Flores. Muitas vezes eu estava super envolvido com a fotografia e sentia tudo ser quebrado por essas decisões pontuais. Caminhos estéticos que resultam num filme cheio de momentos tocantes isolados entre passagens mais tediosas.


Os Nomes das Flores foi conferido nas cabines de imprensa da Mostra de São Paulo 2020

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Os Nomes das Flores (2019)

6.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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