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O Diabo de Cada Dia tenta analisar o mal através das máscaras sociais, mas se perde em uma trama arrastada e quase antológica


Segundo a Bíblia, o mal é inerente à criação. Algo que sempre existiu desde o princípio, percorrendo o caminho contrário ao oferecido por Deus. Algo conhecido por esse Deus plenamente bom, mas que só tomou forma quando o homem foi tentado pelo diabo e, através do seu livre-arbítrio, decidiu transgredir as vontades do seu criador.

A partir desse ponto, todos os homens foram definidos como pecadores por serem descendentes de Adão. Seria necessário nascer de novo para mudar esse status quo.

Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um

– Salmo 14 (13) –

Eu já escrevi sobre diversos filmes cujo o foco era o estudo de personagem. mas na maioria das vezes tais filmes focam na figura de um ser humano modificado pelo seu entorno. Em O Diabo de Cada Dia, as coisas mudam de lado. Aqui, o grande personagem, aquele que merece ser estudado, é o mal.

O Diabo de Cada Dia

Um mal que, assim como define a Bíblia, habita em todos, sejam crianças criadas por soldados traumatizados ou homens de Deus que gritam em nome do Espírito Santo. Um mal que não merece ser analisado porque é modificado pelo que o cerca, mas sim porque modifica tudo que o cerca através da ação dos homens.

Um mal que é transmitido de geração em geração por causa de criações que colocam a violência em primeiro lugar. Um mal que, mesmo não tendo um corpo, se fortalece nesses ciclos infinitos onde violência gera mais violência.

No entanto, esse mal raramente visita o mundo externo. Ele passa a maior parte do tempo escondido sob máscaras que são usadas como arma na luta contra o diabo de cada dia. O fato é que, independente das mentiras e dos disfarces, ninguém escapa desse mal. Todos são atingidos, direta ou indiretamente) por ele.

Alguns são portadores do pecado em seu estado mais puro, alguns apenas reagem com mais violência ao que é imposto por eles e outros ficam sofrendo até encontrarem seus destinos sangrentos. Mas, no final das contas, a verdade é que todos são atingidos por ele.

O Diabo de Cada Dia

Essa é basicamente a essência do estudo promovido por Antonio Campos (do ótimo Christine) em O Diabo de Cada Dia. Com base no livro de David Ray Pollock (que, curiosamente, também narra o filme), ele acompanha a atuação e as consequências do mal na vida de alguns personagens específicos de um interior dos EUA onde homens fazem de tudo para provar o seu valor.

É difícil falar sobre cada um desses personagens, porque o longa chega bem perto de ser uma antologia reunida justamente pela maldade humana. Logo, mesmo criando algumas conexões forçadas, ele mergulha em várias histórias distintas com o objetivo de explorar/provar essa onipresença do mal.

O que eu posso dizer é que Campos leva esse estudo muito a sério. Tanto que as próprias escolhas narrativas e estéticas do filme parecem refletir essa ideia de que o nosso lado maligno é contido por máscaras o tempo todo. É como se O Diabo de Cada Dia fizesse questão de vestir uma grande fantasia clássica – e claramente forjada – que acompanha os personagens com belíssimos planos de contemplação, restringindo a aparição do mal a explosões catárticas pontuais.

O Diabo de Cada Dia

Uma trilha que o elenco também segue com muito afinco. Todos eles trabalham nesse limite tênue entre parecer bom e deixar o mal tomar conta nesses mesmos momentos de embate que coloca o extremismo, a ganância a hipocrisia religiosa e as crenças vazias no centro do ringue. O destaque lógico fica com Tom Holland, Robert Pattinson (em mais um trabalho que usa o deboche com brilhantismo), Eliza Scanlon e Riley Keough.

O problema é que essa máscara esculpida com esmero por Campos é fria demais. Ela afasta o filme do público, impedindo-o de gerar alguma emoção. Em palavras mais diretas: tirando os já citados momentos onde a violência é lançada na tela de maneira mais brutal, o filme não causa nenhum impacto ou efeito no espectador.

Lógico que todo esse desenvolvimento é importante pra catarse, porém não tem fôlego suficiente pra equilibrar a balança de um filme extremamente apático.

E eu digo isso porque, na maior parte do tempo, O Diabo de Cada Dia só cansa. São várias subtramas que se arrastam de maneira interminável, usando a narração literária como uma muleta das mais pobres. As palavras até são muito poéticas e reflexivas, mas a união com as imagens é frágil, didática e repetitiva.

O Diabo de Cada Dia

Uma dinâmica que só é quebrada nos poucos momentos em que a visão niilista de Campos constrói tais confrontos entre os diversos tipos de mal, incentivando julgamentos como se ele fosse um professor de filosofia no comando de uma aula sobre moralidade. Eu adoro todas essas sequências (o duelo entre Holland e Pattinson é o auge da produção), mas, infelizmente, preciso repetir que nenhuma delas consegue equilibrar a balança.

O resultado disso é um filme longo e chato que nunca consegue acertar o espectador “em cheio”. Você pode sentir picos de tensão ou ficar boquiaberto com a fotografia absurda de Lol Crawley (Utopia), mas também vai olhar o relógio inúmeras vezes ou ficar incomodado com alguns personagens menos interessantes que ocupam a tela por tempo demais.

Uma consequência tanto do desequilíbrio quanto desse espírito antológico que não encontra uma unidade que recompense, que mexa de verdade com quem investiu mais de duas horas do seu dia ao longa.

O Diabo de Cada Dia

Ele até consegue comprovar que o mal está em todos os lugares, mas, na minha humilde opinião, isso não é o bastante. Qualquer pessoa pode ligar a TV e descobrir pastores atuando como fariseus, padres roubando dinheiro ou políticos matando o povo para salvar o dinheiro da sua família. Falta O Diabo de Cada Dia concluir seu estudo com algum reflexão que o deixasse na memória da audiência, funcionando como uma máscara cujo poder é anular a lentidão vazia que espalha pela obra como o mal.


O Diabo de Cada Dia estreia na Netflix no dia 16 de setembro

 

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O Diabo de Cada Dia (2020)

5.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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