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Filmes

Missão no Mar Vermelho – Ação sem fôlego ou emoção

Nem sempre fatos históricos importantes geram bons filmes...


2 de agosto de 2019 - 19:05 - Flávio Pizzol

Baseado em fatos reais, Missão no Mar Vermelho usa uma ótima história como plano de fundo para um filme de ação sem carisma ou emoção.


A história do mundo é compostas por vários momentos que mudaram o curso dos acontecimentos, evitaram guerras ou salvaram vidas. Alguns são enormes, outros pequenos e, apesar de qualquer importância, muitos permanecem desconhecidos graças à distância cultural ou às poucas (talvez nenhuma) menções em livros escolares. E é por isso que eu fico feliz quando esses momentos “ocultos” são adaptados para o cinema. No entanto, como Missão no Mar Vermelho insiste em deixar claro, a verdade é que nem sempre uma boa história vai originar um bom filme.

Entretanto, antes de qualquer coisa, vamos falar rapidinho sobre a essa tal trama desconhecida: o longa acompanha um grupo de agentes do Mossad (serviço secreto israelense) em uma missão para resgatar judeus etíopes que fugiram do seu país por conta da guerra civil. Uma tarefa perigosa que ganha ainda mais problemas quando o melhor plano possível é usar um hotel de fachada localizado no litoral de um país marcado por seu governo ditatorial extremamente violento.

O roteiro, escrito pelo diretor israelense Gideon Raff (responsável pela série que deu origem a Homeland), parece saber a importância dessa história e os diversos paralelos políticos que podem ser realizados com os tempos atuais, porém escolhe manter toda a questão histórica como plano de fundo para um simples longa de ação. Essa opção acaba tirando a profundidade de um longa que tinha potencial pra tocar em feridas bastante atuais, como a questão do refugiados em continua em voga até hoje. No entanto, vale lembrar que estamos falando de uma escolha consciente e, apesar do possível desperdício, não é justo avaliar o filme pelo que eu gostaria que ele fosse. Ele é um filme de ação com pitadas de suspense político e deve ser avaliado assim.

A questão é que, mesmo dentro desse gênero, Missão no Mar Vermelho é um filme cheio de problemas. Começando, desde o início, pela maneira como o plano de fundo histórico, os personagens e os detalhes da missão em si são expostos da forma mais atropelada e apressada possível. A narração in off não passa de uma muleta que aparece e desaparece sem nenhuma regra, as informações são jogadas na tela de maneira bagunçada e até os textos de introdução passam mais rápido do que o normal. Essa correria prejudica a apresentação das peças envolvidas no jogo e resulta em uma produção bastante confusa até o segundo ato revelar um ritmo diferente. A partir daí, só é difícil entender porque essa pressa é, ironicamente, substituída  por uma narrativa que não pega no tranco.

E o motivo principal, na minha opinião, está ligado ao fato de Missão no Mar Vermelho ser estereotipado e completamente raso. Os protagonistas são praticamente super-heróis que nunca deixam ninguém pra trás, os generais sudaneses são vilões indiscutíveis que carregam toda a crueldade consigo, os refugiados são pessoas necessitadas e por aí vai. O longa evita qualquer aprofundamento que possa adicionar camadas a história como um todo, incluindo na lista uma série de personagens mal aproveitados que sequer comentam sobre sua vida particular ou seus supostos passados traumáticos.

Não existe nada que sustente as decisões e motivações dos personagens com força suficiente para os conectar com o público, gerando pelo menos uma espécie de torcida pela vida deles no terceiro ato. Todos eles parecem estar ali só porque foram designados, contradizendo o próprio filme e sua montagem clichê onde o líder precisa convencer a equipe. O protagonista e uns outros dois membros até falam rapidamente sobre seus traumas ou suas famílias, mas isso não influencia suas respectivas escolhas em nenhum instante. É só um elemento extra e desnecessário que se junta, por exemplo, a apresentação das habilidades de luta de uma personagem que mal vai participar da ação.

Isso logicamente deixa o filme mais longo e arrastado do que precisava, porém a maior consequência de ignorar qualquer profundidade entre os personagens está no enfraquecimento automático das relações entre eles. O grupo de agentes “super-heróis” não funciona como grupo, porque não existe força ou credibilidade no vínculo que o longa tenta vender. É só observar como nenhuma discussão consegue entre eles consegue esquentar ou tirar Missão no Mar Vermelho do seu marasmo. Tudo bem que a direção do próprio Raff não ajuda nem um pouquinho nessa parte da missão, mas vale dizer que é difícil trabalhar com personagens que não tem nenhum peso.

Só não é possível tirar essa culpa das costas dele por dois motivos bem simples: a) ele também é o roteirista responsável por todos esses escorregões; e b) os problemas da direção não param por aí. Na real, eles vão muito além. E é triste dizer isso, mas eu fiquei com a sensação que Gideon Raff colocou todas as câmeras no piloto automático de tão morno que é seu trabalho como diretor aqui. A ação não é eletrizante, a violência não é impactante e até mesmo as mortes – sem nenhum senso de ameaça por trás – passam batidas. Uma sequência específica mostra diversos refugiados sendo assassinados à sangue-frio, porém o resultado total é menos emocionante do que qualquer foto atual sobre o tema. E nesse caso, por mais brega e arriscado que seja, devo dizer que o longa em si sente falta de momentos mais “apelativos” para usar como possíveis pontos de virada e retomar a atenção do espectador.

No entanto, isso não acontece e o castelo de cartas desaba de uma vez por todas, desperdiçando inclusive seu bom elenco entre meros ajudantes do herói e personagens que nunca fogem do básico. Chris Evans (Vingadores: Ultimato) interpreta basicamente uma versão monocromática e menos profunda do Capitão América, o ótimo Michael Kenneth Williams (Olhos que Condenam) aparece poucas vezes para repetir variações da mesma frase de efeito, Haley Bennett (Sete Homens e um Destino) fica presa no hotel sem poder liberar seu empoderamento, Michiel Huisman (A Maldição da Residência Hill) está escalado só porque parece ter virado o queridinho das produções originais da Netflix e Ben Kingsley (Mogli) tem uma função narrativa muito específica e óbvia.

O único que consegue se destacar um pouquinho mais é Chris Chalk (Gotham) com o antagonismo simples e brutal do Coronel Abdel Ahmed. Apesar das cenas não conseguirem alcançar o impacto máximo desejado, ele se esforça para convencer nos momentos mais brutais e tensos. Infelizmente, não aparece o suficiente para melhorar um pouquinho a experiência frouxa e tediosa que foi assistir Missão no Mar Vermelho. E, por incrível que pareça, tal resultado negativo não indica um filme ruim e inassistível. Só um filme de ação inerte e sem emoção que não conseguiu me fisgar. Mas a história é realmente interessante e talvez (vou torcer) seja diferente com você…