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Baseado em frases de Ariano Suassuna, O Auto da Boa Mentira reúne quatro histórias genéricas (porém honestas) sobre a mentira


Segundo o dicionário Michaelis. antologia é uma “coletânea de textos literários, em prosa ou verso, selecionados das obras de autores célebres, dispostos segundo critérios diversos: tema, época, autoria etc…”

Assim como acontece em todas as situações, o termo evoluiu e ganhou novos significados em outros contextos midiáticos. No cinema, as antologias se referem obras que reúnem pequenas histórias independentes sobre o mesmo tema.

Esse formato foi muito comum na década de 60 e 70, mas acabou ficando de lado com o tempo. Só surgia de maneira pontual, como aconteceu com o maravilhoso Relatos Selvagens na década passada.

Dirigido por José Eduardo Belmonte, O Auto da Boa Mentira é uma antologia que reúne tanto o significado literário (através da figura de Ariano Suassuna), quanto esse o lado cinematográfico. Nesse caso, as quatro histórias giram em torno da mentira e suas consequências.

Por conta disso, ele acaba assumindo uma postura conselheira que percorre os caminhos do conto moral para refletir justamente sobre os problemas que podem ser causados por uma informação falsa, por menor que esta seja.

Existe alguma honestidade na proposta, mas, ao mesmo tempo, ela obriga as histórias a ficarem presas numa bolha que nunca é furada. A questão é que pra construir qualquer raciocínio em torno da minha experiência com O Auto da Boa Mentira, eu preciso falar sobre as histórias separadamente.

O Auto da Boa Mentira

Foto: Divulgação / Helena Barreto

Fama

E a primeira história já ajuda a explicar um pouco do que senti, afinal de contas Fama é completamente genérica. Tirando algumas piadas relacionadas com o peso do Leandro Hassum e uma frase que brinca sugestivamente com o Marcius Melhem (nada a ver com os casos recentes dele, porque o filme foi gravado em 2019), não existe a mínima tentativa de entregar algo novo.

è uma trama comum de troca de lugares que tenta brincar com um lado mitológico, porém não se aprofunda. O trecho permanece dentro dessa bolha que todos nós assistimos milhares de vezes na Sessão da Tarde.

A prova é que o próprio Hassum interpreta o mesmo personagem de sempre. Pequenas diferenças em relação a personalidade, mas nada inédito quando pensamos em tiques e relação com o humor construído em cena.

Por mais que nenhum filme seja obrigado a entregar algo inovador ou inédito, a ausência de esforço me incomoda. Passa uma sensação de preguiça que prejudica a construção estética, arrasta o longa e transforma a experiência em algo cansativo.

O Auto da Boa Mentira

Foto: Divulgação / Helena Barreto

Vidente

A segunda história, por sua vez, consegue subir de nível. Em Vidente, Belmonte consegue adaptar a estética, usando a teatralidade do circo para acompanhar tudo com uma dose de cinismo e caricatura.

Isso faz faz bem ao trecho, porque oferece um terreno fértil para reviravoltas, piadas, desenvolvimento da mentira e, principalmente, atuações. O conto em si não tem nada demais, porém consegue oferecer um frescor em termos de linguagem.

O desenvolvimento é leve e atiça a curiosidade em conjunto com o ótimo trabalho dos protagonistas. Por mais que fique preso nessa bolha típica das séries globais, a ingenuidade de Renato Goés, o timing de Cássia Kis e a farsa promovida por Jackson Antunes ajudam a compor um resultado satisfatório dentro de O Auto da Boa Mentira.

O Auto da Boa Mentira

Foto: Divulgação / Helena Barreto

Furão

Algo que definitivamente não acontece com a terceira história. Apesar de ser preenchido pela participação hilária de Jesuíta Barbosa (em um papel incomum dentro de sua carreira) e pela presença magnética de Serjão Loroza, Furão é o trecho mais esquecível do longa.

Ele assume sem nenhuma amarra esse desejo de ensinar, de ser um conto moralista cuja a função está restrita a presença de uma lição no final. É repetitivo e mais imerso na tão citada bolha do que qualquer outra história de O Auto da Boa Mentira. E isso é palpável tanto na forma como a direção lida com a presença de Chris Mason quanto na fotografia lavada que apresenta um Rio de Janeiro genérico.

Claro que uma antologia sobre mentiras precisa ter de pelo menos uma trama moralista. Eu entendo isso, mas passei toda a duração de Furão contestando os motivos de não explorarem nada além disso. O universo da mentira é muito maior e mais complexo do que consequências ruins.

Concordo que a proposta casa com isso pela ausência de cinismo, mas não consigo me conectar com algo que seja repetitivo não só em relação a outras produções. Furão escancara com as histórias estão presas em um bolha básica e isso prejudica o todo.

O Auto da Boa Mentira

Foto: Divulgação / Helena Barreto

Disney

A única história que destoa um pouco disso é a última. Eu realmente gosto, como publicitário e crítico, da leitura que O Auto da Boa Mentira faz de uma agência de publicidade.

Por conta de ter esse espaço como cenário principal, Belmonte assume uma postura mais cínica e faz um uso de um sarcasmo o filme precisava. Não é nada tão crítico ou afrontoso, mas cumpre o papel de adicionar camadas à produção.

Isso sem contar que não existe lugar melhor para situar uma história sobre mentira. Agências de publicidade são ambientes onde as aparências, a falsidade e o ego dominam cada canto, então seria injusto não elogiar a maneira como texto e direção nos oferecem essa abordagem.

O meu problema com Disney é que, com exceção de Luis Miranda, o elenco é pouco carismático. Existe um conceito bem coordenado com as máscaras que vão caindo na conclusão, mas não tem fôlego para furar a bolha e convencer.


No saldo final, temos uma história boa, uma mediana e duas totalmente genéricas. Isso, por si só, já é um problema quando se trata de uma antologia, porque não existe ritmo, pluralidade ou tentativa de usar as quebras para entregar coisas diferentes. Talvez funcionasse melhor como uma série da Globo, onde a apresentação separada das tramas poderia minimizar alguns incômodos.

E meu texto aqui, se outra questão não tivesse surgido após alguns dias com o filme no campo da reflexão. Eu não consegui parar de pensar que O Auto da Boa Mentira nasce como uma homenagem a Ariano Suassuna e suas entrevistas icônicas, mas não tem a alma dele. Com exceção das inserções do próprio escritor, é tudo muito limpo e sem energia.

O completo oposto de Suassuna…

O Auto da Boa Mentira

Foto: Divulgação / Helena Barreto

Por mais que o clima urbano seja justificado pela vontade de criar algo “universal”, o longa não precisava se manter preso nessa bolha com cara de série da Globo. Não precisa ser esse produto que, ao contrário de Ariano, não se destaca diante dos seus iguais por vontade própria.

Eu não gosto do mentiroso que mente pra prejudicar os outros, eu gosto do mentiroso que mente pelo amor a arte”

Pensando sobre essa ótima frase que abre o filme, fiquei com a impressão de que os envolvidos criaram histórias padronizadas e genéricas para só depois usar as palestras de Suassuna como conexão.

Afinal, se tem uma coisa que O Auto da Boa Mentira não consegue fazer, é apresentar um universo cativante e energético onde a mentira pudesse florescer como algo mais do que uma lição de moral. Um terreno onde ela pudesse ser a arte proposta por sua suposta fonte de inspiração.


O Auto da Boa Mentira está em cartaz nas cidades onde o cinema está liberado. Se for assistir, siga todos os protocolos sanitários.


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O Auto da Boa Mentira (2021)

4.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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