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Totalmente divisivo e polêmico, Nova Ordem choca ao permitir que o caos e a desesperança tomem conta da tela


Nova Ordem gerou polêmica em todos os lugares onde foi exibido. Ora por causa dos temas discutidos, ora por causa da maneira brutal como os acontecimentos preenchem a tela. Eu não estou aqui pra julgar a validade dessa resposta do público, mas, após assistir o longa, posso dizer que seria impossível ele passar pelo circuito de festivais sem levantar tais discussões.

A história acompanha dois momentos paralelos da capital mexicana: a cerimônia de casamento de Marianne, uma jovem simpática que vive na área nobre; e uma série de protestos liderados pelas classes menos abastadas. O encontro entre esses lados tão distintos gera uma onda de caos e violência que abre espaço para um golpe de estado que passa longe de ser a solução.

Eu entendo toda a polêmica gerada pela sequência de imagens pesadas que constroem Nova Ordem, porém tenho mais problemas com o conteúdo do que com a forma do filme. Em outras palavras: eu não concordo com quase nada que compõe o discurso de Michel Franco aqui.

Não gosto muito do ponto de vista elitista que domina a narrativa, talhando o espaço das outras partes. Tenho algumas ressalvas com relação ao desenvolvimento de boa parte dos personagens. E, apesar do longa ter algo de disputa de classes no início, fiquei longas horas refletindo sobre a maneira como ele parece ignorar as diferenças de classe na construção do seu discurso.

No final das contas, eu creio que entendi que essa “equalização” das classes possuía um significado real dentro de uma produção que fala sobre a política que se coloca acima das vidas. Dessa política super militarizada que enxerga todos os cidadãos, independente de qualquer fator, como peças descartáveis para alcançar o poder.

Nova Ordem

Não estou dizendo que concordo tanto com esse discurso quanto com a maioria dos caminhos textuais escolhidos por Franco, mas entendo uma parte considerável. Um resultado que pode ter sido influenciado justamente pela forma como o diretor escolhe contar a história. Uma forma brutal, mas também muito hipnotizante.

É uma briga constante entre querer virar o rosto pra fugir da violência e não conseguir tirar os olhos da tela. Algumas sequências devem ultrapassar o “limite” de uma grande parte dos espectadores (inclusive eu) por terem como objetivo o choque por si só, sem um significado tão claro por trás, mas no geral penso que essa a intensidade dialoga muito bem com a temática de Nova Ordem.

Franco poderia ter aliviado a crueldade ou deixado certos momentos como sugestão? Com toda certeza. Existe, inclusive, uma cena em particular (não vou contar pra não dar spoiler) que me deixou mais angustiado do que vidrado, porém desviar a câmera representaria uma ruptura abrupta com a desesperança que preenche o filme. Franco acredita que a reflexão vai ser gerada através do choque e, pro bem ou pro mal, não foge disso em nenhum instante.

E pra falar a verdade, esse niilismo que flerta com a anarquia e com o pessimismo é o que mais me impactou. Franco filma as ruas vazias e as sequências de revolta com tanto peso e visceralidade, porque acredita que nessa nova ordem militarizada não existe espaço para a esperança. Qualquer possibilidade de salvação surge na tela só pra ser esmagada, como uma barata sem as patas, logo depois.

Nova ordem

É claro que isso incomoda na maior parte do tempo. Por isso que, mesmo fazendo essa reflexão do que gostei ou não, eu permaneço dividido. Ora penso que assisti uma obra extremamente impactante, ora penso que Franco não passa de um imitador da violência gratuita de Michael Haneke.

Ainda assim, não posso negar que estou pensando em Nova Ordem até agora. O filme ficou preso na minha mente, levantando tantas reflexões quanto o diretor parece esperar, e isso é um ponto muito positivo.


Nova ordem foi conferido nas cabines de imprensa da Mostra de São Paulo

 

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Nova Ordem (2020)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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