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Nova minissérie germano-americana da Netflix, “Nada Ortodoxa” mostra uma mulher em busca de sua liberdade, num mundo dominado por homens


A maioria das religiões sempre rebaixam a figura feminina. Sejam as crenças hindus, muçulmanas, cristãs, e com “Nada Ortodoxa” descobrimos que a judaica também faz isso. Aquilo que é cultural, com o tempo passa a se tornar normal, tanto para homens quanto para as mulheres. Ninguém que está naquela situação se questiona sobre o porquê daqueles ensinamentos durarem séculos e mais séculos.

Os tempos mudam, mas infelizmente o mundo continua dominado pelo patriarcado. A nova minissérie germano-americana da Netflix fala sobre isso ao contar a história de Esther (ou Esty), uma jovem judia de 19 anos que vive numa comunidade ultra-ortodoxa hassídica em Williamsburg, Brooklyn. Esther foge de Nova York após seu casamento arranjado não dar certo, e vai em busca de sua mãe em Berlim, para começar uma nova vida.

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Esther está em busca de sua própria liberdade, de sua identidade e de explorar melhor sua sexualidade, algo tão pouco discutido e até invasivo na maioria das religiões. Ela, assim como várias mulheres da comunidade, tinham apenas uma função: a de cuidar do marido e ter filhos. Enquanto que aos homens cabe as artes, o estudo e a voz dentro de casa.

Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. “Nada Ortodoxa” é baseada na autobiografia da escritora americano-alemã Deborah Feldman, “Unothodox: The Scandalous Rejection of My Hasidic Roots”, lançada em 2012. Criada por Anna Winger, escrita pelos novatos Daniel Hendler e Alexa Karolinski, além de ter os 4 episódios dirigidos por Maria Schrader, a minissérie tem uma equipe majoritariamente feminina e judia, a ponto de trazer mais veracidade.

Esty está quebrada, e o mundo parece fechar as portas. A jovem ainda não entende muito bem este novo mundo. Mas não pense que ela é ingênua. Esty sabe ler as pessoas, ao mesmo tempo em que confia demais nelas. Sua vida em Berlim é um contraste perfeito aos ótimos flashbacks de sua vida de submissão na comunidade. Não era o inferno, mas também não era um mar de rosas. Estava mais para uma espécie de humilhação passiva.

Enquanto os homens precisam se sentir “leões” e verdadeiros predadores, cabe as mulheres agrada-los para fazer a vontade de Deus. Esty só deseja sua liberdade, algo tão banal e evidenciado em diversos planos da série, desde um simples e simbólico mergulho no lago, até a permissão de beijar quem sentir vontade.

Grande parte desse peso na vida de Esther é trazido pela excelente atriz Shira Haas, também judia e descendente de sobreviventes do holocausto. Falando a língua ídiche (como “Nada Ortodoxa” é falada em sua maior parte), Shira se entrega, seja no olhar, nos trejeitos, e na dor presente em cada uma de suas atitudes. Há dúvida e medo, mas também há coragem e uma certa malícia, o que é perfeitamente compreensível para alguém que viveu sem escolhas.

É uma história do passado na atualidade, por isso a direção de arte e a fotografia tem a missão de diferenciar a vida na comunidade – que parece do século passado, desde roupas, adereços, construções (a cena do casamento é uma aula de apresentação a uma nova cultura) – da vida em Berlim, onde tudo é mais colorido, brilhante, e de certa forma mostra que Esther tem um mundo novo pela frente.


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Produzida por 2 anos, “Nada Ortodoxa” mostra que a religião é uma prisão, principalmente para a mulheres. Num mundo dominado por homens em praticamente todas as áreas, cabe a elas serem esse baluarte de resistência e irem contra os preceitos religiosos, mesmo que isso as leve a solidão repentina.

O Talmud, o Torah, e até a Bíblia Sagrada, foram livros escritos por homens, que afirmaram estar a mando de Deus. Se uma mulher os tivesse escrito, será que seguiriam tudo tão cegamente?

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Nada Ortodoxa

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Tiago Cinéfilo
Estudante de Comunicação e editor deste site. Criador, podcaster e editor do "Eu Não Acredito em Nada", o podcast de terror da Odisseia.

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