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Permeado por muita tensão, O Despertar de Fanny Lye é um incrível “folk-horror” sobre religião e liberdades individuais


Numa fazenda isolada no Inglaterra, em meados do século XVII, Fanny Lie vive uma rotina calma e extremamente puritana ao lado do marido – um ex-capitão do exército – e seu filho. Tudo muda quando dois jovens, estranhos e necessitados, se escondem na casa após fugir de um misterioso xerife.

Como dá pra notar pela sinopse, as bases da trama de O Despertar de Fanny Lye não são tão inovadoras assim. A chegada de visitantes estranhos como sinal de mudança, a descoberta sexual, os embates religiosos no interior da Inglaterra. Tudo isso já foi usado em inúmeros filmes, incluindo alguns cujo o clima está muito próximo do que é criado aqui por Thomas Clay (diretor, roteirista, produtor, editor e compositor do filme),

Mesmo assim, eu não consegui desgrudar os olhos da tela. Por isso acabei dedicando alguns dias a pensar: o que faz O Despertar de Fanny Lye ser tão incrível?

E esse texto, querendo ou não, é a transcrição de todas essas reflexões sobre uma das melhores surpresas que a Mostra me ofereceu nesse ano.

O Despertar de Fanny Lye

Foto: Divulgação

Pra começar, eu gosto muito do clima de tensão que é construído desde o início. Apesar da vida de Fanny, John e Arthur parecer super comum, a direção vai plantando pistas de que algo está errado naquela fazenda cercada por névoa, isolamento e medo.

Uma atmosfera que transforma o longa em um folk-horror (terror rural, em tradução livre), afinal todos os ingredientes principais estão ali. Para efeitos de comparação: é um começo muito parecido com o de A Bruxa, só que sem o fator sobrenatural.

Não temos fantasmas, bruxas ou sustos, mas temos esse ar carregado que prende a atenção de qualquer pessoa. O cenário perfeito para construir um suspense psicológico que ganha forma aos poucos, revelando uma porção de camadas e crescendo em todos os aspectos. O Despertar de Fanny Lye é aquele famoso tipo de filme onde “quanto menos você souber, melhor fica“.

Por conta disso, eu não vou me incomodar, se você decidir parar esse texto aqui. Não pretendo dar spoilers, mas preciso destrinchar um pouco do clima do filme pra concluir essa crítica. É inevitável.

Caso você tenha escolhido ficar, vai gostar de saber que esse folk horror ganha novos ingredientes no decorrer da projeção. É possível classificá-lo, por exemplo, como um belíssimo drama sobre libertação, mas esse é só mais um elemento que alimenta a tensão permanente. Afinal de contas, não existe nada que deixa uma certa parcela específica da população mais preocupada do que o desejo de liberdade. Principalmente se ele vier de um parceiro.

O Despertar de Fanny Lye

Foto: Divulgação

E Thomas Clay apoia essa evolução na mudança intercalada entre vilões realistas que se confundem com o passar do tempo. No início, os estranhos interpretados Freddie Fox (The Crown) e Tanya Reynolds (Sex Education) parecem ser a grande ameaça, porém o marido conduzido por Charles Dance (Game of Thrones) também não fica pra trás com o seu patriarcado. Isso sem contar com o puritanismo religioso que parece reger as leis do lugar…

Uma série de pensamentos contrastantes que se posicionam como barreiras preparadas para impedir e incentivar (ao mesmo tempo) o despertar de Fanny Lye revelado no título. Uma personagem introspectiva e conformada que, através do brilhante trabalho de Maxine Peake (Peterloo), carrega o filme nas costas.

Mas calma, pode ficar tranquilo que as qualidades do filme não param por aí. Até mesmo porque seria um ultraje fazer isso sem elogiar como Thomas Clay domina todos os formatos e gêneros que insere na produção. Ele sabe exatamente a história que quer contar e quais elementos precisam fazer parte dela, mas não se afoba. Ele usa cada uma das suas cartas na hora certa, e da maneira mais hipnotizante possível.

 

O Despertar de Fanny Lye

Foto: Divulgação

Quer um exemplo?

O Despertar de Fanny Lye parece teatro em diversos momentos, mas nunca se torna uma peça filmada com gruas distantes. É um teatro energético e pulsante orquestrado por um fantasma preso dentro do cenário. Um espírito acelerado que, mesmo nas passagens mais lentas, insiste em manter o movimento constante das câmeras.

Um maestro que sabe exatamente a hora de abrir o escopo dos planos pra criar tensão, de se aproximar dos personagens pra explorar seus sentimentos mais íntimos ou de transformar tudo num grande show onde a espera pela vingança é colocada pra fora através da raiva mais pura.

O único detalhe que me incomoda, se for necessário dizer algum, é a narração nos poucos momentos em que ela se torna uma espécie de muleta narrativa. Um artificio pobre que ajuda a história a andar sem esforço.

Porém, como eu disse, isso acontece em sequências tão pontuais que não chega nem perto de prejudicar uma obra que fala de puritanismo, religião, machismo, violência e liberdade da forma mais impactante possível. Eu não penso duas vezes antes de gritar que, mesmo sendo pouco comentado, O Despertar de Fanny Lye é uma das grande pérolas da 44ª Mostra de São Paulo.


O Despertar de Fanny Lye foi conferido na Mostra de São Paulo 2020

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O Despertar de Fanny Lye (2019)

9.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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