AODISSEIA
Filmes

Morto Não Fala, mas com certeza assusta

Mais um belo exemplar pra lista de grandes filmes de terror nacionais.


22 de outubro de 2019 - 17:10 - Flávio Pizzol

Contando com um texto rico, Morto Não Fala supera seus escorregões e entra para lista de grandes produções nacionais do ano.


Há alguns meses, eu participei de uma edição do “Eu Não Acredito em Nada” sobre longas de terror brasileiros, aproveitando os sucessos mais do que merecidos de As Boas Maneiras, O Animal Cordial e outros exemplares tão interessantes quanto. No entanto, como esse episódio acabou sendo cancelado (infelizmente) por conta de problemas nos áudios, eu decidi começar esse texto defendendo uma reedição que me permita incluir, entre tantas obras do gênero, o ótimo Morto Não Fala (veja aqui o trailer) na lista das grandes produções nacionais.

Afinal de contas, estamos falando de um filme que mistura diversos subgêneros do terror da melhor maneira possível através da história de um funcionário do necrotério de São Paulo que consegue falar com os mortos. Um poder usado para o “bem” que se vira contra Stênio a partir do momento em que ele espalha um dos segredos transmitidos por esses cadáveres sem pensar nas consequências.

 

Esse pontapé simples é o começo de uma trama que – querendo ou não – consegue se sustentar por meio da criatividade dessa premissa. No entanto, apesar de algumas abordagens bem diferenciadas, o que realmente fortalece Morto Não Fala é a riqueza da construção narrativa oferecida pelo diretor Dennison Ramalho (Supermax).

É incrível acompanhar como o roteiro escrito ao lado de Cláudia Jouvin (Sob Pressão) passa por vários elementos do gênero, escolhendo com inteligência o que merece mais foco; cria aquela atmosfera social que tem sido tão recorrente através de alguns elementos bem brasileiros; e, principalmente, acerta em cheio na dinâmica entre drama psicológico e terror efetivo, construindo uma relação nublada entre o possível ataque de um espírito vingativo e as consequências de um combo composto por arrependimento e luto.

E eu faço questão de ressaltar esse lado da narrativa, porque o posicionamento de todas essas camadas é realmente decisivo pra narrativa. Essas são as peças que dão corpo para a trama e mexem com a cabeça do espectador ao mesmo tempo em que fazem o mesmo com o protagonista, colocando em cheque inclusive a possibilidade dos diálogos com os mortos serem mera imaginação.

O longa usa essa dúvida a seu favor e, ao contrário do que tem acontecido com inúmeras obras recentes, encontra maneiras de transitar entre os diversos “tipos” de terror sem deixar a peteca cair. Até mesmo no momento em que finalmente escancara seu lado gore nessa eterna busca pela violência e pelo medo mais clássico, a produção não só mantém sua essência ambígua, como encontra usa resolução que se equilibra graciosamente entre o realismo e a fantasia.

 

morto não fala daniel oliveira

 

Essa construção muito bem pensada desponta como destaque do filme ao lado de seus personagens altamente relacionáveis, apesar do protagonista em si passar bem longe de ser um herói. Daniel de Oliveira (10 Segundos para Vencer) dá vida a um homem egoísta e amargo que foi moldado pela falta de dinheiro, pela privação de sono e por diversos outros aspectos sociais.

O resultado é um caldeirão de emoções que, assim como acontece no novo Coringa, explode graças ao acúmulo de mágoa e solidão. As escolhas feitas por Ramalho durante esse caminho fazem com que ele consiga, sem romantizar as escolhas ruins, conquistar alguns pontos de compreensão com o auxílio de camadas narrativas consideravelmente complexas.

Entretanto, caso Stênio não te conquiste logo de cara, Morto Não Fala deixa engatilhada uma espécie de garantia sustentada por coadjuvantes muito fortes. Fabiula Nascimento (O Lobo Atrás da Porta), por exemplo, cria um antagonismo tão forte ao personagem principal que acaba dando vida a uma dinâmica próxima das lutas entre Venom e Carnificina, onde o segundo é tão ruim que faz até mesmo um assassino parecer perdoável.

Já a ingenuidade e a doçura da Bianca Comparato (3%) soa deslocada no meio daquela loucura até sua função dentro da narrativa ser revelada. E tudo isso sem contar com as crianças que, além do ótimo trabalho nas cenas de terror, representam as figuras que ninguém espera ver sofrendo. É exatamente o que o filme precisa para manipular a torcida do espectador, garantindo que até mesmo um pai desprezível seja validado como herói.

 

Morto não fala

 

Indo além, é possível dizer inclusive que os dois filhos de Stênio são a alma do filme em diversos momentos, porque a simpatia por eles ajuda a salvar um longa que escorrega algumas vezes quando o assunto é direção.

Não vou negar que Dennison tem muito conhecimento do gênero e pleno controle das ferramentas que pode usar na hora de dar susto, criar tensão ou enojar, porém nada disso impede que o ritmo caia durante o segundo ato ou que a computação gráfica no rosto dos mortos prejudique o senso de imersão.Por mais que eu entenda o objetivo por trás dessa última decisão, a execução me tirou do clima em todas as (inúmeras) vezes em que o efeito é utilizado.

As únicas coisas que me levavam de volta eram os personagens e a riqueza temática/estrutural do texto. Isso significa que o diretor precisa agradecer bastante ao roteiro e ao seu elenco por ambos cumprirem com louvor suas missões de garantir um produto que se aproxima das grandes obras de horror que o nosso cinema tem entregado nos últimos anos. São eles que se misturam ao amor de Dennison pelo sombrio e permitem que, mesmo passando longe da perfeição, Morto Não Fala se encaixe naquela lista de produções nacionais dignas de elogios e uma tela grande.