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Focado nos dilemas gerados pela pena de morte, Não Há Mal Algum reúne histórias que colocam em cheque o autoritarismo do governo iraniano


Três motivos estavam alimentando minha curiosidade por Não Há Mal Algum:

1) eu adoro o cinema iraniano, principalmente os dramas sociais;

2) o diretor, Mohammad Rasoulof, teve a prisão decretada por conta do longa;

3) a história é super interessante.

Para quem não sabe, esse longa, que ganhou dois grandes prêmios no Festival de Berlim, faz um retrato da pena de morte no Irã. Mas não o faz através de criminosos, advogados, tribunais ou qualquer outro ponto de vista que já tenha sido amplamente explorado por Hollywood e adjacências. Aqui o ponto de vista principal é o dos executores de tal pena.

Para isso, Rasoulof constrói quatro tramas independentes e autossuficientes (tipo um Relatos Selvagens, sabe?) que se cruzam tematicamente em discussões meio filosóficas sobre a pena de morte, a liberdade de expressão, o autoritarismo e outros aspectos culturais do país.

Não Há Mal Algum

Pode parecer estranho imaginar os executores como protagonistas de Não Há Mal Algum, porque uma boa parte do mundo ocidental os enxerga como fortões mascarados e vestidos de preto que andam pelas ruas com machados na mão. Uma imagem típica da Idade Média que não se aproxima em nada do mundo moderno, já que, atualmente, tais executores costumam ser funcionários públicos ou membros baixo escalão do exército.

Em outras palavras: pessoas normais que, assim como boa parte dos soldados que voltam da guerra traumatizados pelo uso de sua arma, precisam enfrentar as consequências psicológicas dos seus atos.

A partir dessa escolha de ponto de vista, Não Há Mal Algum faz um ótimo trabalho de humanização. Ele desconstrói esse perfil simbólico de antagonista que os executores carregam consigo (mesmo sem querer) através de personagens verdadeiramente humanos. Pessoas normais que sentem medo, que pegam as filhas na escola, que passam dificuldades financeiras e que, acima de tudo, conquistam a empatia do espectador.

É possível compreender, aceitar e sentir todas as sensações que mexem com o interior dos protagonistas, sejam elas uma dose inocente de esperança, o conformismo ou o peso na consciência. E desenvolver essa conexão com o público é o primeiro passo para construir um bom dilema ético. Afinal de contas, todos esses exercícios dependem do espectador se colocar no lugar do responsável pela escolha e assim ficar tão dividido quanto ele.

Não Há Mal Algum

Se pensarmos nas histórias como versões daqueles debates propostos nas aulas de filosofia, algumas são melhores do que os outras. Porém, como unidade, a direção de Rasoulof está muito mais interessada nos sentimentos que preenchem tais decisões. Ou seja, as justificativas e as escolhas apresentadas na tela importam menos do que aquilo que os personagens estão sentindo antes ou depois da ação.

Não importa se o final é esperançoso ou desesperador, porque aquela decisão já marcou o personagem e vai persegui-lo pra sempre. Essa é a moral da história.

Se algumas dessas leis são forçadas, porque não pode dizer não. Seu poder é dizer não.”

O único problema é que os personagens nem sempre tem poder nessa tomada de decisão. Eles são posicionados diante de bifurcações onde precisam escolher entre matar ou não, mas precisam ter muita coragem pra escolher um lado diferente daquele proposto pelo governo.

Um pequeno detalhe que muda completamente a estrutura de Não Há Mal Algum. Um pequeno detalhe que transformam as teses filosóficas em contos políticos que derivam, de alguma maneira, do autoritarismo.

Não Há Mal Algum

E acreditem quando em digo que, independente da sua condição, tal autoritarismo político preenche a tela de forma sufocante. Um clima de desespero e incapacidade que, ao lado da humanização, mantém o espectador na ponta do sofá, roendo as unhas com a certeza de que algum coisa ruim vai acontecer. Tudo culpa de uma direção que manipula tanto a tensão, quanto as emoções com inteligência e precisão.

Se dissermos não, eles destroem nossa vida”

A frase acima meio que resume como o peso da imposição domina esses personagens que vivem sufocados, sem ter o pleno domínio de sua própria vida. Um medo – constante e ininterrupto – que acaba sendo extravasado tanto nas palavras, quanto nas imagem fotografadas por Ashkan Ashkani.

Essa combinação (que nem todo filme consegue alcançar) é decisiva, porque transforma Não Há Mal Algum em uma obra extremamente impactante. É como se as palavras preparassem o ringue para Rasoulof nocautear o espectador com uma verdade que nem todos gostam de escutar. Incluindo, é claro, o governo do Irã.

Não Há Mal Algum

E talvez por isso seja tão interessante pensar nas mensagens propostas por esse estudo sobre as consequências dolorosas e invisíveis da opressão. Desse medo que se espalhas por casas, famílias e relacionamentos como uma erva daninha incontrolável.

Mas faça isso preparado, porque Não Há Mal Algum é uma daquelas produções que tendem a deixar o espectador na fossa, refletindo, devastado, ora sobre as almas destruídas pelo autoritarismo, ora sobre suas próprias atitudes. Afinal, se estivesse no lugar deles, você teria coragem de dizer não?


Não Há Mal Algum foi conferido na Mostra de São Paulo 2020


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Não Há Mal Algum (2020)

9.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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