AODISSEIA
Filmes

MIB: Internacional – Um começo de franquia bem morno

Atuações carismáticas não conseguem salvar um roteiro inchado e extremamente óbvio.


15 de junho de 2019 - 19:44 - Flávio Pizzol

Acho difícil que algum brasileiro na casa dos 20 anos (um pouquinho mais, talvez) nunca tenha assistido MIB: Homens de Preto ou uma das suas continuações. É um típico filme de buddy cop que incluiu alienígenas na sua fórmula padronizada e se tornou um verdadeiro clássico das tardes da Globo. Por mais nenhum dos três longas possa ser considerado uma obra-prima, podemos admitir que a proposta marcou a vida de muita gente com a inventividade, as tecnologias bizarras e o carisma incomparável de Will Smith e Tommy Lee Jones. Logo, dentro dos tempos em que vivemos, não é nada surpreendente que MIB: Internacional chegue aos cinemas com a proposta de dar novo gás para a franquia.

E, considerando o universo que foi criado até então, também podemos admitir que a ideia desse novo longa consegue ter alguns pontos bem interessantes. Seria uma espécie de reboot/continuação que utilizaria novos agentes cheios de carisma, novos casos de alienígenas fazendo bagunça e a possibilidade de seguir o que John Wick tentou fazer nos últimos anos: expandir uma mesma fórmula para um escopo mundial. Um caminho já testado que poderia render bons frutos, caso o longa realmente tivesse força para ser pontapé que essa nova franquia precisaria.

O primeiro – e principal – ponto que pesa contra isso é justamente o roteiro escrito pela dupla Art Marcum e Matt Holloway (responsáveis pelo primeiro Homem de Ferro). É um trabalho tão óbvio que ver o trailer já praticamente escancara o vilão. E tal característica ainda se repete nas outras reviravoltas menores, nas piadas e até nos diálogos, fugindo de qualquer tipo de renovação. É um filme que escolhe manter-se em um local que diversos outros filmes já visitam com mais eficiência, sem conseguir surpreender, dar peso aos momentos de impacto ou sequer prender a atenção do espectador por muito tempo.

mib internacional tessa chris

Além disso, Marcum e Holloway entregam um filme extremamente inchado que se perde no meio de tantas subtramas desnecessárias, coincidências e personagens rasos e falas constrangedoras. Por motivos tão óbvios quanto MIB: Internacional, a união de todos esses problemas menores com a previsibilidade exagerada da trama resultam em uma experiência, no mínimo, medíocre. E o fato da direção de F. Gary Gray (Straight Outta Compton e Velozes & Furiosos 8) vir carregada com uma carga negativa de identidade funciona quase como a última pá de terra para o roteiro.

Mesmo tendo um domínio bem claro das técnicas necessárias para se dirigir boas cenas de ação, Gray não parece ter tido liberdade suficiente para injetar seu ritmo. O resultado são cenas de ação sem peso que sofrem com uma quantidade de tela verdade que prejudica a imersão do público, uma montagem recheada de problemas básicos (incluindo a ordenação das cenas) e a ausência quase completa de senso de urgência. É claro que tudo isso também está ligado a obviedade e aos personagens batidos, mas o fato é: se o espectador não consegue sentir nem medo ou tensão através dos protagonistas, as outras sensações acabam sendo deixadas totalmente de lado.

E, sem nenhuma dúvida, a ausência de um grande vilão exerce grande influência nesse último aspecto. Como o texto nunca estabelece uma ameaça que possa funcionar como antagonista principal, MIB: Internacional precisa distribuir tal função entre alguns personagens sem motivação que, no final das contas, são menores que um coadjuvante. Rebecca Ferguson (Missão: Impossível – Efeito Fallout) passa por esse vexame e termina completamente desperdiçada, Rafe Spall (Black Mirror) também assume o papel em momentos pontuais sem muito sucesso e os gêmeos entram e saem de cena como meras massas de CGI que atacam sem nenhuma necessidade.

mib internacional tessa chris

Levando em conta a premissa de que um herói é tão bom quanto seu vilão, essa transição defeituosa entre antagonistas faz com que Tessa Thompson (Creed II) e Chris Hemsworth (Vingadores: Ultimato) tenham que trabalhar em dobro para carregar o longa nas costas. E a sorte do filme é que eles, além de ter presença de tela e carisma pra dar e vender, se garantem como uma dupla desajustada de agentes, importando boa parte do carisma que vem sendo cultivada desde Thor: Ragnarok. É isso que segura a onda e mantém o filme na linha dos aceitáveis, porque até as piadas escritas por Marcum e Holloway parecem deslocadas na maior parte do tempo. A única peça que acaba realmente funcionando é o pequeno Pawny, mas, mesmo assim, a responsabilidade precisa ser dividida entre as tiradas bem posicionadas do roteiro e o ótimo trabalho de voz de Kumail Nanjiani (Doentes de Amor).

E eu sei que essa crítica deixa uma ideia de que odiei o filme, mas isso não é necessariamente verdade. A mistura desse carisma todo com alguns momentos muito pontuais das cenas de ação resultam em um filme de Sessão da Tarde decente. No entanto, esse mesmo conjunto não consegue manter o público investido na história por duas horas de projeção e passa longe de conquistar alguém com força suficiente para garantir que a franquia tenha uma “nova vida” relativamente longa nos cinemas. Em outras palavras: MIB: Internacional pode ser um bom passatempo num domingo chuvoso, mas é morno demais funcionar como pontapé ou marcar as tardes de alguém.