AODISSEIA
Filmes

O Irlandês – Reflexões sobre meu passado mafioso

"Eu ouvi dizer que você pintava casas..."


20 de novembro de 2019 - 15:56 - Flávio Pizzol

Construído como uma obra quase definitiva na carreira de Scorcese, O Irlandês revisita o passado para refletir sobre os vazios deixados por escolhas sombrias.


Você se arrepende das suas escolhas? Você sente o peso dos erros que cometeu? Você sente medo dos fantasmas do passado entrarem pela porta do seu quarto quando seu últimos dias chegarem? Frank Sheeran (o irlandês do título) acumula tudo isso, porém, da mesma forma como demorou para entender o real significado de “pintar casas”, só compreendeu seus sentimentos depois que a idade se apossou do seu corpo.

Nesse momento, a única coisa que lhe restava fazer era contar sua história através de um filme cujo o objetivo parece ser justamente revisitar, resignificar e reavaliar passados preenchidos por memórias, escolhas questionáveis e vazios existenciais.

O grande truque aqui é que, apesar de algumas diferenças sutis, esse caminho vale tanto para o protagonista, quanto para a própria direção de Martin Scorcese (Os Infiltrados).

É fácil perceber que O Irlandês carrega consigo o mesmo espírito de O Homem que Matou o Facínora, sendo aquele filme que olha para trás com o objetivo de reunir tudo que marcou a carreira de um dos maiores diretores de Hollywood.

Uma obra pessoal e conclusiva que foi desenvolvida como um encerramento natural para o ciclo que Scorcese iniciou lá na década de 70 com o maravilhoso Caminhos Perigosos.

 

 

Não estou dizendo que ele nunca mais vai dirigir um “filme de máfia”, mas esse é o sentimento que, além de injetar peso ao longa, justifica praticamente todas as escolhas narrativas que preenchem os 210 minutos que narram a vida de Frank Sheeran como assassino da máfia e pai de família problemático.

Em outras palavras, não é nenhuma coincidência ver Scorcese reunindo grande parte dos seus atores-fetiche (incluindo um Joe Pesci quase aposentado) no meio de uma porção de referências a Cassino, Os Infiltrados e Os Bons Companheiros.

Assim como não é nada estranho reencontrar todas as características que costumam marcar presença nos longas dele, incluindo os planos-sequência de apresentação, a narração in off comandada pelo protagonista, o tempo narrativo demarcado por momentos políticos e um humor altamente sarcástico que não perde a oportunidade de fazer piadas mórbidas com a própria violência.

A diferença está na abordagem diferenciada que acompanha esse formato contemplativo, já que o glamour do crime é substituído sem nenhuma pena pelo vazio existencial dos personagens.

Nenhum deles parece estar em paz ou sentir prazer com seus atos de violência, começando um processo de expurgação dos pecados que amarra as pontas e até mesmo ressignifica diversos pontos da filmografia de Scorcese.

 

 

Tudo religiosamente encapsulado dentro de um roteiro muito bem conduzido por Steven Zaillian (Gangues de Nova York). Usando como base o livro I Heard You Paint Houses, ele entrega uma espécie de crônica que faz um estudo da violência através da máfia ao mesmo tempo em que aborda o conceito do envelhecimento por meio de diálogos que reúnem temas como memória, passado, luto, escolhas, arrependimentos, solidão e vazios existenciais.

E o fato desta trama ser narrada em primeira pessoa merece atenção, porque em O Irlandês, mais do que em qualquer outro filme, tal recurso fortalece os lapsos de maturidade e autorreflexão que acompanham o fim da vida de um católico preocupado com as penitências da morte. Ainda que Sheeran não seja um narrador necessariamente confiável, o público compra sua versão por parecer, desde o início, um grande e detalhista pedido de perdão direcionado ao mundo.

Da mesma forma, o desenvolvimento lento (mas nunca arrastado) também se mostra um acerto indiscutível quando se pensa um pouquinho sobre os tópicos colocados na mesa.

O texto – brilhantemente construído sem exagerar no didatismo ou deixar pontas soltas – deixa a história se construir no seu próprio tempo, criando relações reais entre os personagens e permitindo que o espectador absorva todas as minúcias que permeiam as vivências de Sheeran como criminoso, sindicalista ou pai.

Enquanto isso, Scorcese aproveita o clima, seleciona as armas e apresenta seu cinema psicológico e reflexivo com excelência. É simplesmente incrível notar como ele domina a construção de tensão, equilibra a opulência da vida dos mafiosos com a lentidão da velhice e extrai o melhor de sua equipe técnica.

Não é nada injusto dizer, por exemplo, que O Irlandês tem potencial para ficar marcado como o grande trabalho das carreiras de Rodrigo Prieto (Silêncio) e Thelma Schoonmaker (O Lobo de Wall Street), considerando, entre tantas outras coisas, a maneira como as escolhas estéticas e um ritmo perfeitamente controlado adicionam ainda mais camadas ao longa.

 

 

Chega a ser curioso, inclusive, ver como toda essa construção fala muito sobre o jeito como Martin Scorcese enxerga a sétima arte.

Talvez fosse até melhor ele ter deixado o longa falar por si só antes de soltar certas opiniões recentes. Afinal, estamos falando de uma produção autoral e “super artística” que muita gente vai considerar inacessível (convenhamos que nem todo mundo está preparado ou disposto a encarar três horas e meia de um filme que nunca apela para a ação sem propósito), mas que o próprio diretor constrói com aura de filme popular.

O longa choca e suga a atenção do espectador com imensa facilidade, seja por conta das consideráveis doses de violência ou da narração agridoce e bem-humorada que preenchem uma narrativa livre da necessidade de provar qualquer coisa.

Só que, mesmo assim, certos contrastes ficam evidentes quando essas mesmas mortes – que continuam pintando as telas do cinema sem nenhum aviso prévio – abrem espaço para um Scorcese, aparentemente arrependido da maneira como explorou a violência no fulgor de sua juventude, trocar os habituais rios de sangue por uma versão mais estilizada que abusa dos planos-médios, dos caricatos jatos vermelhos e da câmera lenta.

E, por mais estranho que isso pareça, tal contexto discordante e complexo é justamente o responsável por dar corpo a O Irlandês e entregar um material onde o elenco tem de fato liberdade para brilhar. Robert De Niro (Coringa), por exemplo, chega ao auge de sua longa parceria com Scorcese com uma atuação madura e concisa que, mesmo sem grandes momentos de explosão, carrega o longa nas costas.

O jeito como ele captura a essência ambígua do personagem, externaliza seus dilemas morais com sutileza e encara a velhice acompanhado por uma impagável cara de deboche é digno de aplausos e premiações.

Sua versão de Frank Sheeran é tão hipnotizante que até mesmo a computação gráfica usada para o rejuvenescimento passa batida, incomodando apenas durante os poucos segundos que separam o primeiro close da primeira frase emitida com precisão.

 

 

Um trabalho fenomenal que só cresce com o apoio exercido por Joe Pesci (Touro Indomável) e Al Pacino (Era Uma Vez em… Hollywood) através desses papéis um tanto quanto opostos que cumprem uma mesma função narrativa: o mentor que vira amigo.

O primeiro, depois de quase dez anos afastado das telonas, surpreende exatamente por fugir do estereótipo explosivo que ele próprio construiu nos filmes de máfia, concentrando a força do seu Russell Bufalino nos olhos sempre cansados e ameaçadores.

Já o segundo rouba a cena a partir do momento em que entrega um Jimmy Hoffa expansivo e canastrão que poderia até mesmo ser comparado ao Tommy DeVito interpretado por Pesci em Os Bons Companheiros, se não fosse o porte de líder e as incríveis piadas com clichês italianos.

Isso sem contar com as participações – pequenas, porém contundentes – de estrelas como Harvey Keitel (encerrando um ciclo depois de estrelar o primeiro filme de Scorcese, Caminhos Perigosos), Bobby Cannavale (Mr. Robot), Jesse Plemons (El Camino), Stephen Graham (Rocketman), Ray Romano (Doentes de Amor) e um irreconhecível Jack Huston (Ben-Hur).

A única atriz que se destaca nesse universo completamente masculinizado onde as mulheres precisam pedir permissão até para fumar é Anna Paquin (Alias Grace), interpretando a versão adulta de uma das filhas do protagonista.

É verdade que ela fala bem menos do que merecia, mas seus olhares de medo e desprezo ainda exercem um papel fundamental na jornada de arrependimento e penitência que serve como pontapé para a trama principal de O Irlandês.

 

O irlandês

 

Uma jornada poderosa que cumpre, sem deixar nenhuma dúvida, seu papel reflexivo e conclusivo em relação ao personagem principal, aos filmes de máfia e a filmografia de um Scorcese que ora esbanja orgulho de sua carreira, ora se apoia na melancolia pra pedir perdão por algumas escolhas do passado.

Dentro desse prisma, O Irlandês funciona como uma espécie de filme definitivo que chega para preencher o vazio do seu próprio criador.

É lógico que existe uma dose considerável de prepotência nesse discurso, mas a junção milimétrica de todas as peças citadas nesse texto revela um projeto épico e sóbrio que merece sim ser coroado como obra-prima.

Um clássico instantâneo que mantém a porta entreaberta para novas possibilidades, ao mesmo tempo em que impede (como se isso já não tivesse sido garantido por outras dezenas de clássicos) Scorcese de seguir Sheeran, Hoffa e Bufalino em suas peregrinações quase religiosas rumo ao esquecimento eterno.