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Documentário arrastado e cheio de imagens belíssimas, Noturno acompanha os efeitos do terrorismo e da guerra no Oriente Médio


Eu penso que uma das funções da crítica cinematográfica, além de falar sobre o filme e discutir o uso da linguagem, é ajustar as expectativas. Não sei se é academicamente correto, mas eu gosto de textos que fazem isso e tento fazer o mesmo. E eu estou dizendo isso nesse momento, porque penso que pode ser importante ajustar as expectativas sobre Noturno, um dos documentários mais comentados e aguardados dessa edição da Mostra.

Eu não tinha visto trailer ou qualquer outra coisa sobre o longa. Nem pesquisei o diretor no IMDB, pra vocês terem uma noção. Só li em diversos portais que o filme tinha sido elogiado em festivais e que estava cotado para ser o candidato italiano ao Oscar de Filme Estrangeiro. Logo, criei boas expectativas sobre o novo trabalho de Gianfranco Rosi (indicado ao Oscar anteriormente por Fogo no Mar).

Noturno começa com um texto-denúncia cheio de palavras-chaves que remetem a uma produção visceral. Afinal, estamos falando sobre um documentário gravado durante três anos em quatro países dominados, segundo as palavras do próprio longa, pela guerra, pelo terrorismo e pela violência.

Noturno

Só que o filme não é exatamente uma obra jornalística sobre a guerra em si. Está mais para um documentário observacional e bastante impessoal sobre as consequências da guerra. Em outras palavras: é o tipo de produção onde a câmera fica acompanhando tudo de longe, sem se misturar com as pessoas ou fazer parte da realidade de seus personagens.

Isso não é errado ou necessariamente ruim, mas é uma estética documental que pode gerar estranhamento. Principalmente, na minha opinião, por ter imagens que parecem forjadas. Como esse distanciamento permite que o diretor tente (com sucesso) fotografar os planos mais bonitos possíveis, várias cenas acabam parecendo organizadas demais. Não parecem condizer com a realidade daquela pessoa, sabe?

É uma dinâmica que lembra muito Honeyland, apesar deste trabalhar com uma proximidade e uma sensibilidade muito maior. E por isso não sofre tanto com o choque. Só corre o risco de ser classificado como ficção por algum desavisado.

Lógico que Noturno e Honeyland não são os primeiros documentários a fazer essas escolhas estéticas, mas eu creio que isso não muda o efeito de estranhamento. Porque, sendo um formato antigo ou não, ele percorre direções opostas dos documentários investigativos ou jornalísticos que surgem com mais frequência na mídia. Obras onde os personagens interagem com a câmera e constroem uma narrativa mais clássica, mesmo quando não existe um narrador onipresente.

Noturno promove uma imersão diferente na realidade. Uma viagem sensorial que vai fazer você ficar pensando qual é a mensagem daquele conjunto de imagens forçadas que pula entre histórias extremamente curtas sem muita amarração.

Noturno

Com essas expectativas ajustadas, agora podemos discutir com mais profundidade sobre a tal experiência sensorial proposta por Rosi. Um conjunto de escolhas que joga, com muita beleza e sensibilidade, o espectador num mundo marcado por dor e medo.

E eu gosto de como ele casa bem as consequências da guerra e a humanidade de quem vive ali. No entanto, por outro lado, não gosto nada desse afastamento.

A impessoalidade posicionada dentro de um longa que busca falar sobre elementos humanos faz com que Noturno nunca alcance seu potencial completo. Tudo porque é mais difícil falar sobre o interior das pessoas quando você está, na maioria do tempo, apenas contemplando o dia-a-dia delas.

É verdade que o mesmo afastamento permite mostrar diversos lados da realidade, indo de pessoas comuns até o exército em passagem tão curtas quanto esquetes. Sequências que ele monta sem ligar para geografia ou linearidade temporal, abrindo assim espaço para uma certa pluralidade de vivências, ideias e opiniões.

Mas, ao mesmo tempo, é normal sentir falta dessa conexão entre pessoas e espectadores. Concordo que algumas histórias precisam de muito pouco pra gerar reflexão, porém deixam no ar a mesma dúvida que tive assistindo Pai: será que estou impactado pelo peso da história real ou pela forma como o filme está movimentando suas ideias?

Ora Noturno apela para diálogos mais diretos que soam genéricos, porque emocionariam o espectador em qualquer formato. Mas, ora a fotografia vazia e silenciosa captura a solidão e a indiferença das ruas com uma força muito convincente. Seria até injusto não admitir que uma criança limpando sua arma de fogo de madrugada diz mais do que certas palavras.

Noturno

É por isso que eu discordo fortemente de várias pessoas que criticaram o filme usando o argumento de que ele não tem nada para dizer. Quem escreve uma coisa dessa não consegue enxergar além das palavras, e fica esperando uma narração explicar ou juntar todas peças. Algo que não vai ser encontrado numa produção mais sensorial.

Entretanto, mesmo discordando de tais acusações e gostando de alguns elementos de sua mensagem sobre humanidade, sou obrigado a reconhecer que Noturno é chato. É um teste de paciência muito arrastado que raramente se conecta de verdade com o espectador. É uma obra refém dessa impessoalidade que amplia as opções, mas abandona a empatia no caminho. E sem isso fica muito difícil se emocionar ou se importar com qualquer história, por mais impactante que ela seja na realidade.


Noturno foi conferido na Mostra de São Paulo 2020


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Noturno (2020)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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