0

Intenso e emocionante, Milagre na Cela 7 é um melodrama turco cujo objetivo é arrancar lágrimas de qualquer maneira.


Palco de um caldeirão social, cultural e político desde a época do Império Bizantino, a Turquia passou por um dos seus momentos mais sombrios e violentos depois que um golpe de estado colocou os militares no poder em 1980. A ideia era encerrar os enfrentamentos mortais entre a esquerda radical e a extrema-direita, mas os resultados foram ainda mais desastrosos. Mais de 650 mil pessoas foram presas e torturadas (incluindo “centenas de ativistas, professores universitários e sindicalistas”), no mínimo 50 opositores foram executados sem julgamento prévio e milhares de famílias fugiram do país como refugiados, enquanto a constituição era substituida por uma Carta Magna muito mais conservadora.

É nesse contexto que Milagre na Cela 7 nos apresenta Memo, um homem com problemas mentais que acaba sendo preso injustamente após a morte da filha de um militar importante. O problema é que as grades da prisão separam o protagonista da filha de seis anos que ele ama incondicionalmente. Um amor inocente e tão grande que pode contagiar, e até mesmo mudar a vida daqueles que o cercam.

Pronto. Está preparado o terreno para que o longa turco (que, na verdade, é uma refilmagem mais pesada de uma “dramédia” coreana lançada em 2013) construa sua trama. Uma narrativa cheia de emoção que abraça basicamente dois gêneros clássicos em sua estrutura: a cinebiografia e o melodrama.

Milagre na Cela 7

No caso do primeiro, rola uma pequena trapaça, já que o filme não chega nem perto de ser baseado em fatos reais. No entanto, isso não impede que o roteiro absorva técnicas e regras que compõem diversas biografias adaptadas pra telona. Desde a abertura que inicia uma grande lembrança em flashback, a construção do cenário político e da história de Memo se entrelaçam de uma maneira que muito real. Um trabalho é tão bem feito que engana facilmente quem não conhece os detalhes da história turca. Eu, por exemplo, fiquei a sessão inteira pensando que a pena de morte no país acabaria por conta daquele caso, independente do resultado ser positivo ou negativo.

Eu sei que essa pode ser uma impressão muito particular (talvez outras pessoas não tenham sentido o mesmo), porém tal “pegada realista” precisa ser comentada por fazer parte de forma inerente das escolhas estilísticas impostas pelo roteiro e pela direção. Presença constante nas novelas turcas, essa dramaticidade verdadeira, palpável e até mesmo popular é decisiva na composição do longa, porque ele depende muito dessa relação humana construída entre o público e seus personagens.

Em outras palavras: o filme precisa que o espectador se apegue a história sem meias palavras, rodeios ou complicações, logo permite que o melodrama tome conta de tudo em sua forma mais clássica. Isso faz com que Milagre na Cela 7 imite as regras criadas pelo teatro grego, intensificando exageradamente as características virtuosas dos heróis e/ou os vícios dos vilões com o intuito de comover da maneira mais simples e direta possível. Dessa forma, criam-se lados antagônicos que ajudam tanto na construção de uma moral, quanto na manipulação sentimental de quem está assistindo.

Milagre na Cela 7

Um ambiente de emoções ampliadas que vai do riso exagerado ao choro constante, dependendo das escolhas de cada trama. A versão coreana, segundo as críticas que li, prioriza a comédia, enquanto essa versão turca escolhe caminhos mais pesados onde a injustiça machuca, a violência incomoda e os trejeitos “loucos” de Memo geram mais pena do que graça. Minha mãe chegou a dizer que não consegue imaginar uma versão mais leve da história, mas a verdade é que o melodrama pode extrapolar para os dois lados sem nenhum problema.

Os turcos – apoiados tanto pelo tom sentimentalista que suas novelas costumam abraçar, quanto pela escolha de um cenário político extremamente doloroso – decidem ir por esse caminho onde qualquer sequência é vista como uma oportunidade de arrancar lágrimas do espectador. Sejam esses momentos de violência, felicidade ou redenção, Milagre na Cela 7 sempre tenta provocar lágrimas. Estas podem não ser apenas de tristeza, mas são o quociente comum desejado pela produção.

Mas por que eu estou batendo tanto nessa tecla? Porque o filme procura o choro de tantas formas que chega a soar forçado em algumas dessas ocasiões.

Tudo feito com técnicas bastante variadas que abrangem do roteiro a direção, passando pelo elenco. Ás vezes é a trilha sonora repleta de notas tristes que sobe o volume repentinamente. Às vezes é a edição que estica o tempo até não ser possível segurar o choro. Já em outras situações, é o texto pesado que aperta nosso coração, mostrando sem segredos como a vida pode passar longe de um comercial de margarina. O filme até merece alguns pontos por distribuir esse repertório de estratégias sem muitas repetições durante a projeção, mas isso não muda o fato de que cada cena importante vem acompanhada por algum artificio que instigue o choro.

Milagre na Cela 7

Só que, mesmo antecipando as emoções propostas pelo longa e cansando a partir de certo ponto, isso não faz com que Milagre na Cela 7 seja menos eficiente. Afinal de contas, o filme escolhe se desenvolver como um melodrama super sentimental e cumpre tal proposta com louvor. Quem está mais acostumado com a estética que acompanha o gênero em questão pode não cair nessas armadilhas um tanto quanto clichês e acabar esbarrando numa obra “mais fraca” do que o esperado, mas ver grande parte do público chorando a cada trinta minutos de película (incluindo minha mãe) deixa claro que a produção quer abraçar suas limitações em nome da emoção. 

No entanto, é bom deixar esclarecer um detalhe: não estamos falando daqueles filmes ruins que seus realizadores defendem através do argumento de que “foi feito para o público e não para a crítica”. A crítica faz parte do público e, na maioria das vezes, só difere deste por estar mais calejado com referências. Por isso, eu repito que algumas estratégicas narrativas usadas aqui podem ser vistas como simplórias por quem já encontrou esses mesmos clichês em outras oportunidades. A diferença é que, nesse caso, os problemas param aí.


Leia Mais

Crítica de O Poço

Crítica de A Casa

– Listas com filmes estrangeiros da Netflix que podem conferidas aqui e aqui


Milagre na Cela 7 pode ser simples e até exagerado, mas não é uma obra desconjuntada que coleciona erros graves no desenvolvimento de suas peças-chave. O texto, por exemplo, é decisivo na apresentação de um protagonista que cativa o público imediatamente, na construção de uma relação crível entre ele e a filha e na criação de um antagonismo poderoso a partir das injustiças políticas. É impossível não sentir raiva do general, não torcer pelo livramento de Memo ou não querer o bem de Ova. É, de fato, um trabalho direto e pouco inovador, mas também é eficiente na maneira como atinge o público através de seus temas universais.

A direção segue essa mesma toada com o já citado exagero e chega bem perto de soar cafona nas sequências que usam a música como muleta ou se estendem mais do que o necessário por conta de alguma câmera lenta. Entretanto, seria injusto diminuir um trabalho que não nada além de adotar as particularidades audiovisuais do seu país. Principalmente quando tal trabalho demonstra ter grande domínio da linguagem na hora de escolher o que deve (ou não) mostrar. Em outras palavras: existem momentos em que a violência é mostrada sem rodeios, gerando repulsa imediata; mas também existem situações em que o diretor vira a câmera por saber que a sugestão possui mais força emocional do que a imagem em si.

E, por fim, precisamos falar sobre as atuações. Uma última e fundamental peça do quebra-cabeça, visto que, como acontece na maioria das vezes, as escolhas feitam pela direção perderiam muito da sua eficiência ou do seu impacto sem cada um daqueles interpretes. Por mais novelescos que eles sejam, o filme poderia se tornar simplesmente um melodrama vazio que arranca lágrimas por obrigação, se o Memo não fosse interpretado por Aras Bulut Iynemli. E o mesmo pode ser dito sobre a avó, a filha, o diretor da prisão ou qualquer outro prisioneiro que acompanha a jornada. 

Milagre na Cela 7

Nisa Sofiya Aksongur (a interprete da pequena Ova) realmente possui algumas limitações comuns em atores ou atrizes- mirins, mas funciona como uma luva dentro de Milagre na Cela 7. Eles sabem como transmitir suas emoções com a dose certeira de verdade e não existe nada mais importante do que fazer o espectador acreditar no que está vendo. A cena do último encontro deles na prisão talvez seja o ápice do filme justamente por causa disso. Apesar da sequência ser construída através de inúmeras técnicas “manipulativas” óbvias, ela possui uma honestidade tão vigorosa que consegue arrancar lágrimas sem dificuldade.

E talvez seja a força desse momento que me faça desgostar um pouco da reviravolta. Ela chega logo depois desse momento genuíno e o contraste que surge quando os dois segmentos são comparados involuntariamente coloca em xeque a entrega dessa virada. E eu nem estou falando da escolha em si. É verdade que uma parte de mim preferia o final triste por conta do seu peso narrativo, porém o filme tem pleno direito de optar por um final mais novelesco e clichê desde que ele faça sentido dentro da trama. E ele faz…

O roteiro amarra todas as pontas bem direitinho e tal, mas a entrega da cena em si escorrega por ser o único momento em que a direção de Milagre na Cela 7 manipula o público sem nenhum pudor. E isso incomoda, mas, ainda assim, não quebra a imersão. A relação entre Memo e Ova tem força suficiente para segurar o longa até os seus últimos e catárticos planos transmitirem a mensagem mais importante: a proposta havia sido cumprida com intensidade e emoção.


OBS 1: Milagre na Cela 7 é uma ótima oportunidade de conhecer o cinema turco, porque é uma obra acessível e popular que equilibra muito bem as particularidades do país com os temas universais. Você não precisa saber que as novelas turcas apelam tanto para o sentimental ou sequer pesquisar sobre a ditadura que serve como plano de fundo, porque as mensagens centrais do filme mexem com qualquer ser humano, superando todas as barreiras criadas pela língua.

OBS 2: Milagre na Cela 7 ainda vai ganhar outras duas versões esse ano: uma produzida nas Filipinas e outra na Indonésia. A história permanece a mesma em sua essência, mas, aparentemente, cada uma vai seguir o caminho da Turquia e aproveitar suas particularidades em relação ao gênero e ao cenário político. Inclusive, a versão filipina parece ser, de acordo com pôster, um filme estrelado pelo Leandro Hassum…

product-image

Milagre na Cela 7 (2019)

8.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

HBO libera Sex and the City e Família Soprano de graça

Previous article

Nada Ortodoxa mostra que a religião é uma verdadeira prisão a céu aberto

Next article

You may also like

Comments

Leave a reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

More in Filmes