AODISSEIA
Especial

O cinema negro em 2018

Um ano importantíssimo para os negros na frente e por trás das câmeras.


24 de dezembro de 2018 - 13:44 - Tiago Soares

A existência de um texto sobre o cinema negro é uma faca de dois gumes. Se por um lado tivemos ótimos filmes estrelados, dirigidos e produzidos por negros, latinos ou demais minorias — que ganharam certo destaque graças ao assuntos que tocam — por outro, falar sobre os poucos exemplos que citaremos aqui, mostra que o espaço dado a estas vozes ainda é muito pouco.

Uma coisa é certa: queremos mais, merecemos mais! O cinema negro passou por diversas vertentes neste ano, deste o orgulho com Pantera Negra, ao discurso político de Infiltrado na Klan, ou o preconceito visto em O Ódio Que Você Semeia. Questões importantíssimas e atuais foram debatidas, ganharam destaque e foram discutidas em assuntos que outrora eram irrelevantes para o restante do público.

Estes foram alguns filmes que mais nos tocaram em 2018 e o espaço fica livre para os comentários caso achem  que tenha esquecido de algum.

 

Pantera Negra

A Marvel nos presenteou com uma viagem até Wakanda, fazendo um filme sobre as diversas culturas africanas e criando um universo particular que já permeava os quadrinhos desde que foi criado por Stan Lee. Pantera Negra foi exemplo de representatividade e sobre como podíamos ser mais em um mundo dominado pelo “cinema branco”. O orgulho de ver negros sendo bem representados na telona, rendeu inúmeros vídeos e ações emocionantes mundo afora.

Reconhecimento que já está sendo refletido na temporada de premiações e há quem diga que o filme não merece tanto. O fato é que Pantera Negra é seguro dentro de si, possui seus vícios por ser um filme da Marvel, mas está longe de ser convencional. Ryan Coogler traz uma identidade única, arrancando grandes atuações de seu elenco, principalmente do vilão Killmonger de Michael B. Jordan.

 

Sorry to Bother You

Este filme estreou nos EUA em julho e passou por aqui em alguns festivais, não estreando comercialmente nos cinemas. A estreia na direção de Boots Riley não poderia ter sido melhor e toda a linguagem inventiva de sua produção é algo a ser ressaltado. Na trama, Cassius Green (Lakeith Stanfield) é um jovem que não dá certo em nenhum emprego, até que começa a trabalhar num telemarketing, onde deseja alcançar um patamar maior e melhor — sendo um dos melhores nas vendas — o que lhe daria mais privilégios.

Conceitos como “use a voz de branco, só assim você vai conseguir vender” ou “não demonstre que você precisa desse emprego”, são supremacias repetidas durante toda a produção. O que Boots faz é levar Cassius ao privilégio, o apresentando ao famoso conceito de american way of life, ao mesmo tempo em que o personagem é usado pelo alto escalão. Colocar um negro do lado do sistema é uma forma de deslegitimar qualquer movimento e isso acaba afetando sua vida profissional e sua relação com Detroit, interpretada por uma excelente Tessa Thompson.

 

Ponto Cego (Blindspotting)

Dirigido pelo mexicano Carlos López Estrada e com roteiro escrito pelos próprios protagonistas, Ponto Cego faz uma ode a cidade de Oakland, uma das cidades mais perigosas dos EUA. Acompanhamos os melhores amigos Collin (Daveed Diggs) e Miles (Rafael Casal), o primeiro é negro e está a poucos dias de sair da condicional, o segundo branco e inconsequente. Todas as ações de Miles refletem diretamente na vida de Collin, pois sempre é o culpado da maior parte dos infortúnios já que é vítima de preconceito e abuso policial.

A amizade dos dois é algo bastante trabalhado na produção e a toda a tensão presente na vida de Collin, que não pode fazer nenhuma merda em três dias é traduzida na estética meio noir utilizada por Estrada, e no roteiro recheado de rimas que traz um ar inovador a narrativa. Atuações memoráveis e uma cena final emocionante, fazem de Ponto Cego dos filmes mais importantes do ano.

 

Infiltrado na Klan

Spike Lee já nos devia a um bom tempo um ótimo filme, pelo menos um no mesmo nível de seus trabalhos mais memoráveis. Em Infiltrado na Klan o cineasta volta aos tempos áureos de sua carreira ao contar a história de Ron (John David Washington) e Flip (Adam Driver), dois policiais, um negro e um judeu, infiltrados na Klu Klux Klan, mais famoso conjunto de movimentos fascistas e racistas dos EUA. Se passando no Colorado dos anos 70, Ron foi o primeiro policial negro a ingressar na corporação e sofre preconceito dos colegas e da sociedade.

Ao mostrar os desdobramentos dentro da organização, e a luta contra a opressão de grupos como os Panteras Negras, Spike Lee traz momentos emocionantes e inspiradíssimos a sua obra. Discursos poderosos, cercados de crítica social e visualmente poéticos, com uma fotografia e produção de arte com tons em marrom, dão identidade a uma obra que infelizmente ainda é bastante atual.

 

O Ódio Que Você Semeia

O filme de George Tillman Jr. é mais do que tudo um filme sobre família. Todos os ensinamentos do pai Mav (Russell Hornsby) a sua filha Starr (Amandla Stenberg) são palavras de empoderamento que deviam fazer parte do vocabulário de todas as famílias negras. O sentimento de empatia, está presente no texto de Audrey Wells, baseado na obra de Angie Thomas. Após Starr perder um de seus melhores amigos em um caso claro de racismo — o conflito interno da personagem em ser ou não uma voz ativa nos movimentos contra abusos policias — ganha contornos interessantes sobre o verdadeiro significado de ódio, em uma atuação acima da média de Stenberg.

É um pena que no Brasil o filme não tenha ganhado tantas salas, e era difícil encontra-lo em cartaz em muitos lugares, mesmo com a Universal divulgando em peso a produção em suas redes sociais. A maior reclamação dos espectadores era a pouco distribuição do filme, como se a distribuidora não acreditasse no seu potencial.

 

Felicidade Por Um Fio

O filme da diretora árabe Haifaa Al Mansour é muito mais pessoal do que todos os filmes da lista. Assim como o título brasileiro indica, estamos diante de um drama de uma mulher com o seu cabelo. Violet ((Sanaa Lathan), uma mulher negra e bem sucedida, que baseia sua felicidade e auto-estima na forma como seu cabelo está, ao mesmo tempo em que isso afeta sua vida profissional e pessoal. Confira nossa crítica completa.

 

Bônus

This is America

Não é cinema, mas é como se fosse. O perfeito clipe de Childish Gambino, pseudônimo de Donald Glover, que já vem sendo aclamado em outra obra de cunho racial e social com Atlanta, mostra que 2018 foi o seu ano. O clipe comandado pelo nipo-americano Hiro Murai, que dirigiu vários episódios da séroe, traz fluidez e uma narrativa própria a poucos mais de 4 minutos de música, que são recheados de significado, dívidas históricas e crítica social.

 

Bluesman

O novo álbum do baiano Baco Exu do Blues é um dos melhores de 2018, mas seu curta “Bluesman O Filme“, é um copilado muito bem dirigido e fotografado de algumas músicas do disco, condensadas em oito minutos de pura beleza. Produzido pela Stink Films e com o comando de Douglas Ratzlaff Bernardt é nítida a inspiração em filmes como Cidade de Deus (2003) e Moonlight (2016), além de dar voz ao povo baiano.