AODISSEIA
Especial

O Homem de Palha: Como o clássico pode influenciar Midsommar

Clássico de 1973 infelizmente é pouco conhecido pelo público.


16 de setembro de 2019 - 16:25 - Tiago Soares

Antes de vir com a ideia de uma viagem maluca até a Suécia, num festival onde o dia nunca chega ao fim, Ari Aster (diretor de Hereditário), parece ter bebido da fonte de um filme britânico pouco conhecido: O Homem de Palha. Dirigido por Robin Hardy, e com o roteiro de Anthony Shafter, a produção acompanha o sargento Howie, que após receber uma carta anônima sobre o desaparecimento de uma jovem, viaja até um ilha escocesa (fictícia), chamada Summerisle. Ao chegar no local, percebe que os moradores não estão tão interessados em ajudar, e seguem um culto pagão comandado por um Lorde (Christopher Lee). O sargento, cristão devoto, não concorda com a maneira que as pessoas se comportam, confrontando a educação nas escolas, a vida noturna e o modo como adoram os seus deuses.

Baseado no livro “O Ritual” de David Pinner, o filme inspirou e foi referenciado em muitas obras posteriores, como a música homônima do Iron Maiden lançada em 2000. A banda Radiohead também fez um clipe em 2016 chamada “Burn The Witch”, onde usa o filme como principal inspiração. O documentário chamado “The Wicker Man Enigma” foi lançado em 2001 e revela as dificuldades pelas quais a produção passou. O filme ainda ganhou um remake horroroso em 2006 protagonizado por Nicolas “Memes” Cage, chamado “O Sacrifício”.

A versão vista foi a Director’s Cut que possui 99 minutos, diferente da versão que foi aos cinemas, com 84.

 

Confronto de religiões?

A medida em que adentra a ilha de Summerisle, Howie confronta seus verdadeiros valores morais e religiosos, pois tudo é completamente diferente do que já viu. Uma sociedade que adora o sol, as árvores, a água e tudo ao seu redor, parece blasfêmia para um homem virgem que cresceu numa vida cristã. Ele se depara com obscuridades, apesar de O Homem de Palha se passar em sua maior parte durante o dia. Howie está fora da sua zona de conforto e a todo tempo tem sua fé desconstruída, muito devido a conversa profunda que tem com o Lorde da ilha, em atuação marcante de Lee.

O Lorde aliás, ressalta a importância do sacrifício humano, algo bastante visto no Antigo Testamento da Bíblia Sagrada. Por que seria diferente em outras religiões, já que muitos conceitos pagãos e festividades (como por exemplo a Páscoa), se tornaram cristãos?

 

Mundo particular

o homem de palha

Robin Hardy e Anthony Shafter criam um universo para chamar de seu. Com um visual meio camp e uma fotografia quase documental, O Homem de Palha é recheado de identidade e certo realismo. Tamanha veracidade contrasta com a excentricidade de figuras únicas, apresentadas durante toda a projeção. Mesmo com um início lento, o filme cria uma atmosfera macabra particular. No mundo de hoje várias atitudes dos habitantes da ilha poderiam não nos chocar, mas na época, algumas pessoas encaravam com certo desdém a fé alheia.

A intolerância religiosa é uma pauta atual e os movimentos ritualísticos causam estranheza, muito por conta de sua bizarrice. Ao mesmo tempo não se pode condenar aquilo que não se conhece, e a medida em que o texto se ancora numa trama religiosa em detrimento da investigação, os limites entre o certo e o errado ficam muito tênues.

 

Um musical de terror?

Cercado de números musicais (todas compostas para o filme), pode-se dizer que O Homem de Palha é um filme de terror ou suspense “musical”, já que todas narram eventos que ocorrem na ilha, ou que ainda vão acontecer. Sob a figura do imponente líder, se encontra uma sociedade humana, por mais religiosa que possa ser. A exemplo de Midsommar (ou pelo menos o que os trailers revelaram até aqui), a luz do dia é igualmente ameaçadora, e mesmo que não seja sangrenta, a obra é impactante e choca pelo final forte e extremamente sádico.