AODISSEIA
Especial

Mostra de São Paulo 2019: A Vida Invisível e o vibrante cinema nacional

Confira os melhores momentos dessa coletiva cheia de amor ao nosso cinema.


23 de outubro de 2019 - 21:14 - Tiago Soares

Logo após a cabine de “A Vida Invisível” (e o coro de “fungados” que persistia entre os jornalistas), fomos a coletiva de imprensa totalmente sem chão. O filme foi como uma porrada no estômago, e você pode conferir mais detalhes na nossa crítica. O fato é que o produtor Rodrigo Teixeira, o diretor Karim Aïnouz, as atrizes Carol Duarte, Julia Stockler e Maria Manoella, o ator Gregório Duvivier e a deusa Fernanda Montenegro compareceram com muito bom humor e recheados de frases impactantes sobre a produção escolhida para representar o Brasil no Oscar 2020.

Conforme anunciou Rodrigo, representante da RT Features, o Vencedor da Mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes deste ano vai estrear no Brasil no dia 21 de novembro de 2019. Antes estreando no dia 31 de outubro, o produtor explica que optou por adiar a data a fim de facilitar a campanha para o Oscar. A Vida Invisível será exibido para os votantes da Academia no mês que vem, e foi comprado pela Amazon nos EUA, distribuidora que segundo Rodrigo, fará uma campanha massiva para a premiação.

 

Como foi a pesquisa para o filme?

Karim Aïnouz abre sua participação dizendo que A Vida Invisível é sobre como as mulheres conquistaram tantas coisas e tão pouco os homens mudaram. Exaltou o trabalho do diretor de arte, o uruguaio Rodrigo Martirena, que ornou cores fortes com o clima do Rio de Janeiro. Segundo Karim, estamos diante de um filme do passado que ecoa no presente, e tivemos que tomar cuidado para não deixar a obra presa na época.

 

Qual o orçamento?

Rodrigo diz que o filme custou 6 milhões e 900 mil reais. O produtor revela que não teve muito patrocínio e que adiantou dinheiro do próprio bolso. Parte dele foi reembolsado pelo financiamento do governo com recursos público. Menciona que teve ao seu lado bons parceiros como a Sony e o Canal Brasil.

 

O que significou fazer o (a) personagem?

Carol começa respondendo e diz que foi uma honra interpretar uma mulher silenciosa e que se dedicou bastante para aprender piano. Construiu sua Eurídice com muita dedicação e diz que o grande amor de sua vida, era Guida. Já Júlia diz foi extremamente prazeroso construir a personagem junto de Carol. Manoella que faz Zélia, a confidente amiga de Eurídice e produtora de elenco, contou que foi incrível trazer pessoas do teatro, que não são tão conhecidas pela mídia, para trabalhar em A Vida Invisível.

Já Gregório afirma que recebeu o melhor elogio de Fernanda quando a mesma disse que ele estava com o visual de um tijucano nato. Os dois interagiram com muito bom humor e ele diz que foi uma honra casar com Fernanda Montenegro, nem que seja em outra encarnação. Gregório usou as roupas do avô para compor os personagem. Disse que passou por um processo de imersão, já que não usavam celulares, e, aos risos, disse que até aprendeu a costurar.

Fernanda toma a coletiva para si e acha especial que não haja didatismo no sentimento. A intensidade e a interação do elenco no set, tornam o filme “vaginal” segundo ela. Não é algo fácil de ver no cinema brasileiro, e diz que Karim não tem um método definitivo, sempre mudando o que deseja. Na mesa de montagem, mais coisas mudam e por aí vai. Termina sua fala dizendo que o filme não é contra o macho, e sim o machão. “O macho é necessário, mas o machão é um horror!”

 

O que é fazer cinema no Brasil?

Karim diz que é cada dia mais gratificante. O diretor faz isso há 25 anos, e se encontra otimista, se recusando a aceitar que existe uma crise. “O cinema brasileiro é exuberante, é vibrante”, afirma.

 

Como foi fazer as desconfortáveis cenas de sexo?

Carol diz que houve um trabalho de preparação para encontrar o tom das cenas e da relação com Antenor, personagem de Gregório. Uma visita as locações ajudaram, e o fato de Eurídice nunca ter visto um homem nu na vida, tinha que causar estranheza. Afirma que Karim é um diretor que monta e desmonta, “é uma loucura” diz ela. Trabalhar com uma equipe majoritariamente feminina também ajudou a deixar tudo mais confortável.

Gregório diz que os dois (os personagens) tinham uma relação pesada. Era denso, e tudo era feito para as cenas parecerem reais. “Debaixo do homem comum tem um animal selvagem” diz Gregório e que chorou em quando chegou em casa, devido a crueza das cenas.

Já Fernanda diz que não são os atores lá, mas sim os personagens. Este é o mistério da atuação, e por isso essa arte sobreviveu tanto tempo.

 

Qual a maior inspiração?

Fernanda diz que sua maior inspiração é estar viva e, na sua idade, ter fôlego físico e coordenação psíquica para exercer a função. “Eu ainda existo”, afirma ela, dizendo que o Brasil tem um cinema de primeira, mesmo com poucos recursos. Já Karim diz que foi criado nos anos 70 e via muitas novelas. Assistia “Selva de Pedra” e sempre quis fazer algo parecido. Contar uma história dentro do universo do folhetim. Fernanda complementa perguntando o porquê de separarmos o folhetim do épico.

Rodrigo diz que trabalha com Karim desde 2010 e ele sempre foi um bom contador de histórias. Karim sempre quis fazer um melodrama, e durante um tempo, os dois flertaram para fazer algo juntos. Mandaram o livro “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” para Rodrigo, que leu em uma sentada e disse que tinha um filme ali. Imediatamente pensou em Karim, que tinha perdido a mãe recentemente e topou logo em seguida.

 

A maternidade foi pouco romantizada durante o filme, como foi a preparação para gerar esse sentimento?

Carol revela que visitou uma senhora portuguesa durante o processo de pesquisa para o filme. Ela queria fazer 2 perguntas: se ela conhecia alguém que fez um aborto e como teria sido sua primeira noite. Ao lado do marido, a mulher não parecia tão confortável, ao mesmo tempo que Carol não achava brecha para fazer a pergunta. Carol teve que achar um lugar entre o apreço e o amor, para não parecer cruel não querer ter a criança.

Júlia diz que sua Guida foi em busca do amor romântico. Quando não o encontrou, construiu um novo ideal de família. Disse que para gravar a cena do parto no hospital, foram necessárias 6 horas de filmagem e afirma que Karim é um diretor vertical, que exige tudo o que o ator pode dar. Carol completa dizendo que o cineasta avisava que faria a cena 50 vezes, mas ela agradeceu a Deus por ele ter parado na 12ª.

Manoella diz que sua personagem Zélia projeta a relação maternal nos filhos de Eurídice, já que não pode ter os próprios. Carol diz que na época era algo orgânico, casar e ter filhos era uma espécie de obrigação.

 

Fernanda, o que te livrou de ser uma Eurídice?

“A vocação”, diz ela. “Eurídice se suicidou durante o processo da vida e o que seria a vocação se não uma busca pela liberdade? “Assim se sobrevive na arte, somos imortais nessa vida que atravessamos a séculos”, completa.

 

Como é estar aqui e ser vítima de machismo em pleno 2019?

Com muito bom humor e certo deboche e ironia, Fernanda diz que não é ela. Sem citar nomes, avisa que a pessoa que falou, devia fazer um tratamento. Isso já passou, e se vier algo mais, o problema é do indivíduo.


No fim, Gregorio recomenda o livro de Fernanda Montenegro: Prólogo, Ato, Epílogo – Memórias, e ela diz aos risos, que a Companhia das Letras agradece.

Rodrigo finaliza falando que o cinema brasileiro precisa de generosidade e faz um pedido a todos nós: divulgar o filme, esquentar o clima e causar comoção, já que, segundo ele, é “Copa do Mundo”. “Estar no Oscar 2020 seria um tapa na cara do governo”, conclui.