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Pautado pelo isolamento em diversas formas, O Céu da Meia-Noite junta ideias repetidas numa leitura interessante sobre a solidão


Futuro. A Terra está chegando ao seu fim, e por isso um grupo de corajosos astronautas precisa entrar numa nave e partir em busca de um novo lar para os seres humanos. 

Vocês já viram quantos filmes de ficção científica que usavam esse mesmo ponto de partida. Eu acho que perdi as contas muito antes de assistir O Céu da Meia-Noite e descobrir que, de certa forma, o novo projeto de George Clooney (Boa Noite e Boa Sorte) como diretor segue a mesma premissa.

O único diferencial é que ao invés de mostrar o clássico chamado para a aventura, o filme já começa no aviso de emergência. Afinal de contas, um misterioso evento apocalíptico contaminou o ar de todo o planeta, obrigando os poucos sobreviventes a fugirem para abrigos subterrâneos.

Isso faz com que um cientista solitário e moribundo que decidiu ficar pra trás embarque numa jornada pela Antártida, acompanhado apenas por uma garotinha que não fala, na esperança de se comunicar com a única missão espacial que continua ativa. O objetivo: impedir que eles regressem.

O Céu da Meia-Noite

Foto: Divulgação/NETFLIX

Ao lado de Mark L. Smith (roteirista responsável por O Regresso), Clooney usa essas duas histórias marcadas por isolamentos existenciais ou geográficos para falar sobre a destruição do planeta (uma causa importante em sua vida particular), escolhas, arrependimentos e, logicamente, solidão. E faz isso muito bem até certo ponto.

O drama de todos os personagens é bem desenvolvido e explorado. Os espaços vazios são lindamente filmados pela fotografia gélida do alemão Martin Ruhe (Pastoral Americana). A trilha composta por Alexandre Desplat (Adoráveis Mulheres) conduz as sequências emotivas com intensidade e sutileza. Os diálogos estabelecem relacionamentos sem explicações escancaradas. O elenco dá conta do recado, tanto individualmente quanto como grupo.

Todas as engrenagens se encaixam direitinho, mas, por algum motivo, isso não parece ser suficiente em O Céu da Meia-Noite. E eu acho que a investigação dos motivos precisa começar pelo fato do longa fazer as mesmas perguntas que outras centenas de produções. Isso cria um filme interessante, mas repetitivo. Uma produção meio comum cujo grande problema é ser apenas mais uma boa ficção científica.

No entanto, o detalhe é que eu já tive essa mesma sensação em outros filmes dirigidos por George Clooney. Tudo pelo Poder, por exemplo, tem tudo pra ser classificado como só mais um bom filme político. Assim Caçadores de Obras-Primas em relação a filmes históricos. Nenhum deles é ruim, mas todos ficam presos nessa área comum de seus respectivos gêneros.

O Céu da Meia-Noite

Foto: Philippe Antonello/NETFLIX

Não pensem que eu estou classificando Clooney como um diretor ruim ou dizendo que seus filmes não tem alguma identidade, porque isso seria uma grande mentira. Ele sabe muito bem a história que quer contar e como chegar lá, mas faz isso colando peças conhecidas sem assumir riscos. Para efeitos comparativos, é um processo similar ao de Tarantino, mas não tem o mesmo vigor. A mesma vontade de fugir dessa zona de conforto oferecida pelo próprio gênero.

Com isso, O Céu da Meia-Noite acaba sendo uma mistura de Perdido em Marte, Gravidade, Ad Astra, 2001 e tantos outros longas regidos pelos mesmos questionamentos. Como exercício, eu poderia repetir a pergunta da introdução em uma nova versão: você já viu quantos filmes que usaram a neve ou o espaço para falar sobre solidão?

A resposta é tão incontável que não cabe nos dedos das mãos e dos pés…

Esse estilo meio reprisado pode não ser de todo ruim, porque Clooney entrega um filme palatável. Cria uma obra com bases científicas que pode ser vista por qualquer um, enquanto adiciona sua identidade em sequências mais específicas. Nesse caso, eu destacaria a cena do sangramento na nave por motivos de tensão e inventividade.

O Céu da Meia-Noite

Foto: Philippe Antonello/NETFLIX

É possível encontrar muita beleza, emoção e até mesmo algumas surpresas durante o longa. Coisas legais que não podem ser ignoradas, apesar de nunca terem força suficiente pra fazer o público esquecer completamente das repetições.

Detalhes que ajudam a construir um filme telegrafado, daqueles que dá pra matar os questionamentos, as temáticas e as principais reviravoltas com alguma antecedência. Qualquer pessoa que já tenha visto uma grande quantidade de ficções cientificas e/ou filmes sobre solidão pode acabar matando a virada principal com pouco mais de uma hora de projeção. E, por mais que isso não destrua a emoção do filme, continua sendo um elo fraco da corrente.

Claro que não podemos esquecer desse lado emotivo “sobrevivente”, porque ele garante, junto com todas as qualidades citadas lá em cima, que O Céu da Meia-Noite passe muito longe de ser um filme ruim. Porém isso não tira o gosto amargo, aquela impressão de que faltou algo pro resultado ser um grande filme. Talvez eu tenha sido afetado pela expectativa e esperado demais de uma produção com pretensões menores, mas acredito que ele pode passar despercebido até mesmo nesse ano pouco disputado.

Deve agradar e emocionar muita gente (com merecimento), mas não se destacar como a história merecia. Tudo porque Clooney decidiu fazer só mais um bom filme de ficção cientifica


O Céu da Meia-Noite estreia na Netflix no dia 23 de dezembro


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O Céu da Meia-Noite (2020)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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