AODISSEIA
Especial

O que vai acontecer com Universo Cinematográfico da DC?


20 de fevereiro de 2017 - 09:00 - Flávio Pizzol

E agora, Warner??


A Variety anunciou na sexta-feira que as negociações – teoricamente, avançadas – com Matt Reeves (Planeta dos Macacos – O Confronto) foram encerradas sem nenhum acerto , deixando The Batman sem um diretor mais uma vez. Pode ser apenas mais um capítulo dessa novela cheia de desinformação, mas lá vou eu fazer uma infame parte dois do texto “O que precisa mudar nos filmes da DC Comics?” e tentar decifrar o que está por trás dessas decisões, no mínimo, bizarras que são tomadas nos bastidores da Warner Bros.

No entanto, eu tenho plena noção que essa missão será uma das mais difíceis que eu já enfrentei como editor do site, afinal meu objetivo não é simplesmente jogar palavras maldosas ao vento. Meus quadrinhos favoritos são da DC e isso praticamente me leva nessa jornada para destrinchar todos os boatos, escolhas e e notícias sobre o Universo Cinematográfico da DC (vamos chamar de DCU pra facilitar, ok?). Ainda não sei onde esse texto vai chegar, mas gostaria de começar separando as decisões tomadas em cada filme para analisá-las separadamente.

  • Tropa dos Lanternas Verdes (ou a repetição de grandes erros)

Após algum tempo de especulação e um longo caminho para ajustar o DCU, a Warner começou a preparar o terreno para um longa da Tropa dos Lanternas Verdes que estrearia em 2020. Uma nova abordagem, uma nova dupla de protagonistas (ou não…) e um filme que seguiria a pegada de “Máquina Mortífera no Espaço“. Uma ideia que poderia funcionar, desde que os responsáveis tivessem tempo suficiente para acertar, principalmente, no elenco e no tom da história.

No entanto, os problemas começam, sob o meu ponto de vista, com o anúncio dos roteiristas responsáveis pelo projeto: Justin Rhodes (Candidatos à Encrenca) e David S. Goyer (Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança). O primeiro é um roteirista quase iniciante que fez seu nome em três longas de comédia independente, sendo que um deles parece brincar com a dinâmica entre pessoas de personalidades distintas. Enquanto David foi o responsável pelos roteiros nem tão elogiados de Batman Begins, O Homem de Aço e Batman vs. Superman. Ele deve garantir sua vaga por ser um parceiro constante do estúdio, mas não possui a veia cômica que esse filme precisaria, nem tem um portfólio de trabalhos elogiados sob sua tutela. Porque apostar em alguém que trabalhou em um dos roteiros mais criticados do DCU?

Além disso, sites internacionais divulgaram uma lista não tão oficial do possível interprete de Hal Jordan, contendo nomes como Tom Cruise (A Múmia), Joel McHale (Community), Jake Gyllenhaal (Os Suspeitos), Armie Hammer (Cavaleiro Solitário), Bradley Cooper (Guardiões da Galáxia) e Ryan Reynolds (Vida). Só pra ter uma ideia do quão estúpida seria essa lista: que tipo de reformulação de franquia decide contratar o mesmo protagonista do seu maior fracasso?

Alguém avisa para os executivos da Warner que escalar Ryan Reynolds pelo seu sucesso em Deadpool não é sinônimo de críticas positivas e boas bilheterias. Alguém avisa que eles precisam consertar os erros para colocar o Lanterna Verde de volta nas telonas após aquela piada lançada em 2011. Afinal de contas, dizem que “errar é humano, persistir no erro é burrice”!

  • The Flash (ou a substituição de ideias mais rápida de Central City)

Uma das notícias divulgadas nas últimas semanas se referia a contratação do roteirista Joby Harold (do ainda inédito Rei Arthur: A Lenda da Espada) para comandar o script de The Flash. Sua função seria de recomeçar – do zero – a base do longa estrelado por Ezra Miller (Precisamos Falar sobre Kevin) e levar a história para uma direção completamente diferente.

Até aí nada demais, além do natural atraso na estreia marcada para março de 2018. A questão é que esse processo evidencia uma crise entre executivos e criativos nos bastidores da Warner. Eles mantém aquele nobre discurso sobre abraçar os autores e suas ideias, mas os donos do dinheiro estão batendo cabeça sem conseguir decidir o caminho que eles querem para o universo. As saídas de Seth Grahame-Smith (LEGO Batman – O Filme) e Rick Famuyiwa (Dope) após apresentação de suas propostas deixam isso mais do que claro. Vamos ver se Joby consegue desbravar essa trilha sob a tutela de Geoff Johns e seus investidores.

  • Shazam e Aquaman (ou apostando tudo sem nada na mão)

Isso pode soar muito surpreendente e até estranho, mas Aquaman e Shazam! são as produções que parecem estar mais avançadas no momento. De um lado, James Wan (Invocação do Mal) está com tudo pronto para começar as filmagens do herói submarino, enquanto o roteirista Henry Garden (Terra para Echo) já está trabalhando no roteiro de um Shazam que seria dirigido por David F. Sandberg (Quando as Luzes se Apagam).

Essas são notícias realmente boas, mas ainda é quase impossível não ficar com os dois pés atrás com essas escolhas, principalmente porque ambos os diretores foram criados no gênero de terror e precisariam da tal liberdade criativa para entregar filmes que não sofram com os mesmos problemas de Esquadrão Suicida. Não quero dizer que elas só funcionaram se forem peças assustadoras, mas precisam ter suas próprias peculiaridades para não ficarem sem pé nem cabeça.

Além disso, a Warner pode estar cometendo um grande erro ao apostar todas as suas fichas nesses dois filmes, antes de confirmar o sucesso de Mulher-Maravilha e Liga da Justiça perante crítica e público. Se as estreias de 2017 saírem pela culatra, o estúdio vai depender quase exclusivamente do herói mais zuado da DC Comics e de um protagonista quase desconhecido. É praticamente impossível garantir que os dois tenham retorno financeiro, mesmo contando com a presença caça-níquel de Dwayne Johnson (Velozes e Furiosos 7) em um possível e muito bizarro filme-solo do Adão Negro.

Será que criar um filme de redenção para um vilão que ainda nem enfrentou seu herói é uma boa ideia? As apostas estão altas e arriscadas demais para construir um filme ainda mais complicado em torno de apenas um ator famoso. Eu colocaria – com muita tristeza no coração – várias das minhas fichas em um novo erro do estúdio…

  • Mel Gibson no DCU (ou um Esquadrão realmente suicida)

A imprensa divulgou, Mel Gibson (indicado ao Oscar desse ano com Até o Último Homem) confirmou que está conversando com a Warner sobre a direção de uma possível continuação de Esquadrão Suicida e eu deveria estar muito feliz com a aproximação de um diretor de calibre. O problema para os próprios executivos do estúdio é que o diretor não gosta de filmes de super-herói, nem vai abrir mão de sua liberdade criativa. Ele vai querer filmar do seu próprio jeito (com muita violência e efeitos práticos) e mandar no resultado final de uma forma que ninguém da DC mostrou ser capaz de fazer.

Se os produtores topassem entregar o comando para Mel, o resultado poderia ser um dos melhores e mais viscerais filmes do estúdio. Se resolvessem mudar as coisas em cima da hora como aconteceu com David Ayer, acabariam colocando um ponto final no DCU de uma vez por todas. Eu tenho plena certeza que Gibson iria transformar a vida de cada responsável no inferno e colocaria a boca no trombone sem nenhuma piedade. É mais uma decisão arriscada que precisa ser tomada com planejamento e total confiança do estúdio em um diretor que conquistou sua merecida liberdade (ops!).

  • The Batman (ou as migalhas mal-assombradas de Ben Affleck)

Esse é o assunto mais delicado desse texto, então vamos com muita calma. Ben Affleck (Argo) assumiu o longa junto com a função de produtor executivo, Joe Manganiello (Magic Mike 2) assinou contrato para interpretar o vilão Deathstroke e tudo foi por água a baixo em uma chuva de notícias completamente desinformadas. Mas o que aconteceu, no final das contas?

Pra começar, Ben já sofreu muito com sua participação em um filme de super-herói de gosto duvidoso e deixou claro – desde sua primeira entrevista – que só comandaria o longa do Homem-Morcego se o mesmo tivesse um roteiro muito bom. Logo, em primeira instância, sua saída da direção espalha alguns indícios de que a história pode estar um tanto quanto fora do lugar. Ele até deu a desculpa de que não conseguiria atuar e dirigir com alta qualidade ao mesmo tempo, mas todos sabemos que, no fundo, ele não queria segurar a bucha sozinho. Se o tiro sair pela culatra, ser só o protagonista vai ser muito mais tranquilo do que estar creditado como produtor, roteirista e diretor.

Eu acredito que pouca gente comprou essa desculpa um pouquinho esfarrapada e isso queimou o filme perante o mercado, deixando apenas duas opções pra Warner: contratar um diretor autoral que tenha liberdade e arrume a casa totalmente ou chamar alguém desconhecido só pra tocar o projeto sob o controle extra-oficial de Ben Affleck e segurar a bomba depois da estreia. Excluindo, nesse caso, a possibilidade de cancelar o longa por agora.

O problema é que nenhuma das opções é realmente boa. A primeira acaba barrada pela falta de uma liberdade criativa verdadeira nos bastidores da produção, enquanto a segunda pode (e deve) resultar no lançamento de um longa mediano que vai afundar o DCU de uma vez por todas. E, se tem uma coisa que eu posso cravar, é que um filme ruim do Batman vai levar ao reboot completo desse universo. Ben Affleck vai abandonar o barco de uma vez por todas, o público geral vai perder as esperanças e a Warner vai perder o apoio até daquele fã mais hardcore da DC.

Matt Reeves seria uma boa opção para a direção, mas a decisão também empacou nos acertos finais. O cara não é um diretor autoral, mas já tem um nome razoavelmente conhecido por Cloverfield e Planeta dos Macacos para simplesmente arriscar sua carreira de uma hora pra outra. Como um anúncio preliminar chegou a ser feito, podemos imaginar que Matt deu pra trás quando percebeu que não teria o mínimo de voz necessário para entregar algo decente. Esse discurso que fica dividido entre aceitar autores e deixar executivos controlarem a produção pelo dinheiro é o maior problema da Warner hoje.

  • Devaneios finais (ou tentativas de concluir alguma coisa)

Eu sei que uma estreia marcada com tanta antecedência leva ao fechamento de vários contratos para brinquedos, jogos e divulgação, mas às vezes é necessário jogar tudo fora pra começar de novo. O comando dos executivos resultou em duas produções com vários aspectos problemáticos, então essa seria a hora de confiar nos seus criativos da mesma forma que a Pixar, por exemplo, decidiu fazer. Pra quem não sabe: Divertida Mente é o fruto da reformulação total (literalmente) de um projeto sobre um lagarto que estava dando errado. Mas essa é uma escolha que a Warner tem que fazer, contando com o consenso total de seus produtores, roteiristas, diretores e acionistas. Não adianta só prometer

O que o estúdio precisa é abraçar várias coisas que eu já citei no texto passado: definir o funcionamento dessa relação entre criativos e empresários, confiar na visão escolhida durante a contratação do diretor, deixar os responsáveis pelo projeto trabalharem em paz e, principalmente, dar tempo para os filmes serem produzidos com calma e cuidado. Brigas internas, trocas de tom em cima da hora e produções apressadas então entre os problemas que destroem qualquer grande produção. A Warner já vivenciou todas elas no universo da DC e, mesmo assim, parece não ter aprendido.

O Batman (e outros heróis da editora) tem personalidades marcantes, vilões reconhecidos e histórias espetaculares que podem ser adaptadas sem grandes problemas para o cinema. No entanto, isso não vai acontecer até o estúdio encontrar o direcionamento no seu interior. Talvez a solução nem esteja na liberdade criativa que gerou Deadpool ou Logan, entretanto a resposta está em definir sua postura sem voltar atrás logo depois. E isso a Fox conseguiu fazer com ambos os filmes citados.

Eu já disse – e repito milhares de vezes – que a Marvel é um estúdio que entrega o minimo possível de criatividade para os seus autores, mas não esconde essa postura ideológica de ninguém e deixa o diretor fazer o que quiser com aquele pouco que tem. James Gunn falou na CCXP sobre o processo para colocar uma piada com pênis nos seus filmes e deixou isso mais do que claro nas entrelinhas. Ele tem algumas diretrizes obrigatórias e conexões que precisam ser feitas em prol do universo, mas o restante do filme não fica sendo desmontado por executivos durante a pós-produção. Talvez você não concorde, mas o resultado está sendo mais positivo do que o da Warner até o momento.

Em outras palavras: a Warner/DC pode copiar uma dessas estruturas internas ou até criar uma só sua, porém precisa fazer isso antes que seja tarde para o universo baseado nos quadrinhos da DC. Eu só tenho mais dois créditos (Mulher-Maravilha e Liga) para gastar com eles e não quero ver o Batman (meu herói favorito) sofrendo com filmes capengas por tanto tempo, como aconteceu com o Wolverine. Não tenho como depositar minhas esperanças a cada três anos e precisar esperar mais de uma década para ver uma representação, no minimo, razoável desses heróis.

Eles podem até mudar a personalidade do Batman completamente, desde que façam um filme decente. Aquele filme que me faça sair do cinema com a sensação de que não desperdicei meu suado dinheirinho com mais uma decepção. Copiando uma frase das discussões que geraram esse texto: “Se for feito do jeito certo, o mundo sempre estará pronto para um novo Batman“. E eu acho que essa fala pode ser estendida sem problema nenhum para qualquer herói da Liga ou da própria DC. Façam do seu jeito, mas arrumem a casa e façam direito!


OBS 1: Esse é um texto que expressa unicamente a minha opinião. No entanto, ele saiu do papel após uma discussão com o Pardal e o Tiago na redação, então preciso, pelo menos, agradecê-los por jogarem o assunto DC, Batman e Warner na roda.

OBS 2: A palavra DC foi repetida centenas de vezes… Fazer o que, né? Quem sabe não cai no Google e ele acabam lendo meu texto!