AODISSEIA
Músicas

“Sua Alegria foi Cancelada” é a Fresno envelhecendo bem

O primeiro álbum de inéditas após 3 anos!


8 de julho de 2019 - 16:26 - Tiago Soares

Em entrevista a revista “Quem”, Lucas Silveira (vocalista da Fresno), afirma que o novo disco da banda está carregado de tristeza, muito pela falta de esperança presente num mundo cada vez mais intolerante e repleto de discursos de ódio. Ao ouvir “Sua alegria foi cancelada”, percebe-se que ela não é gratuita. Três anos após o último álbum de inéditas: “A Sinfonia de Tudo Que Há” lançado em 2016, a banda gaúcha retorna com ares de melancolia, unida a maturidade que vinha trazendo nos últimos trabalhos.

O grupo formado por Lucas Silveira, Thiago Guerra, Gustavo Mantovani e Mario Camelo chega com primeiro lançamento da gravadora BMG Brasil, e se aproxima muito da pegada dos álbuns iniciais “O Rio, A Cidade, A Árvore (2004)” e “Ciano (2006)”, mas com o peso das cargas adquiridas durante todo esse tempo. Cercado de uma pegada lo-fi, misturando ritmos sem abandonar o emocore, a principal característica (as letras potentes de Lucas) continua presente. É como se cada música fizesse parte do seu próprio universo. Elas funcionam como um disco, mas também de forma isolada.

“O Arrocha Mais Triste do Mundo” (sim é um arrocha), abre os trabalhos com um estilo próprio. Bastante íntima, a faixa transita entre o sentimento de incapacidade e desabafo. A melancolia dá lugar as guitarras pesadas e crescentes de “Well Fight Together” (uma das favoritas deste que vos escreve). Feita especialmente para formar os “bate-cabeça”, com toda certeza vai integrar o repertório da banda nos shows. A letra dita o tom de uma característica presente em quase todas as faixas: a junção entre tristeza social e amorosa, que por vezes se entrelaçam e se tornam uma só.

Munido também de uma pegada política, “Isso Não É Um Teste” se junta as já divulgadas “Natureza Caos” (que virou até uma mini-turnê) e “Convicção” (dona de um belíssimo clipe). Cercadas de revolta, a trinca poderia muito bem ser tocada em conjunto nos shows. As músicas são separadas pela faixa título, sem dúvida a mais triste do álbum, “Sua Alegria Foi Cancelada” traz o primeiro feat, a participação de Jade Baraldo. Com uma ambientação absurda, sua voz enriquece uma letra que tenta confortar o mais cansado coração. O duo com Lucas nos imerge em experimentações, numa das melhores músicas recentes da banda.

fresno sua alegria foi cancelada

“De Verdade” vai pelo lado seguro do emocore, sem novidades (uma das que menos gostei inclusive), ao repetir “Eu cansei de tentar ser perfeito”, as estrofes são praticamente uma carta autoral de seu vocalista. Em “Cada Acidente” a simples letra que afirma: “No reino da tristeza eu cansei de ser rei”, se une a guitarras swingadas cheias de identidade, trazidas pelo segundo feat do disco, o afro-folk Tuyo. A presença do trio acaba por criar um hit pop praticamente instantâneo, e por vezes a letra é esquecida por conta da envolvente e empolgante batida.

As duas últimas faixas podem ser traduzidas como a dupla da “bad”. “Quando Eu Cai” por vezes se questiona o real significado do sentimento. O que move você a fazer o que faz? O que move a banda e o que te move para ouvi-la? Carregada, particular e ao mesmo tempo de todo mundo, a faixa traz os vocais agudos de Lucas e um coro que faz uma ligação direta com os fãs. É uma música da banda, sobre a banda, feita pela banda, mas que não é somente para a banda. “Eu Não Sei Lidar” é uma frase conhecida dos fãs da Fresno e encerra o disco perfeitamente ao sintetizar as dificuldades da vida adulta. Flertando com o hip hop, a música é uma aula, um aprendizado sobre como a banda evoluiu com o tempo e se tornou o melhor de si mesmo. A maioria dos fãs cresceu e amadureceu junto com a banda, fazendo com que tenha nascido uma enorme gratidão, cumplicidade e afeto.

Mesmo assim, a Fresno continua inovando em sua trajetória e aqui em “Sua Alegria foi Cancelada”, traz uma narrativa visual, comandada pela diretora de fotografia Camila Cornelsen. A capa com o rosto da youtuber Maju Trindade é belíssima, que ainda conta com participações da cantora transexual Samira Close e os irmãos Keops Raony nos liryc videos. Dançante, irreverente e também triste, o Oitavo (como foi chamado antes do lançamento), traz uma nova fase da banda, uma evolução e celebração do emo.


Obs: O disco está presente em todas as plataformas digitais.