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Livre e sensível, O Livro dos Prazeres é um filme sobre se encontrar em meio a todas as construções e desconstruções da vida


Vou começar esse texto com um fato chocante: eu nunca li um livro de Clarice Lispector do início ao fim. Talvez algumas pessoas parem de me seguir por conta disso, mas era uma informação necessária. Achei interessante dizer que dei play em O Livro dos Prazeres como um jovem virgem que experimentou apenas algumas frases soltas da autora.

Isso significa que não vou avaliar o longa de estreia de Marcela Lordy através do livro. Esbarrei em algumas críticas decepcionadas com a adaptação, e por isso decidi deixar claro que nada disso afetou a minha relação particular com a jornada de Lori, uma mulher solitária e melancólica que se divide entre o trabalho como professora e vários relacionamentos superficiais.

O Livro dos Prazeres

Foto: Divulgação

Não consigo afirmar até que ponto a transposição do texto é fiel, mas posso garantir que, apesar de alguns escorregões, O Livro dos Prazeres acabou sendo uma grata surpresa. Uma parte por conta da minha falta de expectativa, outra pelos acertos da produção estrelada por Simone Spoladore (Magnífica 70).

Eu gosto, entre outras tantas coisas, de como Lordy faz um estudo de personagem cujo foco está nas desconstruções que constroem nossa vida. Afinal, Lori é uma pessoa normal que enfrenta dilemas normais de uma vida normal, enquanto tenta se encontrar em meio a tantos sentimentos e sensações diferentes.

Apoiada em conceitos existencialistas dignos de Sartre, a diretora nos apresenta essa mulher comum cujo dilema (narrativo e pessoal) é aprender a conviver consigo mesma. Algo que depende dela enfrentar seus medos, seus lutos e suas barreiras para se reconstruir com uma identidade própria. Uma identidade independente dos irmãos, dos pais ou do passado.

O Livro dos Prazeres

Foto: Divulgação

Mas uma missão dessas, como nós bem sabemos, não se desenvolve de maneira certinha e organizada. Você não resolve um problema de cada vez. Precisa lidar com tudo ao mesmo tempo, tentando organizar a bagunça deixada pelos sentimentos que se chocam como ondas prontas pra moldar falésias.

O resultado disso é um filme meio bagunçado que se propõe a igualar as sensações do espectador e de sua protagonista. Em palavras mais simples: a proposta parece ser inserir o público nessa confusão que, assim como a vida, nem sempre faz sentido ou tem respostas prontas (apesar dos capítulos criarem certos direcionamentos didáticos). O objetivo de O Livro dos Prazeres é criar uma jornada reflexiva e contínua, daquelas que vai sendo escrita aos poucos.

A câmera de Lordy filma tudo de maneira meio novelesca, lavada demais, e nem sempre deixa toda essa enxurrada de emoções transbordar, mas faz tudo sabendo que Simone Spoladore tem plenas condições de carregar o filme nas costas. Bem afinada com a sensibilidade da diretora, ela sabe como transmitir todas as sensações para o público. Sejam elas o amor, a solidão (muito bem representada pelos espaços vazios) ou o desconforto.

O Livro dos Prazeres

Foto: Divulgação

Elas vão nos conduzindo de maneira leve e sensível por discussões (ora internas, ora externas) sobre liberdade sexual, sociedade, conexão, relacionamentos e por aí vai. Na maioria das vezes não chega nenhuma conclusão, mas é justamente isso que comprova a principal lição do longa: a vida é uma grande aprendizagem.

Uma escada sem fim que precisamos subir com calma, um degrau por vez. Naquele momento, o degrau de Lori foi encontrar o amor através de uma conclusão romântica e genérica que tinha tudo pra se tornar um ponto fraco. Só não alcança esse posto, porque é graças a ela que O Livro dos Prazeres encerra seu retrato parcial com os melhores créditos finais do ano.


O Livro dos Prazeres foi conferido no Festival de Vitória


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O Livro dos Prazeres (2020)

7.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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