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Muito bem dirigido, O Poço, novo filme da Netflix, é muito mais do que uma história simbólica e metafórica sobre luta de classes.


Analisando essa cadeia hereditária
Quero me livrar dessa situação precária
Onde o rico fica cada vez mais rico
E o pobre cada vez mais pobre
E o motivo todo mundo já conhece
É que o de cima sobe e o de baixo desce”

O trecho da canção Xibom Bombom do grupo “Meninas” é bastante usado em brincadeiras na internet, seja falando que elas eram comunistas ou prevendo algo que temos visto ser abordado a cada dia mais no cinema recente: a luta de classes. Por vezes este discurso fica evidente e faz parte da narrativa como é o caso de “Parasita”, em outros casos, ele não faz parte da trama principal, mas fica subtendido como  em “Casamento Sangrento”.

o poço

Esse discurso por vezes ultrapassa a obra, se tornando uma alegoria barata e óbvia, escondendo os defeitos de uma produção mediana, Em “O Poço”, esse argumento se une a uma trama muito bem conduzida e dirigida, não economizando no sangue, gore, violência e muita, mais muita intensidade.

Na história, Goreng (Ivan Massagué) acorda em uma prisão conhecida como El Hoyo (título original do longa) e conhece seu companheiro de cela, o velho do óbvio, Trimagasi (Zorion Eguileor). Lá ele descobre que existem vários níveis de celas, e uma plataforma desce com uma grande quantidade de comida, ficando por poucos minutos em cada nível. Obviamente, quem está nas celas acima come melhor dos que estão embaixo.

A medida que o tempo passa, aprendemos quase tudo sobre o lugar. Goreng é o famoso protagonista “orelha”, já que ele nos guia e temos a mesma quantidade de informação que ele. Seu companheiro cometeu um crime e permanecerá por 1 ano, enquanto ele entrou por vontade própria em troca de uma coisa e ficará por 6 meses, sendo que a cada mês, os prisioneiros mudam de nível.

Não é difícil ter a leitura correta e até bastante simples do filme espanhol de Galder Gaztelu-Urrutia. O texto de David Desola e Pedro Rivero deixa tudo claro, com as informações adquiridas sendo desativadas ao longo de “O Poço”. Os de cima não olham para os de baixo e os desprezam. Os de baixo tentam receber alguma ajuda dos de cima e são ignorados ou até mesmo agredidos.

A desigualdade social, a diferença entre privilégios e quem está ou não por cima da carne seca é a grande discussão aqui, mas, e aqueles que dão a comida, o que pensam disso tudo? “O Poço” não pára, e em poucos mais de 90 minutos levanta questões sobre quem comanda aquele lugar, e sobre acreditar ou não no sistema.

O diálogo e a violência andam lado a lado e a produção não economiza no sangue. Os conflitos são basicamente um jogo de marionetes comandados por uma necessidade básica do ser humano: comida. Mas o filme está muito além de discussões rasas e (com o perdão do trocadilho), sem profundidade. Há muitos questionamentos e poucas repostas, mas isso em nenhum momento afeta a nossa empatia com o protagonista ou a tensão gerada pelo medo do desconhecido.

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Emocionante, “O Poço” caminha para um final interpretativo, mas totalmente fiel a tudo aquilo que pregou durante seu pouco tempo. O topo precisa da revolucionária base, e em tempos de pandemia mundial, o filme discute a importância de pegar só aquilo que lhe basta e convém, e deixar para o outro o que você não precisa, óbvio.

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O Poço

9.5

Tiago Soares
Há 4 anos como Redator dessa Odisseia. Estudante de Comunicação Social (Rádio, TV e Internet). Ex Clock Tower, Ex Cinema Com Rapadura e Ex fã de The Walking Dead.

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