AODISSEIA
Especial

O cinema segundo Quentin Tarantino

Embarca nessa viagem pelas principais características da estética tarantinesca


14 de agosto de 2019 - 20:31 - Flávio Pizzol

Quentin Tarantino pode ser bastante babaca como ser humano, mas ninguém pode negar que seu alter-ego artístico dominou a linguagem cinematográfica como poucos, chegando ao ponto inacreditável de gerar teorias em torno de um universo compartilhado e até mesmo dar nome a uma estética própria que já pode ser encontrada em diversos filmes sem sua assinatura. Algo no mínimo mágico para alguém cuja carreira começou em uma locadora, assistindo todos os lançamentos possíveis com o objetivo de indicar boas obras para os clientes do local.

É claro que ele também fez cursos (especificamente um sobre direção oferecido pelo Sundance Institute) e flertou levemente com a academia, mas nada disso roubou o espaço de luxo ocupado pela cinefilia que nasceu nos corredores da famosa Video Archives. Foi lá que ele participou de inúmeros debates sobre cinema, conheceu pessoas que se tornariam seus colaboradores frequentes e descobriu que uma de suas frases mais clássicas seria:

“Quando as pessoas me perguntam se eu fui para a escola de cinema eu lhes digo, não, eu fui ao cinema.”

– Quentin Tarantino –

Após essa fase, Tarantino passou a se dedicar exclusivamente ao cinema como carreira. Fez cursos de atuação, conseguiu algumas pontas em séries de TV, dirigiu alguns curtas experimentais e, finalmente, começou a escrever roteiros com o objetivo de descolar um lugarzinho em Hollywood. Inclusive, foi a venda dos roteiros de Amor à Queima Roupa (dirigido por Tony Scott) e Assassinos por Natureza (dirigido por Oliver Stone) que abriram as portas da indústria cinematográfica de uma vez por todas.

Em palavras mais claras, foi nesse ponto que Tarantino conheceu o produtor Lawrence Bender, decidiu dirigir um dos seus roteiros e iniciou uma carreira que passou por inúmeros gêneros, ganhou alguns prêmios e entrou pra mitologia da sétima arte com a sempre comentada aposentadoria após o décimo filme. Uma carreira cheia de clássicos instantâneos que transformaram Quentin Tarantino em um nome cultuado dentro de uma Hollywood que, agora, se torna cenário do seu novo filme: Era Uma Vez em… Hollywood.

Aproveitando o embalo desse lançamento tão esperado, junte-se a nós em uma viagem bem louca pelas principais caraterísticas do cinema “tarantinesco”!

* Tramas sem linearidade e histórias paralelas

Considerando que todos (eu disse TODOS!) os filmes de Tarantino brincam com o tempo da narrativa através da ausência de linearidade ou do paralelismo entre as tramas, podemos classificar essa como uma das características essenciais do seu cinema. É um show de histórias aparentemente independentes que se conectam da maneira mais absurda possível, cortes bruscos para mostrar flashbacks cheios de revelações, divisões em capítulos e mais uma porção de exemplos que podem ser facilmente localizados nos filmes em questão.

No entanto, mais do que uma característica essencial, o jeito como Tarantino usa o tempo é uma sacada que se encaixa perfeitamente com seu apreço pela edição pesada, pela agilidade do texto e pela construção de finais que realmente surpreendam o público. E, dentro dessa proposta, não tem nada melhor do que prender a atenção do público dentro de uma narrativa que esconde segredos e reviravoltas em suas camadas.

* Diálogos marcantes

Como já começamos a falar sobre a agilidade do texto, precisamos comentar sobre aqueles que devem ser o principal trunfo dos roteiros de Quentin Tarantino: seus diálogos. Afinal de contas, estamos falando de um mestre que já conseguiu faixa preta na arte de escrever longas conversas que misturam o cotidiano com doses marcantes de ironia sem perder o ritmo. Inclusive, vale dar o devido destaque para essa última parte, visto que Tarantino conseguiu remar contra todas as “regras cinematográficas” que vendem a ideia de que sequências de diálogos são momentos lentos onde o espectador dispersa.

Entre tantos exemplos marcantes, podemos destacar: a abertura de Cães de Aluguel com um papo que mistura a letra da música Like a Virgin com a importância de dar gorjetas; o diálogo sobre hambúrguer que culmina num momento de pura violência em Pulp Fiction; a sequência onde o Coronel Hans Landa procura por judeus em uma casa no primeiro capítulo de Bastardos Inglórios; o jantar cheio de tensão onde Calvin Candle discursa sobre a frenologia e desmascara Django e King Schultz; e o monólogo hilário sobre o filho do general proferido Samuel L. Jackson em Os Oito Odiados.

* Violência gráfica

Assim como acontece no exemplo de Pulp Fiction, muitas das sequências de diálogos escritas por Tarantino culminam em momentos extremamente violentos. Isso quando não vemos um personagem definhar numa poça de sangue durante 80% da produção, braços jorrarem sangue por metros quando são cortados ou, em casos mais teatrais, o filme todo ser construído como um barril de pólvora que explode da maneira mais sanguinária possível no terceiro ato.

As opções de aplicação da violência gráfica são quase infinitas e Quentin Tarantino gosta de explorar praticamente todas em suas produções. Esse uso pode variar entre reflexões filosóficas, piadas controversas e o choque por si só, mas sempre funcionarão como peças importantes da apresentação de personagens ou situações. Por mais que pareça fútil, não foi à toa que ele gastou, por exemplo, 450 galões de sangue falso nas cenas de combate de Kill Bill. O filme precisava disso pra funcionar…

* Personagens complexos

…da mesma forma como precisava de personagens cujas inúmeras camadas passeiam tanto por caricaturas óbvias quanto por personalidades bastante cinzentas. Um jogo complexo que Tarantino também entende como poucos. É por isso que, nos seus filmes, até mesmo os personagens que carregam os arquétipos mais óbvios não ficam acomodados e caminham por trilhas que vão adicionando graus de complexidade a sua personalidade inicial.

Em outras palavras, estamos falando de heróis que matam sem nenhuma piedade, vilões cheios de carisma que acreditam nos seus pontos de vista com força suficiente para gerar dúvidas no público ou quem sabe um escravo que já chegou num ponto onde age como um fazendeiro branco. E eu sei que usamos o anti-heroísmo de Kill Bill como pontapé para esse tópico, mas a maneira como Tarantino escreve pontos de vista tão diferentes para os escravos de Django Livre talvez seja o melhor exemplo aqui.

* Trilhas sonoras impecáveis

Saindo das características mais restritas ao roteiro para focar no trabalho de Tarantino como diretor, precisamos falar sobre suas trilhas sonoras mais do que marcantes. Um trabalho que passa tanto pela escolha de canções existentes (e, às vezes, perdidas no tempo) quanto pela composição de peças originais que casam magistralmente com cada projeto. Um exercício de ressignificação de músicas que usou, brilhantemente, obras que vão de Stuck in the Middle with You até Misirlou, passando pelas composições inesquecíveis de Ennio Morricone para Os Oito Odiados.

Inclusive, esse último elemento é uma homenagem merecida que já adianta pistas de um amor pelo cinema que não só vai influenciar toda a obra de Tarantino, como vai ser muito importante para os últimos dois tópicos dessa lista.

* Mistura de gêneros

Um dos principais frutos da cinefilia do diretor pode ser encontrado na maneira como ele transita com facilidade por diversos gêneros sem perder a identidade ou a vontade de fazer aquilo funcionar. Em outras palavras: ainda que seu ponto de apoio esteja quase sempre na tensão, o cenário utilizado é amplo o suficiente para flertar com todas as influências que marcaram sua vida como espectador. Tarantino ama o cinema e usa sua posição para passear, brincar e homenagear (com algumas pitadas de subversão garantidas pelas características acima) tudo aquilo que está guardado em algum lugar do seu coração.

Ou alguém vai tentar defender que ele não ama filmes policiais, histórias de assalto, faroestes, clássicos orientais, comédias politicamente incorretas, dramas de guerra e produções que falam sobre os bastidores do cinema em si? Até quem não faz parte do grupo de fãs do diretor precisa admitir que ele tem repertório e sabe usá-lo como combustível para criar algo novo.

* Referências à cultura pop

O amor genuíno de Tarantino pelo cinema também se expande para outras áreas artísticas e o resultado dessa mistura é uma festa marcada por referências que englobam tudo aquilo que pode ser considerado cultura. Só nesse texto nós já falamos de hamburguers, da Madonna e do próprio cinema, mas o diretor não para por aí porque sabe que tais referências são o ingrediente secreto que aproxima seus filmes (principalmente seus diálogos) do público comum. São elementos que se relacionam com qualquer pessoa, independente do país ou da época em que se passa o filme.

É por isso que os filmes do diretor citam (com seriedade ou em forma de piada) a Bíblia e outros livros, esportes de modo geral, personas famosas e mais um bocado de peças que certamente serão encontradas em Era Uma Vez em… Hollywood. Afinal de contas, não tem nada mais rico para um diretor apaixonado por arte como Tarantino do que os bastidores da indústria cinematográfica em uma época de transição. Um prato cheio para ele brilhar com as misturas de gêneros, os diálogos marcantes, as canções incríveis e todas as outras características do – já clássico – cinema “tarantinesco”.