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O Dilema das Redes é um documentário cheio de ideias interessantes, mas escolhe ficar na superfície sem se aprofundar ou apresentar soluções


Uma das estratégias da Netflix, como já disse outras vezes, é apostar no máximo de conteúdo possível, incluindo gêneros e formatos diferentes. Nessa algazarra, os documentários sempre surgem como uma opção barata e cheia de potencial. Muitos passam completamente despercebidos, enquanto outros roubam os holofotes.

Considerando que vi até padres indicando a produção, podemos dizer que O Dilema das Redes faz parte do segundo grupo.

Mas, antes de falar qualquer coisa sobre o documentário em si, preciso dizer que temos nas mãos um ótimo exemplo pra se refletir sobre o bom e velho embate entre conteúdo e forma. Em outras palavras: precisamos prestar mais atenção no que o filme quer falar ou em como ele escolhe falar?

Digo isso porque O Dilema das Redes tem um conteúdo potencialmente muito interessante, mas escolhe entregá-lo através de um documentário arrastado e cheio de problemas.

Pra começar, a discussão passa por um filtro redutivo que tem como objetivo colocar toda a culpa nas costas das redes sociais. Não digo que elas não tem problemas (tem muitos, incluindo alguns que não foram expostos aqui), mas a discussão é e precisa ser muito mais ampla e profunda do que o filme propõe.

Pra usar palavras mais diretas, acho justo dizer que o longa te apresenta os problemas, mas escolhe ficar boiando na superfície deles.

Por exemplo, todas as questões envolvendo fake news e polarização passa por muitos fatores que vão além das redes sociais. Elas tem um papel decisivo, porém nunca sozinhas. No entanto, o filme escolhe ignorar boa parte desses elementos (principalmente humanos) pra construir uma vibe meio apocalíptica que chega muito perto de ser desonesta.

O dilema das redes

É possível inclusive que, em certos momentos, a conversa seja tão ou mais manipulativa do que aquilo que é feito através das redes sociais. O longa quer te convencer que existe algo errado e usa todas as ferramentas disponíveis pra isso, incluindo reduzir discussões que os próprios entrevistados já ampliaram em outras entrevistas. Basta procurar alguns deles em outros momentos pra ver como existe muito mais conteúdo ali.

Ao mesmo tempo, no meio dessa discussão podada, o diretor gasta um bom tempo de tela com uma narrativa fictícia extremamente rasa e forçada. Não existe profundidade nenhuma na maneira como os personagens abordam o assunto, garantindo assim que todos esses trechos passem pela tela sem adicionar nada palpável a discussão.

Chega a ser, assim como o resto da produção, manipulativo. Ele quer exemplificar como as redes sociais fazem mal, mas segue o seu padrão de nunca mostrar outros lados pra expandir a discussão. E o motivo é simples: o objetivo de O Dilema das Redes é te convencer dos males através de uma emoção que, apesar das pretensões, nunca chega em lugar nenhum.

E aí, por fim, o documentário ainda escorrega de vez na conclusão, soando como uma redação de ENEM que seria anulada por não oferecer possíveis soluções para o problema proposto. É como se eles, sabendo dos problemas, virassem pro público e mandassem um “tem que mudar isso aí” tão vago quanto os gritados por Bolsonaro.

O filme até fala que tem que regularizar, punir e tudo mais, porém jamais se aprofunda e, por isso, não chega a lugar nenhum. Fala que o espectador tem que fazer algo, mas nunca fala o que ou como. E o problema é que eles são os especialistas, enquanto nós somos meros mortais manipulados por um filme que não consegue oferecer opções.

E a última fala de Jaron Lanier (ou o cara que sugere deletar as redes sociais) deixa isso muito claro. Ele fala que você precisa deletar tais perfis, porque essa atitude nos permite conversar sobre isso. A pergunta que fica é: como?

Eu teria que viajar pros EUA e caçar ele pra abrir esse diálogo?

O dilema das redes

As redes sociais, apesar de todos os seus problemas, são uma opção pra esse diálogo. Então é um tanto quanto bizarro – e elitista – vê-lo sugerir que devemos paramos com uma atitude sem sugerir uma nova opção. É como dizer que precisamos tratar o vício em cigarros sem oferecer um adesivo de nicotina que supra o espaço deixado por essa retirada.

Eu eu poderia ficar citando exemplos que refutassem isso por horas e horas. Quer ver?

Assim como discutimos no podcast sobre meia-entrada, sugerir isso é similar a dizer que o fulano sem dinheiro não pode baixar um filme ou um livro, mas não oferecer uma opção viável e “legal” para esse acesso. É muito fácil dizer que uma pessoa não pode fazer isso ou aquilo sem se preocupar com o restante do problema.

“Ah, mas porque você está tão preocupado com essas soluções? O filme é obrigado a oferecê-las?”

Não. Em teoria,  ele não é obrigado. Mas não existe hora melhor do que essa pra discutir sobre as soluções. Não adianta ficar uma hora e meia expondo um problema sem fazer o mínimo esforço pra se aprofundar em maneiras de diminuir os efeitos das redes sociais. Como o próprio título diz, estamos em um dilema e não sairemos dele enquanto não discutirmos soluções.

Tristan Harris, que é um dos “protagonistas” do documentário, faz palestras onde o objetivo é discutir essas opções, mas O Dilema das Redes escolhe passar por isso mais rápido do a melhor internet do mundo. E esse é o problema: optar por não mergulhar, tirando o corpo fora na hora mais importante.

Claro que não existe uma solução fechada, testada e aprovada, mas seria possível criar propostas. Porque, se os especialistas que realmente entendem não fizerem isso agora (e a Netflix poderia ser uma plataforma interessante pra tal discussão), não adianta reclamar depois. Não adianta reclamar quando os políticos criarem propostas de leis ruins, como aconteceu aqui no Brasil nos últimos meses.

Vincular o CPF ao acesso de redes sociais poderia ser uma ferramenta de repressão política muito pior do que o que é exposto no documentário. Mas, como eu disse, a produção decide se fecha numa redoma utópica na esperança de não precisar sair de cima do muro pra apontar os culpados.

O Dilema das Redes escolhe não se preocupa com um mundo de variáveis que existem fora do seu algoritmo. Escolhe não se preocupar com as políticas públicas ou com soluções que o público normal (o espectador geral do longa não está no Vale do Silício, nem tem acesso a uma porção de aplicações inovadoras) possa acessar.

E, ao fazer isso, o projeto acaba se condenando a ser como o e-mail que Tristan enviou para seus companheiros de trabalho. Uma ideia que se torna uma revolução até sumir sem deixar vestígios.

É exatamente isso que vai acontecer com O Dilema das Redes. Vai fazer um barulho bem-vindo e necessário, mas deve a desaparecer antes de gerar resultados de verdade.


O Dilema das Redes já está disponível na Netflix

 

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O Dilema das Redes (2020)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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