AODISSEIA
Especial

Mostra de São Paulo 2019: Construindo um Farol

O diretor Robert Eggers, o produtor Rodrigo Teixeira e o ator Willem Dafoe estiveram na Mostra.


5 de novembro de 2019 - 16:49 - Tiago Soares

Um dia antes do fim da Mostra de São Paulo 2019, na terça-feira (29), conferimos em primeira mão “O Farol”, novo filme do diretor Robert Eggers, responsável por “A Bruxa”, que esteve presente numa coletiva de imprensa que aconteceu logo depois. Junto com ele, estavam o produtor da RT Features, Rodrigo Teixeira, e o ator Willem Dafoe.

Robert Pattinson não pôde comparecer, por estar gravando o novo filme de Cristopher Nolan. Mesmo assim foi bastante elogiado nas perguntas que se sucederam. E você pode conferir algumas delas aqui:

 

Qual foi o método de atuação utilizado por Willem e como foi dirigir essa loucura?

Willem afirma que foi fácil pois já existia um mundo preciso em “O Farol”, assim como ele tinha visto em “A Bruxa”. Quando foi convidado para atuar no filme, o mundo já estava completo e ele foi inserido ali. Já Eggers diz que foi uma vantagem pois dirigiu dois atores muito loucos, usando um roteiro que já estava pronto antes da escolha da dupla de protagonistas. Foi importante estar presente em cada detalhe e trabalhar com os designers para construir a atmosfera estabelecida.

 

Como foi fazer a parte técnica? Soube que utilizaram uma câmera especial. Construíram um farol do zero?

Eggers diz que o filme era caro e, aos risos, agradece a Rodrigo. Afirma que procuraram um farol que já existisse, mas não acharam um que gostassem. Acabaram encontrando uma pedra desconfortável no Oceano Atlântico e construindo o farol. Foi difícil, mas prazeroso. Para capturar o mundo sombrio do filme, o preto e branco era a única escolha. Pattinson disse a Eggers que o interior do lugar parecia romântico, como o comercial da Ralph Lauren.

Eggers queria que parecesse um filme antigo e, para conseguir a micro-pigmentação que precisava, o filme teria que ser em preto e branco. Jarin Blaschke, o diretor de fotografia ajudou a criar este mundo e dar um aspecto escuro na pele rosada dos atores. Eggers diz que eles usaram lentes da década de 30 e algumas de 1905 que dão um aspecto sensível. Também foi melhor para filmar o interior do alojamento e aos risos diz que captou os rostos mais bonitos da história do cinema.

Dafoe diz que muito pouco foi cortado, já que todas as tomadas foram pré-definidas. Com bom-humor, Eggers cutuca o amigo e diretor Ari Aster, dizendo que versão estendida é coisa dele.

 

A RT Features vem fazendo coisas diferentes, como você seleciona as histórias?

Rodrigo afirma que conheceu Eggers num pitch de “A Bruxa”. Ambos ficaram em torno de uma hora almoçando e ele disse que nunca tinha visto tamanha precisão. Aceitou o projeto em uma festa e soube que outro diretor faria um filme de farol (“Luz Entre Oceanos” de Derek Cianfrance). Quando Rodrigo viu o filme, disse que agora sim eles poderiam fazer, só que Eggers bateu o martelo com a condição que o filme teria que ser em preto e branco. Antes disso, ele diz que o diretor estava em outro projeto (‘Nosferatu’) que acabou não seguindo em frente. COm tudo certo, se uniram aos atores e, após 4 meses, o filme estava pronto.

 

A primeira escolha no papel de Thomas era Daniel Day Lewis. Por que optou por Dafoe depois? Qual a cena que mais cobrou Dafoe fisicamente?

Eggers diz que, quando o filme se tornou realidade, não haviam dúvidas de que Dafoe era o escolhido. É um dos melhores atores que já existiu e pode incorporar qualquer tipo de personagem. As falas de Dafoe no filme são iguais as de um pirata, ninguém além dele conseguiria tornar isso real. “Sorte a minha”.

Dafoe agradece Eggers e diz que o momento mais difícil foi em uma cena (SPOILER): em que foi enterrado). Porque foi sugestivo, e tem uma fala poética sendo entoada na cena, é uma experiência que todo mundo deveria ter. Foi me dado um presente e se tem o prazer de ser transformado.

 

Willem Dafoe concorre ao Gotham Awards por sua atuação no filme, como será a temporada de premiações?

Rodrigo apenas afirma que o trabalho do Eggers, Pattinson e Dafoe é excelente e importante para a A24, que fará campanha para várias categorias na torcida para dar certo.

 

Os elementos fantasiosos do filme já estavam na sua cabeça ou surgiram no decorrer da produção?

Eggers afirma que começa quando está escrevendo. Ele e o irmão (Max Eggers) queriam contar uma história de duas pessoas num farol. Ambos uniram elementos folclóricos e mitológicos europeus e ocidentais, lendas da Nova Inglaterra, etc.

 

Em A Bruxa, vemos o despertar sexual de uma mulher. Aqui em O Farol, existe uma questão masculina de desejo entre dois homens, isso foi proposital? E porquê escolher o terror para contar essa história?

Eggers é sincero e diz que escolhe o terror para conseguir financiar seus filmes. Garante que muitas pessoas já afirmaram que este filme é um complemento fálico para “A Bruxa”. O terceiro filme folclórico tem que ser neutro em termos de gênero. Havia uma época de repressão sexual forte na época em que ambos os filmes se passam e é claro que algumas coisas são mais do que sugeridas.

 

A história é parecida com “O Iluminado”, você já viu o filme?

Meio irônico, Eggers diz que é claro que já viu, um milhão de vezes. Diz que mesmo que você não esteja fazendo um terror, “O Iluminado” deve estar na cartilha cinematográfica dos cineastas, pois é uma obra obrigatória para criar tensão. SPOILER: Não é necessário fazer uma cena com um machado para criar tensão.

 

Umas das primeiras cenas são os personagens olhando para a câmera, o que você quis dizer com isso? O que Rodrigo acha da declaração de Eggers sobre o financiamento dos seus filmes?

Eggers lembra que gosta muito de fotografias e por isso usou esse olhar direto para a câmera, a fim de gerar empatia com o público. Rodrigo diz que o primeiro filme foi mais difícil, entretanto Eggers não precisa mais de ajuda para financiar seus filmes. Complementa dizendo que sempre gostou do filme, da oportunidade de trabalhar com Dafoe. Afirma que Eggers é muito original e é daqueles cineastas que brigam até as coisas saírem do jeito que ele quer. Eggers completa dizendo que a mãe natureza ajudou muito e que foi uma prazer fazer o que queria.

 

O que você acha do uso excessivo de jumpscares? Dafoe utilizou algum método para decorar os grandes monólogos?

Eggers afirma que não tem nada contra o recurso, e que “A Bruxa” até tem alguns. “Se meu filho arremessa uma panela do cômodo e eu pular no outro, isso não é terror. O terror está mais atrelado as sombras que existem dentro do ser humano. Há técnicas para fazer um bom jumpscare, mas “O Farol” não é sobre dar medo. Talvez se eu tivesse mais dinheiro, teria unido as duas coisas, já que o recurso pode contribuir para fazer a história avançar.”

Dafoe trabalhou com James Wan e Eggers diz que ele é bom nisso. “Mesmo que não seja importante, eu sempre pulo”, complementa. Dafoe diz que, como vem do teatro, tem facilidade para decorar os grandes textos. Inclusive, fez uma peça no Brasil. Mas, para esse trabalho específico, ele revela que usou de imagens, músicas e outros elementos parar não ficar atrelado apenas ao rigoroso texto.

 

O que é terror para vocês?

Eggers diz que não se importa com a classificação de seus filmes. “A Bruxa é um terror, e O Farol não sei definir muito bem. No meu mundo perfeito as pessoas falariam: Este é um filme Robert Eggers, mas sei que precisam catalogar as coisas para conversar sobre elas e vendê-las. O que me incomoda é quando as pessoas que me seguem, se irritam por eu não catalogar meus filmes do jeito que elas querem”, completa o diretor.

Rodrigo diz que nunca foi muito chegado ao horror. Afirma que a loucura o assusta e dá muito mais medo porque é real. “O horror do presidente do Brasil, por exemplo”, conclui.

Já Dafoe diz que cresceu vendo filmes de terror, Frankstein, os filmes de Vincent Price…os quais Eggers diz que são bons filmes.

 

Para concluir, o trio é perguntando se Rodrigo apresentou o Zé do Caixão, figura icônica do terror nacional,a Eggers e de onde tiraram as maldições proferidas no filme.

Rodrigo diz que não apresentou, mas que a pergunta foi pertinente. As maldições saíram da cabeça do Eggers, ele veio do teatro e isso ajudou o ambiente familiar, no escritório pessoal dele há muitos elementos. Eggers completa que a cena do machado além de lembrar “O Iluminado”, tem várias referências a “Kiss Me Deadly”, filme noir de 1955 de Robert Aldrich.


“O Farol” chega aos cinemas brasileiros no dia 02 de janeiro de 2020!