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O Tremor é um suspense indiano que encara o vazio, dirigindo rumo ao nada sem sair do lugar


Quando se fala em cinema indiano, muita gente pensa naqueles filmes populares de Bollywood com atuações escrachadas, músicas aleatórias e tramas rocambolescas. Eu preciso que você esqueça tudo isso, afinal O Tremor não se encaixa em nenhum desses padrões.

Aparentemente, a ideia aqui é construir um suspense dramático que acompanha um fotojornalista enviado para cobrir um terremoto que devastou uma vila inteira nas montanhas do país. O problema é que ninguém da vila parece lembrar ou ter qualquer conhecimento sobre tal desastre.

Num primeiro momento, Balaji Vembu Chelli (em seu primeiro longa metragem) desenvolve um clima de tensão bem eficiente através de um longo plano documental em primeira pessoa, que se aproveita tanto do silêncio quanto do ponto de vista jornalístico que acompanha o protagonista. Um caminho com potencial que logo é abandonado em prol de um road movie onde um personagem sem nome dirige por horas em busca de nada.

Podemos dizer que existem alguns paralelos com a realidade do jornalista que nem sempre vê suas pesquisas resultarem em grandes matérias (em certo ponto, a trilha sonora até se desloca do suspense pra isso de uma maneira quase cômica), mas essa não é a proposta do filme. As escolhas estéticas do diretor sugerem o tempo todo que o foco está no suspense. Não é à toa que O Tremor nasce, cresce e morre cercado por uma névoa constante, espíritos que desaparecem do nada e brincadeiras de percepção visual cujo objetivo é deixar o espectador tão perdido quanto o personagem.

Inclusive, em relação a isso, é impossível dizer que O Tremor não consegue fazer equiparar os sentimentos do espectador e do protagonista. Um feito considerável que esbarra na forma como Balaji insiste nessa espera dominada pela possibilidade dele estar perseguindo algo inexistente. Ele aposta que o tempo aumenta a agonia, mas, apesar das pistas oferecidas, tal demora cria o efeito reverso: a curiosidade vai se transformando em frustração.

É verdade que o protagonista também passa por essa transição, abrindo espaço para O Tremor se revelar como um filme que dialoga com a frustração que persegue todos os seres humanos. E talvez o longa até funcione melhor através desse prisma, mas a verdade é que, tirando as recorrentes quebras de expectativa, o diretor não faz escolhas condizentes com esse caminho.

A partir do momento em que Balaji abre do seu surrealismo minimalista para usar o já citado plano em primeira pessoa como sugestão de que existe algo místico por trás da trama, excluindo o protagonista da mesma experiência, ele cria uma ruptura. Uma barreira que separa a audiência do fotógrafo interpretado por Rajeev Anand.

O Tremor

Por mais que ambas as partes saiam da curiosidade para chegar na frustração, os sentimentos são levemente diferentes. O fotojornalista sente a frustração de uma pista falsa, enquanto o público precisa lidar com o vazio deixado por uma sugestão que acaba ficando ilhada na narrativa. Uma ideia perdida nessa floresta cheia de mistérios e possibilidades que nunca se tornam palpáveis.

É provável que os dois lado sintam como se tivessem sido “feitos de bobo”, rodando por horas sem chegar a lugar algum. Mas o protagonista estava fazendo o seu trabalho numa função que nem sempre tem resultados grandiosos. Já o espectador passa os 71 minutos de O Tremor lidando com o gosto amargo de estar preso em um mistério vazio. Um mistério que parece ter sido, por sua vez, devastado pelo tal terremoto.


O Tremor foi conferido nas cabines de imprensa da 44ª Mostra de São Paulo


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O Tremor (2020)

4.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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