Mosquito | Um colonizador perdido no imperialismo alegórico

Mosquito

Mosquito confronta os horrores da guerra só para mostrar que um bom colonizador nunca perde a superioridade


Zacarias, um jovem português patriota e idealista, decide fugir das pressões de casa para encontrar sua libertação na Primeira Guerra Mundial, como se ela fosse um rito de passagem que o transformaria imediatamente em homem. Uma história bonita que serviria muito bem como propaganda de guerra, se parasse na ponta do iceberg e não mostrasse o restante da jornada que destrói o protagonista de dentro pra fora.

Baseado livremente na história do avô do diretor João Nuno Pinto, Mosquito segue exatamente essa história, se construindo como um épico de guerra português. E isso, por si só, já me interessa muito, porque é raro ver a tela ser preenchida por outro ponto de vista além do americano, do britânico ou do alemão.

No entanto, apesar dessa premissa que dialoga muito bem com os efeitos da batalha no ser humano, o espectador precisa saber que não estamos falando de um épico de guerra comum. João Nuno Pinto abusa dos planos abertos típicos desse subgênero (principalmente no começo do filme), mas vai abandonando isso enquanto sua direção revela estar mais interessada numa jornada silenciosa que mistura realidade e sonho.

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Ou seja, Mosquito não é um filme de guerra padrão, nem um filme de aventura na pegada de Lawrence da Arábia. O objetivo aqui é mais acompanhar a experiência introspectiva, solitária e muito pessoal de um garoto que quer se provar para si mesmo. Uma espécie de coming of age deturpado que abandona a linearidade em prol da confusão mental que acompanha Zacarias.

Essa escolha faz com que a narrativa se desenvolva sem pressa, priorizando mais o lado sensorial da jornada do que a construção de uma narrativa clássica. Mesmo assim, Mosquito possui um forte senso de evolução que é traduzido através dos elementos visuais. Principalmente na exuberante fotografia de Adolpho Veloso (Tungstênio).

É muito interessante ver como João Nuno e Veloso apoiam o desenvolvimento do seu filme nesse contraste de gêneros e estilos. Ele começa como um verdadeiro épico, recheado por paisagens incríveis e sequências iluminadas naturalmente de uma maneira que me lembrou Barry Lyndon, mas com o passar do tempo vai ficando mais insólito e quebradiço.

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É como se o longa se perdesse na savana de Moçambique junto com o protagonista, e precisasse mudar seu estilo para capturar os verdadeiros sentimentos de Zacarias. A câmera se aproxima de maneira cada vez mais intimista ao mesmo tempo em que amplia o desfoque do fundo pra dar vazão ao deslocamento da realidade que perseguia o protagonista.

Entretanto, por mais confortável que João Nuno se sinta em ambos os caminhos estéticos, a jornada acaba cansando em algum momento. Mas, pra minha própria surpresa, o problema não está no ritmo nada ágil, e sim na forma estranha como Mosquito se perde de verdade nas alegorias exteriorizadas pelas sensações conflitantes de Zacarias.

E, quando isso acontece, a única coisa que continua impactando é a maneira como o personagem (carregado com muita força pelo jovem João Nunes Monteiro) nunca deixa de ser um colonizador. Ele é completamente destruído pela experiência em Moçambique, mas nunca deixa de se sentir superior a quem ele enxerga como colônia. Tanto que se desespera quando perde o controle durante o ato sexual, e só sente algum conforto verdadeiro quando encontra um alemão que, mesmo sendo o inimigo, pelo menos é branco como ele.

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Acaba sendo surreal e poderoso notar que, apesar de perceber como o imperialismo pode ser apenas uma alegoria forçada, ele permanece em sua posição. E isso deixa Mosquito muito interessante, ainda que tais passagens preenchidas por reflexões fiquem perdidas num vazio poluído por metáforas demais.


MOsquito foi conferido nas cabines de imprensa da Mostra de São Paulo


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