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Os 7 de Chicago mira em uma história cheia de paralelos atuais, mas acaba sendo apenas uma versão enclausurada pela bolha de Aaron Sorkin


Agosto de 1968.

Martin Luther King foi assassinado. Robert F. Kennedy foi assassinado. Caminhando contra as promessas do presidente de parar a batalha aos poucos, a Guerra do Vietnã continuou ampliando o seu contingente de soldados enviados (e mortos).

O Partido Democrata organizou uma convenção para indicar um candidato que não teria força para enfrentar a direita representada por Richard Nixon. Para demonstrar sua insatisfação com tudo isso, vários grupos de jovens se reuniram em Chicago para um protesto pacífico.

O resultado foi um confronto extremamente violento arquitetado pela polícia com a permissão do prefeito Richard Daley. Um evento marcante (apesar de pouco comentado no restante do mundo) que serviu como inspiração para Os 7 de Chicago.


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Os 7 de Chicago

Cr. Niko Tavernise/NETFLIX © 2020

Uma adaptação cinematográfica comandada por Aaron Sorkin (A Grande Jogada). Um nome que, por conta dos ótimos roteiros de A Rede Social e Steve Jobs, amplia a expectativa em torno da produção.

Ver o nome dele no topo dos créditos é uma garantia de teremos um filme cheio de diálogos ágeis e inteligentes, palavras selecionadas com precisão e um senso de humor permeado por um bocado de ironia. Características muito teatrais que o colocaram, com muita rapidez, no hall dos grandes roteiristas da indústria.

Os 7 de Chicago é uma clara continuação da sua jornada autoral, já que aqui Sorkin também acumula o cargo de diretor pela segunda vez. Ao mesmo tempo, isso significa que, sem o filtro interpretativo promovido por outros diretores, todas essas características serão mantidas sem nenhuma discussão. E, à primeira vista, isso não é ruim.

Aaron Sorkin é um ótimo manipulador de palavras e demonstra todo o seu talento em diversos momentos do longa. O resumo histórico nos primeiros minutos, os discursos que constroem (pro bem ou pro mal) os protestos, os depoimentos no tribunal chamam a atenção justamente pela maneira incrível como o lado roteirista dele conduz tudo.

Os 7 de Chicago

Cr. Niko Tavernise/NETFLIX © 2020

Momentos esses que com certeza levarão Os 7 de Chicago até, no mínimo, uma indicação ao Oscar. Não vai ser um caminho injusto, mas não apaga o fato de que, lá no fundo, o longa sequer tenta fugir do “padrão sorkiano” ou dos clichês que sempre se repetem nos filmes de tribunal.

O desenvolvimento dos personagens, as trajetórias de redenção, a manipulação dos sentimentos seguem caminhos bem conhecidos. É tudo milimetricamente calculado de uma maneira conformista e muito contida.

E é essa construção que me fez sentir falta de algo muito importante para esse filme: audácia. Algo que, aprovando ou não, todos sabemos que ocupa uma posição central na tão citada revolução cultural que levou aos protestos de Chicago.

Enquanto todos gritam que “o mundo inteiro está vendo”, Sorkin se esforça pra manter o filme ali, preso numa bolha criada dentro do tribunal. Ele não tem audácia pra abandonar o palco para mostrar a repercussão do que está acontecendo ali, criando uma incoerência dentro da sua própria trama.

Os 7 de Chicago

Cr. Niko Tavernise/NETFLIX © 2020

Não estou dizendo que não existem pontos positivos dentro do tribunal, porque eles existem. O ódio que sentimos pelo juiz e pelo que ele representa é marcante, porque todos nós conhecemos pessoas que agiriam como ele. Pessoas que estão, inclusive, no poder.

No entanto, mesmo assim, eu acho que Os 7 de Chicago é um filme que merecia o mundo. Por mais que não mostrar as ruas seja uma escolha com algumas virtudes, dá pra perceber que o filme sente falta de construir esse diálogo mais próximo com a sociedade.

É muito fácil perceber que estamos diante de um filme extremamente atual. E, da mesma forma, é fácil perceber que ele perde a chance de alcançar seu potencial máximo por ficar escondido debaixo da asa de Aaron Sorkin.

Essa bolha que explica política com didatismo, mas nunca coloca o dedo na ferida. Essa bolha que cutuca, mas não encara de frente os assuntos mais controversos. Essa bolha que faz um relato histórico muito ágil, mas passa correndo na hora de dizer com clareza que o juiz é racista ou que a polícia foi brutal.

Os 7 de Chicago

Divulgação: Netflix

Sorkin coloca tudo isso nas entrelinhas, porém faz o possível pra não sujar as mãos. Por isso, defende que a melhor opção é nunca sair daquela bolha onde tudo está sob controle.

Talvez ele possa classificar isso como “soluções que prezam pela sutileza“, mas eu acho que se trata de um problema maior. Um problema que vai das convicções dele como autor até a pouca experiência como diretor. Ele sempre fugiu de certas polêmicas em seus textos, mas seus trabalhos na direção deixam claro que esse controle é quase uma muleta.

Um apoio necessário para quem não sabe pra onde ir. Para quem não consegue fugir das escolhas mais genéricas e convencionais.

Os 7 de Chicago

Cr.: NICO TAVERNISE/NETFLIX © 2020.

Mas isso significa que o filme é ruim, Flávio?

Não. De maneira alguma.

Os 7 de Chicago é um retrato histórico fiel (dentro do possível) que ganha as telas através daqueles diálogos afiados e super ágeis que todo mundo ama. Um filme com bons momentos de clímax que tem potencial para divertir, emocionar e gerar algumas reflexões. Uma produção que ganha muitos pontos graças ao seu elenco excepcional.

Inclusive, preciso dizer que a direção de atuação é um ponto onde Sorkin evoluiu desde A Grande Jogada. Por mais estereotipados que sejam os personagens, seria injusto falar mal dos trabalhos do elenco principal quando eles prendem o olhar do público na tela a cada aparição.

Os 7 de Chicago

Cr. Niko Tavernise/NETFLIX © 2020

Eddie Redmayne lida bem com a figura do garoto mimado e rico que não entende que revoluções se constroem nas ruas. Sacha Baron Cohen (que também deve aparecer no Oscar) surpreende com uma mistura brilhante entre drama e deboche. Yahya Abdul-Mateen II surge hipnotizante em qualquer sequência. Mark Rylance demora pra realmente se levantar, mas quando faz se destaca. E, por fim, Frank Langella rouba a corte com um juiz cuja função é ser um vilão clássico.

No entanto, mesmo gostando do longa, eu não consigo parar de pensar que ele é muito conformista. Tanto que chega a contradizer o próprio texto. Afinal de contas, tudo em Os 7 de Chicago (dos personagens aos acontecimentos) clama por uma revolução cultural, enquanto a direção segue o caminho oposto. Um caminho confortável que não parece encaixar com o todo.

O filme vai chegar ao Oscar e ser visto por milhares de pessoas, mas eu acho que ele não consegue transmitir o verdadeiro impacto daquilo que aconteceu em Chicago. O quão atuais e imutáveis são aqueles acontecimentos. Porque talvez o público fique preso nessa mesma bolha dos personagens, ouvindo os gritos de “o mundo todo está assistindo” serem bloqueados pelas paredes do tribunal até desaparecem numa tela preta nada revolucionária.


Os 7 de Chicago já está disponível no catálogo da Netflix


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Os 7 de Chicago (2020)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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