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Filmes

O Rei Leão – Um clássico movido por novas experiências

Seja bem-vindo de volta à Pedra do Rei!


22 de julho de 2019 - 20:20 - Flávio Pizzol

O remake de O Rei Leão entrega uma experiência completamente diferente da animação, dividindo opiniões e conquistando novos fãs.


Por mais que o hall completo tenha altos e baixos, ninguém pode negar que a Disney abraçou suas refilmagens live-action como uma oportunidade de criar produções grandiosas sem precisar gastar com o longo processo que envolve a criação de um produto original, usando a ideia de apresentar os clássicos para as novas gerações. Um papinho que, mesmo sendo questionável, permitiu ao estúdio entregar bons filmes ao mesmo tempo em que alcançava conquistas importantes para o cinema, como uso perfeito da computação gráfica para a criação de ambientes e animais em Mogli. Algo que, sem nenhuma coincidência na roda, os motivou a dar passos maiores e enfrentar seu maior desafio com a adaptação de O Rei Leão, uma das histórias mais amadas dos últimos anos.

No entanto, para falar sobre esse remake em si, é muito importante misturar a crítica com uma pequena reflexão sobre os objetivos da Disney e o que o público espera de tais empreitadas. E para isso podemos separar o público em três grandes grupos: aqueles que querem uma adaptação que seja diferente do material original; aqueles que querem simplesmente ver a animação ser representada com pessoas (ou animais realistas, nesse caso) sem nenhuma grande mudança, alimentando sua nostalgia por duas horas; e aqueles que, assim como o estúdio, enxergam os live-actions como uma oportunidade de usar a tecnologia para aproximar aquela história das novas gerações.

Se você faz parte do primeiro grupo e acredita que os “live-actions” precisam de coisas novas para funcionar, pode entrar no cinema sem nenhuma expectativa. Essa nova versão de O Rei Leão foge muito pouco da história original, repetindo dos pontos de virada até os diálogos da animação. É lógico que o roteiro de Jeff Nathanson (Prenda-me se for Capaz) segue o processo dos outros remakes e faz atualizações representativas para a nossa época – incluindo aí a maneira como Mufasa enxerga seu reino, o espaço dado para a Nala, a teatralidade mais sutil de Scar e algumas piadas atuais -, mas nenhum desses elementos muda a base da história.

Isso tranquiliza um pouco a expectativa desse segundo grupo que reúne os fãs mais apegados que desprezam qualquer mudança narrativa, porém é bom lembrar que isso já era mais do que esperado. O Rei Leão é uma animação que permanece viva na memória das pessoas e qualquer mudança no texto poderia ser um grande tiro no pé. Todos os envolvidos no filme sabiam disso, logo são as mudanças visuais que deveriam estar no topo da lista de preocupações desse grupo. Afinal de contas, é impossível fazer com que animais realistas transmitam a mesma quantidade de emoções que uma animação marcada justamente por seu traço caricato e humanizado.

Dessa forma, o resultado é, obviamente, uma produção menos carismática. Só que mais uma vez a produção demonstra ter consciência do que está fazendo e tenta conquistar o público mais pelo apelo visual do que pela emoção. As comparações constantes com o material original e a dificuldade de se conectar com os leões pesam fortemente contra essa solução, mas admito que isso me incomodou menos que o esperado graças ao talento incontestável de Jon Favreau (Homem de Ferro, Mogli e Chef). Digo isso porque ele consegue, apesar dos tropeços naturais, entregar um longa visualmente impressionante, mergulhando nos cenários africanos com uma riqueza de detalhes absurda, planos-sequência que exploram a natureza com pura elegância e referências (algumas grandes, outras minúsculas) que acessam a nostalgia do público com muita eficácia.

É um equilíbrio curioso que, mesmo não conquistando todos os espectadores de maneira unânime, coloca O Rei Leão como candidato óbvio ao Oscar de Efeitos Visuais. É inegável que, assim como a animação fez em 1994, esse filme dá um passo além nesse quesito e merece sim ganhar alguns pontos pela fotografia impecável, pelo uso de técnicas inovadoras no processo e, principalmente, pela criação ultrarrealista de diversos cenários e espécies diferentes. Existem, de fato, alguns momentos em que o movimento da boca desses animais destoa do todo e tira a sensação de imersão do filme, mas é tudo tão pontual que não prejudicou tanto a minha experiência como um todo. Entretanto, vale avisar que pode ser interessante baixar a expectativa, porque tais cenas podem te inquietar muito mais.

Eu admito que me incomodei muito mais com as vozes do que com qualquer problema textual ou visual, considerando que os dubladores tinham a dura missão de carregar a produção nas costas. Donald Glover (Atlanta), por exemplo, tem problemas para encontrar a essência da voz do Simba e oscila mais do que o normal. Já Beyoncé (Reino Escondido) se garante cantando, mas deixa claro que a falta de experiência como atriz pesou um pouquinho. Ícaro Silva e Iza mantém falhas muito similares na versão brasileira, porém perdem pontos a mais graças a uma direção de dublagem que escorrega tanto na artificialidade, quanto no sotaque carioca que não deveria marcar presença no meio da savana africana.

Quem faz o contrapeso e ajuda a salvar o filme em ambas as línguas são Mufasa, Scar, Zazu, Timão e Pumba. James Earl Jones (responsável pela voz original) mantém a qualidade do seu trabalho mais marcante, Chiwetel Ejiofor (Doutor Estranho) funciona como um antagonista ameaçador e “shakespeariano”, e John Oliver (Community) injeta vitalidade ao pássaro tagarela que todos amamos. No entanto, ninguém consegue superar a maneira como a dinâmica entre Seth Rogen (Festa da Salsicha) e Billy Eichner (Friends from College) se encaixa com Timão e Pumba, adicionando piadas brilhantes e transformando-os nos grandes destaques desse remake.

No entanto, se as vozes dão uma vacilada, a trilha sonora – composta e produzida em parceria por Hans Zimmer, Pharrell Williams e Lebo M – assume o papel de carregar o filme. As canções clássicas ganham uma roupagem que se entrega ainda mais ao gênero musical sem perder a essência. As canções instrumentais entram na hora exata, demarcando cada personagem com muito coração. E as canções inéditas (Spirit e Never Too Late) roubam parte dos holofotes nos seus momentos, precisando de muito pouco tempo para grudar na mente e ganhar espaço em alguma playlist de boa parte do público.

Mas sim: apesar dos elogios técnicos, preciso admitir também que nenhum desses pontos positivos teve força suficiente para me fazer chorar copiosamente como acontece até hoje na animação. A cena mais impactante da história (que todo mundo sabe qual é) soa um pouco vazia para alguém que assistiu a animação dezenas de vezes, crescendo e chorando com aquilo. Mas é nesse ponto que entra o terceiro grupo que eu falei lá em cima, porque minhas reflexões pós-sessão me levaram a cogitar que talvez esse filme não seja feito exatamente pra mim. Até mesmo a carga nostálgica poderia estar ali mais por merecimento do que como homenagem, já que todas as sequencias repetidas são realmente boas.

E eu decidi reescrever a crítica e bater nessa tecla porque, por mais difícil que seja admitir isso, os filmes que marcaram a minha infância não mexem com os meus irmãos da mesma maneira por diversos motivos, como ritmo, visual ou traços simplórios. O Rei Leão entra nesse grupo com muita facilidade, por isso eu não questiono tanto assim essa revisitação e acredito que o longa cumpre com perfeição a ideia de apresentar a história para uma nova geração. Uma geração de crianças que já nasceram dentro de produtos marcados por visuais ultrarrealistas e podem se conectar de verdade com O Rei Leão só agora. Aproveitando uma versão que, mesmo sem superar a animação em nenhum aspecto, consegue divertir, impressionar e, quem sabe, conquistar novos fãs para um dos maiores clássicos do cinema.