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Os Despossuídos constrói sua história através de dois planetas e da exploração científica de ambos

“O muro cercava o universo, deixando Anarres de fora, livre.”

Para leitura do mês de Junho da do grupo de leituras coletivas Sci-Fi LC, foi escolhido o livro Os Despossuídos, de Ursula K. Le Guin (primeira autora do nosso grupo de leitura).

Os Despossuídos é uma ópera espacial, considerada utópica e distópica, e não teria uma descrição melhor do que essa. As óperas espaciais são todas as histórias de ficção científica que se passam no espaço, como o próprio nome sugere. Star Wars, por exemplo, é a maior e mais bem sucedida obra de ópera espacial.

No caso de Os Despossuídos, a história se passa entre dois planetas, Anarres e Urras.

“Nosso planeta é a lua deles; nossa lua é o planeta deles.– Onde, então, está a Verdade?– declamou Bedap, e bocejou.– No topo do morro onde se estiver sentado– respondeu Tirin.”

Temos na história que, há quase duzentos anos, em Urras, um planeta com sistema capitalista, uma mulher, Odo, deu início a uma revolução que causou uma emigração de vários colonos para Anarres, um planeta vizinho e desabitado, onde implantaram uma comunidade anarquista. As pessoas que queriam seguir as ideias de Odo e ficaram em Urras acabaram fundando um país comunista.

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Essa comunidade anarquista de Os Despossuídos presente em Anarres permanece isolada não só de Urras, mas de outros planetas, entre eles a Terra. É apenas feito um pequeno escambo com Urras, pois Anarres é um planeta completamente deserto, com pouquíssimas espécies de plantas e animais, porém rico em metais, de forma que faz uma troca com Urras por recursos naturais. Exceto por essa troca de materiais, não existe contato entre os habitantes dos planetas, sendo proibido até que viagem entre um planeta e outro.

“É da natureza da ideia ser comunicada: escrita, falada, realizada. A ideia é como a grama. Anseia pela luz, gosta de multidões, prolifera por cruzamento, cresce melhor para ser pisada.”

A história de Os Despossuídos começa mostrando um físico, Shevek, saindo de Anarres  e indo para Urras, a fim de finalizar a sua pesquisa. A história acompanha esse cientista, desde sua infância até o momento em que ele faz essa viagem, tendo seus capítulos variando entre presente e passado.

Como Anarres é um planeta isolado, Shevek sente dificuldades em seu progresso científico. Para quem não está muito acostumado a vida acadêmica, a pesquisa científica hoje é feita sempre compartilhando informações com outros pesquisadores, de outras universidades, de outros países, e algumas pesquisas de mestrado e doutorado consistem na replicação de algum trabalho em algum outro contexto, seja cultural, geográfico, social, etc. De modo que é fácil entender como uma cultura tão fechada e isolada acabou não tendo mais tanto progresso científico.

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+++ O Homem do Castelo Alto: Livro mostra o mundo caso os nazistas tivessem ganhado a Segunda Guerra Mundial 

 

“Então eu compreendi… sabem… eu compreendi que não se pode fazer nada por ninguém. Não podemos salvar uns aos outros. Nem a nós mesmos.”

Ao contrário da maioria das óperas espaciais que li, Os Despossuídos não apresenta contextos de ação e aventura, sendo criada para falar de política, economia e cultura. Ao analisar os sistemas capitalista anarquista, e até um pouco do socialista, Ursula K. Le Guin constrói utopias e distopias, analisando suas qualidades e defeitos dos sistemas, mas mais do que isso, como a cultura de toda a população é moldada e se transforma por causa daquele sistema político.

A cultura de Urras é muito fácil de entender, afinal de contas, nós vivemos numa sociedade capitalista. Já Anarres é uma utopia anarquista, construída de uma forma surpreendente.

Um bom livro sobre ópera espacial e reflexão sobre sociedade

A autora pensou em todos os detalhes do livro para fazer uma sociedade em que realmente ninguém tem nenhuma posse. Seja posse de objetos, bens materiais ou uma relação de posse entre pessoas e familiares. Em Os Despossuídos, Ursula K. Le Guin explora bastante a complexidade de sistemas, realizando uma série de desconstruções e quebras de paradigmas de todos eles.

“Era um homem livre; podia fazer o que quisesse, quando quisesse e por quanto tempo quisesse. E fazia. Trabalhava. Trabalhava/ se divertia.”

Mesmo não tendo muita ação e aventura, como geralmente se espera em óperas espaciais, Os Despossuídos tem uma leitura muito fluida e que te prende, em momento algum você vai querer parar de ler. Acredito que seja uma ótima análise para pensar e refletir sobre sistemas políticos, culturais, familiares, de individualidade e da natureza humana.

“Morrer é perder o eu e unir- se ao resto. Ele mantivera o eu, mas perdera o resto.”

      • Título: Os Despossuídos
      • Autora: Ursula K. Le Guin
      • Publicação: 1974
      • Edição: 2019
      • Páginas: 384
      • Editora: Editora Aleph
      • Gênero: Ficção Científica / Ópera Espacial
Caso você tenha se interessado pelo livro, Os Despossúidos está disponível na Amazon.
Aqui é a Liv do Resenhas Caóticas, e se você quer acompanhar mais as minhas leituras, me siga no Instagram @ResenhasCaoticas. Obrigada e até a próxima.
Livia Salzani

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