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MIB: Internacional até reúne algumas boas ideias, mas escorrega na execução de quase todas.


Acho difícil que algum brasileiro na casa dos 20 anos (um pouquinho mais, talvez) nunca tenha assistido MIB: Homens de Preto ou uma das suas continuações. É um típico filme de buddy cop que incluiu alienígenas na sua fórmula padronizada e se tornou um verdadeiro clássico das tardes da Globo. Por mais nenhum dos três longas possa ser considerado uma obra-prima, podemos admitir que a proposta marcou a vida de muita gente com a inventividade, as tecnologias bizarras e o carisma incomparável de Will Smith e Tommy Lee Jones. Logo, dentro dos tempos em que vivemos, não é nada surpreendente que MIB: Internacional chegue aos cinemas com a proposta de dar novo gás para a franquia.

E, considerando o universo que foi criado até então, também podemos admitir que a ideia desse novo longa consegue ter alguns pontos bem interessantes. Seria uma espécie de reboot/continuação que utilizaria novos agentes cheios de carisma, novos casos de alienígenas fazendo bagunça e a possibilidade de seguir o que John Wick tentou fazer nos últimos anos: expandir uma mesma fórmula para um escopo mundial. Um caminho já testado que poderia render bons frutos, caso o longa realmente tivesse força para ser pontapé que essa nova franquia precisaria.

O primeiro – e principal – ponto que pesa contra isso é justamente o roteiro escrito pela dupla Art Marcum e Matt Holloway (responsáveis pelo primeiro Homem de Ferro). É um trabalho tão óbvio que ver o trailer já praticamente escancara o vilão. E tal característica ainda se repete nas outras reviravoltas menores, nas piadas e até nos diálogos, fugindo de qualquer tipo de renovação. É um filme que escolhe manter-se em um local que diversos outros filmes já visitam com mais eficiência, sem conseguir surpreender, dar peso aos momentos de impacto ou sequer prender a atenção do espectador por muito tempo.

mib internacional tessa chris

Além disso, Marcum e Holloway entregam um filme extremamente inchado que se perde no meio de tantas subtramas desnecessárias, coincidências e personagens rasos e falas constrangedoras. Por motivos tão óbvios quanto MIB: Internacional, a união de todos esses problemas menores com a previsibilidade exagerada da trama resultam em uma experiência, no mínimo, medíocre. E o fato da direção de F. Gary Gray (Straight Outta Compton e Velozes & Furiosos 8) vir carregada com uma carga negativa de identidade funciona quase como a última pá de terra para o roteiro.

Mesmo tendo um domínio bem claro das técnicas necessárias para se dirigir boas cenas de ação, Gray não parece ter tido liberdade suficiente para injetar seu ritmo. O resultado são cenas de ação sem peso que sofrem com uma quantidade de tela verdade que prejudica a imersão do público, uma montagem recheada de problemas básicos (incluindo a ordenação das cenas) e a ausência quase completa de senso de urgência. É claro que tudo isso também está ligado a obviedade e aos personagens batidos, mas o fato é: se o espectador não consegue sentir nem medo ou tensão através dos protagonistas, as outras sensações acabam sendo deixadas totalmente de lado.

E, sem nenhuma dúvida, a ausência de um grande vilão exerce grande influência nesse último aspecto. Como o texto nunca estabelece uma ameaça que possa funcionar como antagonista principal, MIB: Internacional precisa distribuir tal função entre alguns personagens sem motivação que, no final das contas, são menores que um coadjuvante. Rebecca Ferguson (Missão: Impossível – Efeito Fallout) passa por esse vexame e termina completamente desperdiçada, Rafe Spall (Black Mirror) também assume o papel em momentos pontuais sem muito sucesso e os gêmeos entram e saem de cena como meras massas de CGI que atacam sem nenhuma necessidade.

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Levando em conta a premissa de que um herói é tão bom quanto seu vilão, essa transição defeituosa entre antagonistas faz com que Tessa Thompson (Creed II) e Chris Hemsworth (Vingadores: Ultimato) tenham que trabalhar em dobro para carregar o longa nas costas. E a sorte do filme é que eles, além de ter presença de tela e carisma pra dar e vender, se garantem como uma dupla desajustada de agentes, importando boa parte do carisma que vem sendo cultivada desde Thor: Ragnarok. É isso que segura a onda e mantém o filme na linha dos aceitáveis, porque até as piadas escritas por Marcum e Holloway parecem deslocadas na maior parte do tempo.

A única peça que acaba realmente funcionando é o pequeno Pawny, mas, mesmo assim, a responsabilidade precisa ser dividida entre as tiradas bem posicionadas do roteiro e o ótimo trabalho de voz de Kumail Nanjiani (Doentes de Amor).

E eu sei que essa crítica deixa uma ideia de que odiei o filme, mas isso não é necessariamente verdade. A mistura desse carisma todo com alguns momentos muito pontuais das cenas de ação resultam em um filme de Sessão da Tarde decente. No entanto, esse mesmo conjunto não consegue manter o público investido na história por duas horas de projeção e passa longe de conquistar alguém com força suficiente para garantir que a franquia tenha uma “nova vida” relativamente longa nos cinemas. Em outras palavras: MIB: Internacional pode ser um bom passatempo num domingo chuvoso, mas é morno demais funcionar como pontapé ou marcar as tardes de alguém.


OBS 1: O longa teve vários problemas internos durante a produção. Confira alguns aqui.

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MIB: Internacional

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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