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Filmes

O Escândalo: Mediano, porém muito importante

Uma história sobre machismo que certamente precisa ser conhecida...


18 de janeiro de 2020 - 21:12 - Flávio Pizzol

O Escândalo escorrega em diversos elementos narrativos, mas incomoda (alguns) na medida certa graças ao elenco e ao discurso poderoso.


Consultor midiático durante as campanhas de diversos políticos republicanos, Roger Ailes se tornou executivo-chefe da recém-criada Fox News em 1996. Seu trabalho fez com que a rede se tornasse o canal de notícias mais visto nos EUA e crescesse como um verdadeiro império baseado em ideologias conservadoras, transformando ele mesmo em uma das figuras mais poderosas do país. O gigante responsável por eleger presidentes caiu de um vez por todas quando diversas funcionárias o denunciaram por assédio sexual, revelando toda a podridão que permeava os bastidores das redações comandadas por Ailes.

O Escândalo acompanha o desenrolar da parte final dessa história através do ponto de vista de três jornalistas/produtoras que fizeram parte do grupo que denunciou e derrubou Ailes, incluindo as reconhecidas Gretchen Carlson e Megyn Kelly. E o resultado é uma produção importante e necessária que chega aos cinemas como um filme difícil de ser assistido por dois motivos bastante distintos.

Em primeiro lugar, pode ser difícil assisti-lo por conta da maneira como os assédios sexuais são abordados durante a projeção. O longa escolhe tocar na ferida sem suavizar as coisas e não é nada fácil ver o machismo sendo tratado como algo banal, o poder sendo usado para diminuir ou objetificar pessoas ou o final amargo comprovar que o caso em questão foi apenas uma batalha de uma guerra que ainda não acabou. Afinal de contas, vivemos em uma sociedade patriarcal onde situações como essa são tratadas como normais.

Dentro desse contexto, tanto o roteiro quanto a direção funcionam justamente por não pouparem o público daquilo que precisa ser mostrado. Charles Randolph (A Grande Aposta) e Jay Roach (Trumbo – Lista Negra) criam diversas sequências que podem só ser classificadas como angustiantes, chocantes e nojentas, reunindo frases soltas banhadas em preconceito, relatos reais encaixados no todo graças a estética verborrágica e até mesmo recriações dos momentos de assédio. Tudo sem apelar (acertadamente) para caricaturas ou alívios cômicos exagerados. O Escândalo é aquele tipo de filme que precisa incomodar para completar sua proposta.


OBS: Ainda que esse choque seja uma parte importante do filme, vale deixar avisado que diversas sequências podem funcionar como gatilhos para pessoas que já sofreram assédio ou tem alguma sensibilidade ao tema. Se você faz parte desse grupo, assista com cuidado.


O elenco, por sua vez, completa esse “statement” com uma mistura equilibradíssima de carisma, intensidade emocional, coragem e presença de cena, representando personalidades distintas que se completam como uma grande força feminista. Nicole Kidman (Aquaman) surge extremamente empoderada e corajosa no papel da responsável por começar a guerra contra Ailes. Charlize Theron (Tully) carrega mais momentos de reflexão/indecisão, mas supera os traumas e abraça a função de ser o principal elo do público com o filme. E Margot Robbie (Era Uma Vez em… Hollywood) surpreende com a representação poderosa de diversas mulheres que quebraram seus acordos de confidencialidade, carregando pelo menos duas cenas muito fortes nas costas.

Enquanto isso, do outro lado da batalha, um irreconhecível John Lithgow (Dexter) interpreta o próprio Roger Ailes da maneira mais asquerosa possível. Seu jeito de andar, seu tom de voz e suas atitudes nas diversas situações onde se esconde atrás do poder ajudam na representação de um homem nojento que não deve ser visto como outra coisa além de um grande vilão. Postura celebrada ao lado do seu grupinho de odiáveis antagonistas sociais composto por Allison Janney (Eu, Tonya), Malcolm McDowell (Laranja Mecânica) e Connie Britton (American Crime Story).

No entanto, por outro lado, O Escândalo acaba sendo difícil de assistir por também escorregar em diversos momentos da narrativa. Começando pelo fato de que o filme precisa simplificar as coisas pra encaixar tanta em história em menos de duas horas. Ou seja, comparado com a minissérie The Loudest Voice (que contou a mesma história no ano passado), o longa acaba ficando pra trás em relação a riqueza de detalhes ou desenvolvimento dos personagens.

Tudo bem que estamos falando de um problema comum – e perdoável – em biografias, mas isso pode chamar a atenção de quem conhece a história original e merece ser pelo menos citado. Todavia, os escorregões que realmente incomodam são: a maneira como o texto se apoia exageradamente no didatismo; e a entrega forçada de momentos fictícios que destoam do restante da trama. É fácil separar as situações reais das sequências dramatizadas citadas no começo da produção, deixando a impressão de que Charles Randolph se perde quando precisa completar os fatos.

Tudo isso enquanto Jay Roach se limita a ser uma “versão pirata” do já superestimado Adam McKay (Vice), repetindo todo o pacote que inclui quebra da quarta parede, montagem acelerada, inclusão de elementos aleatórios e mais algumas coisinhas. Claro que isso ajuda na dinâmica quando as explicações entram em cena e resulta em alguns bons momentos que foram citados no decorrer do texto, mas isso não muda o fato de que tal estética é usada de maneira meio instável. De certa forma, O Escândalo pode ser dividido entre pontos onde a atenção do público é fisgada com brilhantismo e sequências preenchias por puro marasmo que fazem o tempo parar.

E, querendo ou não, isso acaba tirando um pouquinho da força do filme, colocando mais responsabilidades do que deveria no colo do discurso e da temática. Ainda assim, é extremamente necessário deixar claro que a grande maioria dos problemas citados passam longe de tirar a importância da história que está sendo contada. Talvez O Escândalo não seja a melhor opção em relação a primor técnico, mas é uma alternativa popular que permite apresentar esse caso para um número cada vez maior de pessoas. Algo que definitivamente precisa ser feito nessa sociedade que está acostumada não só a desmerecer denúncias de assédio como a fazer comentários similares aos vistos nessa matéria.