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Versão mais “séria” do desenho original, Mulan é o típico exemplar de live action da Disney (pro bem ou pro mal)


Mesmo correndo o sério risco de soar repetitivo, eu sempre falei que as adaptações live action da Disney dependem quase que exclusivamente do que o público espera: uma cópia da animação ou algo novo que mexa com todas as bases anteriores. E existem pessoas que defendem ambos os lados com bons argumentos.

Particularmente, eu penso que existe um ponto ideal onde o passado é reverenciado e o futuro abraçado com a revisão/adição de certos elementos que conversam com uma nova audiência. Afinal de contas, se a proposta da Disney é apresentar suas histórias clássicas para uma nova geração, o filme precisa entregar algo novo, seja na composição visual ou na história.

Entretanto, por mais que todos os longas busquem um meio-termo ideal nessa discussão, a recepção final sempre vai obedecer a expectativa desse público que pode querer mais ou menos novidades. E talvez Mulan seja o filme mais dependente do que esperam esses espectadores que se equilibram numa corda bamba entre o saudosismo e a ruptura com o passado.

Mulan

Digo isso, porque o longa muda muito sem mudar nada efetivamente. Tem a mesma base, os mesmos pontos de virada e as mesmas lições, mas promove uma mudança de estilos para se aproximar dos grandes épicos asiáticos. Logo, pra funcionar em seu máximo, a produção precisa que a audiência não possua uma ligação tão grande com o material original, ou esteja disposta a abraçar uma versão mais grandiosa da história que marcou suas infâncias.

Eu consigo ver, principalmente nesse momento polarizado que estamos vivendo, muita gente criticar o resultado apenas por conta da ausência das músicas ou de certos coadjuvantes. Não ligando se as mudanças foram justificadas pelo conceito de um filme que, mesmo com problemas, passa longe de ser ruim.

A história, como eu disse, não muda praticamente em suas raízes. Ou seja, acompanhamos Mulan, uma menina obstinada e poderosa que decide substituir o pai idoso no exército após uma convocação obrigatória. Esse é o início de um jornada empoderada de autodescoberta que fala sobre verdade, honra, conservadorismo e dedicação à família.

Mulan

A diferença fica por conta justamente do tom do filme. Enquanto a animação se aproveita do fator desenho pra fazer uma abordagem mais lírica da mitologia chinesa, a versão live action escolhe um caminho mais sério.

Não vou dizer que é uma versão realista, porque seria injusto fazer isso com um longa preenchido por cores marcantes, pássaros mitológicos e “superpoderes” ligados ao chi. Ele flerta com um escopo um pouco mais próximo da realidade pra dar vida a essa produção mais séria, porém nunca abandona a fantasia.

Fica claro que Mulan nasceu com o objetivo de honrar os já citados épicos chineses. Tanto que o filme referencia em diversos momentos os trabalhos de diretores como Ang Lee (O Tigre e o Dragão) e Zhang Yimou (Herói, O Clã das Adagas Voadoras, A Maldição da Flor Dourada e A Grande Muralha).

Eu curto essa abordagem e, talvez por isso, não tenha sentido falta de boa parte dos elementos mais leves da animação (incluindo as ótimas músicas). Minha experiência foi preenchida por treinamentos imponentes, sequências de batalha bem conduzida e cenas de ação que sabem brincar com as artes marciais.

Mulan

Características típicas dos épicos que são bem transportadas para a tela através de um esforço conjunto entre o elenco e a diretora. O elenco – completamente asiático, por sinal – convence na ação cheia de acrobacias voadoras, enquanto Niki Caro (O Zoológico de Varsóvia) usa cenários grandiosos e câmeras que mudam de eixo pra criar um filme de guerra visualmente competente.

Surpreendentemente, também não me incomodei com a ausência do Mushu (meu personagem favorito do desenho). No entanto, não posso dizer o mesmo sobre o que o dragão falastrão representava na narrativa, porque o alívio cômico talvez seja a única peça que faz falta no todo. Não estou dizendo que todo blockbuster precisa ter uma tonelada de comédia, mas é inegável que o bom humor é uma peça fundamental na conexão com os personagens.

Ele pode ser substituído por outras emoções, mas não é exatamente o que acontece aqui. O clímax, por exemplo, se segura sem nenhum problema, porque a figura da protagonista tem peso suficiente pra carregar as grandes lições do final. Juntando o bom trabalho de Yifei Liu (O Reino Proibido) com toda a importância histórica da personagem, fica muito fácil comprar o empoderamento e vibrar com as vitórias de Mulan.

Mulan

Já o segundo ato, por sua vez, não consegue demonstrar a mesma força. Tem batalhas incríveis, porém tem menos carisma. Menos coração.

O problema é que, ao contrário da animação, os coadjuvantes não recebem a oportunidade de ajudar na construção dos sentimentos que compõem Mulan como filme. Os companheiros de guerra não possuem nenhuma camada, resultando em um romance que demora pra engatar, um líder que não convence e um senso de perigo que chega perto de ser inexistente.

Eu sei que é muito ruim comparar filmes com propostas tão diferentes, mas isso é inevitável nesses casos de refilmagem live action. Quem já assistiu o  material original vai sentir falta de como um coadjuvantes mais cômicos ajudavam a dar vida ao longa e, automaticamente, também vai se incomodar com os momentos bem pontuais em que o humor físico surge sem nenhuma preparação ou função narrativa.

Até filmes como O Tigre e o Dragão flertam com um olhar sarcástico ou aquela provocação entre oponentes durante a batalha, mas Mulan decide se afastar completamente disso. Talvez o objetivo seja deixar a ruptura de tons mais evidente e eu entendo, mas compreender a função não me obriga a gostar.

Mulan

Em outras palavras: eu entendo que o Mushu não se encaixaria nessa proposta, porém discordo que o longa precisa abandonar todos os tipos de comédia pra comprovar sua seriedade. De certa forma, acho até um pouquinho problemática a sugestão de um filme tentar sugerir só pode ser uma coisa ou outra.

No entanto, estou falando de um “problema” que não estraga o filme, se você embarcar no conceito de épico chinês proposto desde os primeiros minutos. Existem outras coisas que incomodam mais entre a computação gráfica questionável e os vilões fracos (não gosto nem da bruxa com sua redenção forçada, nem do guerreiro genérico unidimensional). Esses podem ser encarados como aspectos que prejudicariam o filme, independentemente da proposta.

O restante não passa de escolhas que dependem da abertura de quem está do outro lado da tela. Pessoas que podem (ou não) aceitar as ideias sugeridas por essa embalagem mais sóbria e contida.

Eu penso, sinceramente, que o filme merece pelo menos a oportunidade. Possui alguns erros, mas é um longa efetivo que brinca com a nostalgia e com os clichês chineses de forma competente. Ainda gosto mais da animação, porém entendo que essa nova Mulan possa sim impactar quem teve menos contato com a versão antiga.


OBS 1: Inclusive, eu assisti Mulan (à distância) com alguém que nunca tinha visto a animação e a resposta dela foi positiva.


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Mulan (2020)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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